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Eleições · Persuasão
Eleições 2026 · Uma peça de campanha, lida por dentro

A cartilha para derrotar Flávio

Circula nas redes um guia de 12 páginas com um método para tirar votos de Flávio Bolsonaro no segundo turno. A instrução central não é acusar. É fazer perguntas até o eleitor "chegar sozinho à conclusão". Este texto abre a peça página a página, mostra a técnica de persuasão por trás dela e entrega a contra-cartilha: como reconhecer o roteiro e responder a cada pergunta com um fato.

A peça "Como vencer o 2º turno" Método Perguntar, não acusar Alvos Abstenção · terceira via Defesa A contra-cartilha
Ponto de partida: a cartilha "Como vencer o 2º turno", peça de militância pró-Lula que circula nas redes e pressupõe um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro · A autoria oficial não é confirmada · Texto informativo e opinativo: descreve o método da peça e oferece a defesa contra ele, sem afirmar culpa nem inocência de quem quer que seja.

A peça não pede para gritar. Pede o contrário. "Ao invés de fazer acusações agressivas ou tentar impor seu ponto de vista, levante perguntas." É esse o conselho que organiza as 12 páginas da cartilha "Como vencer o 2º turno", um guia de militância que circula nas redes e parte de um cenário:Um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.A própria cartilha diz, com todas as letras, que o objetivo não é fazer ninguém gostar do Lula. É fazer o adversário "deixar de parecer uma alternativa aceitável". E ensina como.

Como ler este texto Este artigo faz duas coisas. Primeiro, descreve o que a cartilha manda fazer, página a página, sem distorcer. Depois, oferece a contra-cartilha:O roteiro de defesa para quem for abordado por esse método.As frases entre aspas são da própria peça. Os contrapontos são argumentos de defesa, não sentenças. Nenhuma das alegações sobre Flávio citadas aqui tem condenação, e o texto não afirma que sejam verdadeiras nem falsas.

O que é a peça

É uma cartilha ilustrada, de identidade visual vermelha e estrela, dividida em duas metas práticas. A capa já diz a que veio:

"Se você quer que o Flávio Bolsonaro não ganhe, faça as 2 coisas a seguir — um guia prático para ganharmos as eleições com base nas últimas pesquisas."

No fim, o chamado:

"Faltam 21 dias para o segundo turno. Agora é eu, você e Nossa Senhora."

As duas metas são complementares. Uma soma votos de um lado. A outra subtrai votos do outro. Vamos às duas.

Capa da cartilha 'Como vencer o 2º turno': fundo vermelho com uma estrela branca no alto.
A capa da peça que circula nas redes. Vermelho, estrela e a bênção de Nossa Senhora no fim.

O documento se apresenta como material de orientação para apoiadores. Não traz carimbo de comitê nem assinatura de campanha, e a autoria oficial não é confirmada. O que importa é o conteúdo e a técnica. É isso que dá para reconhecer numa conversa.

Meta 1 — Somar votos pelo combate à abstenção

A primeira metade da cartilha se chama "Como ganhar votos para o Lula" e começa por um ponto simples:

O problema não é só convencer, é fazer o eleitor comparecer.

"A gente não pode deixar nenhum voto em casa."

Dois públicos recebem atenção especial.

Eleitores com 70 anos ou mais

O Brasil tem mais de 17 milhões de eleitores com 70 anos ou mais, faixa em que o voto é facultativo. A peça afirma que, em 2022, mais da metade desse grupo não foi votar, e faz a conta:

"São mais de 8 milhões de 70+ que não votaram, numa eleição decidida por 2 milhões de votos."

Ou seja: mobilizar esse grupo pode, sozinho, virar a eleição.

A cartilha manda começar pela própria família e vizinhança e ajudar no que for prático:

"Consultar o local de votação, separar o documento, planejar o deslocamento, acompanhá-la ou encontrar companhia para ela ir votar."

Os assuntos sugeridos são o Farmácia Popular, o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a lembrança da pandemia.

Página da cartilha sobre eleitores com 70 anos ou mais: destaca 17 milhões de eleitores nessa faixa e orienta começar pela própria rede.
A página do público 70+: a conta da abstenção vira tarefa de ir atrás de quem faltou.

Beneficiários de programas sociais

O segundo público é o de quem depende de programas sociais. Aqui a cartilha se preocupa mais com o jeito de falar:

Reconhecer que "a vida dessas pessoas é muito difícil", não dizer que está tudo bem e, sobretudo, não tratar ninguém como quem "vota errado".

"Reconheça que elas entendem da vida delas e sabem o que é melhor para elas."

Só então a peça sugere perguntar se a pessoa acredita que Flávio Bolsonaro entende a situação de vida dela e vai defender esses programas.

17 mieleitores 70+ (voto facultativo)
8 mi70+ que teriam faltado em 2022
2 mia margem que a peça projeta
21dias até o 2º turno, no fecho
O que aqui é jogo limpo Vale separar o joio do trigo. Levar a avó para votar é democracia, não manobra. Combater a abstenção, ajudar com documento e transporte, conversar com quem se conhece — tudo isso é atividade política legítima, e qualquer campanha de qualquer lado faz. O que merece exame crítico é a segunda meta, pela técnica que emprega.

Meta 2 — Subtrair votos sem atacar de frente

A segunda metade, "Como tirar votos do Flávio Bolsonaro", mira quem votou na terceira via no primeiro turno. E começa com um aviso esperto:

"Quem votou na terceira via não gosta do Lula nem do Flávio, e dificilmente vai passar a gostar do Lula. Não gaste energia tentando convertê-lo."

Aí o objetivo muda. Não é ganhar o voto, é fazer o Flávio deixar de parecer uma opção aceitável:

"O objetivo é que o Flávio deixe de parecer uma alternativa aceitável. Quanto mais essa pessoa olha para o Flávio, pior ele fica — então fale do Flávio, não do Lula."

A peça até descreve essa pessoa:

Ela "não gosta de política e foge de militante, de quem lacra, aterroriza ou idolatra".

Nada de militância, portanto. O tom deve ser de quem reconhece que "a terceira via é legítima e que a polarização faz mal ao país".

Os três ataques que, segundo a peça, funcionam melhor

A cartilha lista, "segundo pesquisas", os três argumentos de maior efeito. Cada um vem com um roteiro de conversa pronto, sempre encerrado por uma pergunta.

  1. "Ele nunca entregou nada." O roteiro manda lembrar que Flávio tem quase 30 anos de vida pública e perguntar: "Você sabe dizer uma coisa relevante que ele fez pelo país? Chegou aqui por mérito próprio ou por ser filho do pai?"
  2. "Ele vai entregar o Brasil para o Trump." O roteiro invoca o tarifaço, a ameaça ao Pix e o interesse em recursos naturais, e pergunta: "Você já viu o Flávio defender o Brasil do Trump? Dá para contar com ele para defender os nossos interesses?"
  3. "Ele não é confiável." O roteiro cita o episódio do empresário Daniel Vorcaro — a afirmação de que não o conhecia, seguida de um áudio em que o chamaria de "irmãozão" — e pergunta: "Dá para acreditar no que ele fala? Você já reparou com quem ele anda?"

A técnica da pergunta

A peça termina com um quadro que mostra o método inteiro. De um lado, o que não dizer. Do outro, a pergunta que substitui a acusação.

Em vez de afirmar…A cartilha manda perguntar…
"Ele é mentiroso""Dá para confiar no que ele fala?"
"Ele é miliciano""Você já viu com quem ele anda?"
"Ele é incompetente""Você lembra de alguma coisa que ele fez?"
"Ele é capacho do Trump""Você já viu ele defender o Brasil dos ataques do Trump?"

A técnica por trás

O que a cartilha faz não é novo. É retórica clássica aplicada à campanha eleitoral, e funciona por razões que a psicologia conhece bem. Vale dar nome a cada parte, porque é mais fácil se defender do que se conhece.

A teoria por trás do truque O método tem nome e literatura. A psicologia chama de reactância a nossa reação de resistir quando sentimos que querem nos impor algo — por isso a cartilha manda não "impor seu ponto de vista". O conceito é de Jack Brehm (1966), e a pergunta foge exatamente desse gatilho. Soma-se a ele o princípio do compromisso e coerência, descrito por Robert Cialdini: quem diz uma conclusão em voz alta tende a se manter fiel a ela. E o efeito de autogeração: o que a pessoa conclui por conta própria fixa mais do que aquilo que lhe é dito. É a mesma mecânica do questionamento socrático usado na terapia cognitiva de Aaron Beck — só que, aqui, a serviço de uma conclusão escolhida de antemão.
O que a defesa precisa entender A pergunta da cartilha não é uma pergunta. É uma afirmação disfarçada. "Você lembra de alguma coisa que ele fez?" é a acusação "ele é incompetente" em forma de dúvida. Quem responde à pergunta entra no jogo pela porta que o outro abriu. Quem responde à afirmação por trás da pergunta recupera o controle da conversa.
A defesa — o antídoto

A contra-cartilha: como se defender

Aqui está a parte prática, para quem for abordado por esse método, num grupo de família, numa conversa de vizinho ou num comentário "isento" na internet. A defesa tem três passos:

Reconhecer o roteiro, responder com fato e não reagir no impulso.

1 · Reconheça o roteiro

Você está na cartilha quando alguém que se diz cansado da polarização, que elogia a terceira via e jura não ser militante, começa a fazer perguntas sobre Flávio em vez de defender o próprio candidato. A isenção faz parte do roteiro. Se a conversa só anda para um lado, não é conversa, é roteiro. Reconhecer isso já tira boa parte da força, porque o método depende de você não perceber que é um método.

2 · Responda à afirmação, não à pergunta

Toda pergunta da cartilha esconde uma afirmação. Responda à afirmação, com calma, e devolva a pergunta. Veja o quadro:

Quando perguntarem…A defesa responde…
"Você lembra de alguma coisa que ele fez?"Mandato é tudo registrado: voto, projeto, relatoria, dá pra conferir. Agora me diz: o candidato que você defende, o que você lembra que ele fez em mais de dez anos no Planalto?
"Dá para confiar no que ele fala?"Confiança se prova com fato, não com "dizem que". Qual é a acusação, com prova na mão? Sem prova, é fofoca. E isso vale pros dois lados.
"Você já viu com quem ele anda?"Andar perto de alguém não é crime. Cada um responde pelo que fez, e isso precisa de prova. Senão, a gente condenava todo mundo pela companhia.
"Ele defende o Brasil dos ataques do Trump?"A briga com os EUA nasceu aqui dentro, da política e das decisões do próprio governo. E o Flávio foi a Washington tratar disso. Pergunta: a quem interessa o Brasil brigar com um dos maiores parceiros em vez de negociar?

3 · Os três ataques, com o contraponto

Os mesmos três argumentos da peça, agora com a resposta de defesa ao lado. À esquerda, o que a cartilha manda plantar. À direita, o contraponto.

A cartilha planta "Ele nunca entregou nada" Que mais de duas décadas de vida pública não produziram nada relevante, e que Flávio chegou onde está por ser "filho do pai".
O contraponto A régua mede todo mundo igual Flávio foi deputado estadual por quatro mandatos (2003–2019) e é senador desde 2019 — tá tudo registrado, dá pra conferir. Mas "quantas leis ele aprovou sozinho" é régua ruim pra qualquer um: Quase ninguém, de partido nenhum, aprova muito texto individual. O trabalho é coletivo: emendas, relatorias, comissões, fiscalização.
A cartilha planta "Ele vai entregar o Brasil ao Trump" Que o tarifaço, a ameaça ao Pix e o interesse em recursos naturais provam subordinação, e que Flávio não defenderia os interesses nacionais.
O contraponto E a oposição foi a Washington A crise com os EUA veio da política externa e das decisões judiciais do próprio governo, não da oposição. E o Flávio não ficou parado: Em setembro de 2026 esteve em Washington tratando de tarifas, minerais críticos e sanções — a frente da OFAC, o Tesouro americano que cobra dos bancos brasileiros. Discordar da retaliação não é aplaudir. Quem governa há quase quatro anos é quem responde pela relação.
A cartilha planta "Ele não é confiável" Que o episódio Vorcaro — negar conhecer o empresário e, depois, o áudio do "irmãozão" — prova que não se pode acreditar nele.
O contraponto Indício não é condenação Quando ele falou com o Vorcaro, ninguém sabia do que viria depois, e nada de ilícito foi encontrado. Aqui no site a gente destrinchou o Banco Master peça por peça: Veja o dossiê Moraes × Vorcaro antes de tomar insinuação por fato.

4 · A contratécnica psicológica

Conhecer o golpe antes dele chegar é o que a psicologia chama de inoculação. A ideia é de William McGuire (1961): uma dose fraca do argumento adversário, recebida com antecedência, cria uma espécie de anticorpo mental contra a versão forte. O efeito depende da surpresa. Tirada a surpresa, sobra pouco.

  1. Não responda com raiva. Quem se exalta vira exatamente o "militante raivoso" que a cartilha deles quer mostrar. Calma é defesa.
  2. Peça a prova, recuse a insinuação. Veio com "você já viu com quem ele anda?" Responda: "Qual é a acusação, com prova?" Insinuação não aguenta um pedido de prova.
  3. Devolva a pergunta à mesma régua. Se vale pra um lado, vale pro outro. Toda pergunta sobre o adversário cabe igualzinho no seu.
  4. Separe o que é limpo do que é manipulação. Levar idoso pra votar é limpo. Plantar dúvida com pergunta capciosa é outra coisa.

O que é jogo limpo e o que não é

Seria desonesto tratar a cartilha inteira como sujeira. Boa parte dela é política normal. Combater a abstenção, ajudar a avó com o transporte, falar de programas de governo, pedir o voto a quem se conhece. Nada disso é manobra. É o que toda campanha faz, e é saudável que faça.

O que separa persuadir de manipular é uma coisa só:

O conteúdo da pergunta.

Perguntar "você comparou as duas propostas de governo?" é convidar a pensar. Perguntar "você já viu com quem ele anda?" é plantar uma acusação sem o ônus de prová-la. A primeira abre a conversa. A segunda a fecha, com a aparência de abri-la. Defender-se não é recusar o diálogo: é exigir que a pergunta jogue limpo.

Guarde isto — para quem for abordado
1. Se a conversa só bate num lado, é roteiro, não papo.
2. Toda pergunta da cartilha é uma acusação disfarçada. Responda à acusação.
3. Peça a prova. Insinuação não é prova.
4. A mesma régua pros dois candidatos.
5. Não se exalte: a calma desmonta o "militante raivoso".

Em resumo

A cartilha é inteligente, e por isso vale conhecê-la. Ela aposta que a melhor forma de tirar um voto não é discutir, é perguntar, deixando o próprio eleitor concluir o que foi plantado. Contra isso não existe grito que funcione. Existe reconhecimento. Quem sabe que a pergunta é uma afirmação disfarçada não é conduzido por ela. Diante de qualquer "você já viu…", valem três reações simples:

Qual é o fato?
Qual é a prova?
E essa mesma pergunta cabe no outro candidato?

Quem leva essas três no bolso não é levado pela conversa.

E tem uma última reação, talvez a melhor de todas:

Não deixar nenhum voto em casa.

Leve seus pais, seus avós, seus conhecidos, todo mundo que pode votar e ainda não foi. Faça um mutirão de família:

Todos votam e, depois, se encontram numa casa, num bar, onde for.

A cartilha deles sabe que eleição se ganha no comparecimento. A melhor resposta é usar essa mesma regra a favor do seu lado.

Fonte deste texto:

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