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STF · Caso Vorcaro / Banco Master · Relatório da PF · setembro de 2026

As 218 páginas da PF
sobre Moraes e Vorcaro

Em 1º de setembro de 2026, o ministro André Mendonça tirou o sigilo do relatório forense que a Polícia Federal produziu a seu pedido (IPJ-A 3298613/2026). O documento não é sobre "uma mensagem": reconstrói, com metadados e cronologia, a relação entre Daniel Vorcaro e o contato salvo em seu celular como "Alexandre de Moraes BRASILIA", de um contrato de R$ 3 milhões por mês ao evento de Londres e à nota sobre "Andrei e Paulo". Lemos o relatório inteiro. Aqui está o que ele diz, e o que a própria PF ressalva.

218 Páginas do relatório da PF
R$ 131 mi Contrato do Master com o escritório da esposa (R$ 3 mi/mês)
52 Notas enviadas ao contato "A. de Moraes BRASILIA"
Dupla
nulidade
O que a PGR pediu em resposta

01 · O essencialO que o relatório é, e por que virou crise

A PF entregou a Mendonça, em 27 de agosto, uma "Informação de Polícia Judiciária" de 218 páginas. Em 1º de setembro o ministro retirou o sigilo. No mesmo dia, os fatos se precipitaram.

1. O documento

Análise forense do iPhone 17 Pro de Daniel Vorcaro, apreendido na Operação Compliance Zero. A PF identificou pessoas mencionadas em notas do celular, inclusive quem tem foro no STF.

2. O achado central

Um contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA", um contrato de R$ 3 mi/mês do Master com o escritório da mulher do ministro, e metadados de contrato assinados pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes".

3. O atrito

Ainda em 1º/09, Moraes e Mendonça bateram boca nos bastidores do Supremo. Moraes acusou o colega de "direcionar" a investigação; segundo colunista, quase houve agressão.

4. A reação

A PGR, de Paulo Gonet, citado no próprio relatório, pediu a nulidade de tudo, alegando que Mendonça extrapolou. A palavra final tende a caber ao plenário.

📄 Baixe o relatório completo da PF (PDF, 218 págs, fonte primária) ↗

02 · O que foi pedidoA ordem de Mendonça

Este ponto é o coração da disputa jurídica. O relatório abre transcrevendo a própria ordem do relator, nos autos da PET nº 15.556.

Mendonça deu 72 horas para os delegados da Compliance Zero atualizarem as investigações e, item 15, identificarem quem participou e foi mencionado em mensagens já apreendidas, incluindo eventuais autoridades com foro:

Item 15 da ordem do ministro-relator · PET 15.556

"as informações ora requisitadas devem contemplar a identificação das pessoas que participaram e foram mencionadas nas mensagens reproduzidas nas fls. 3-5 da IPJ-M nº 144738439.2026, aí incluídas eventuais detentoras de foro por prerrogativa de função, inclusive aquelas eventualmente sujeitas à incidência do art. 5º, I, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal."

Trecho da ordem transcrito no relatório da PF

Por que isso importa: o art. 5º, I, do Regimento Interno do STF diz que cabe ao plenário julgar, nos crimes comuns, os próprios ministros do STF e o procurador-geral. É exatamente esse dispositivo que vira o campo de batalha entre Mendonça (que quer levar ao plenário) e a PGR (que diz que o relator não podia agir sozinho).

03 · Como a PF ligou os pontosA engenharia da prova

O relatório não se apoia em "print" solto. Ele reconstrói, segundo a segundo, um padrão de comportamento no iPhone de Vorcaro, e é essa correlação técnica que sustenta o resto.

A PF cruzou dois registros do próprio sistema do aparelho: os "Logs" (que marcam o instante de envio de cada mensagem no WhatsApp) e o "Uso de Aplicativos" (que marca a abertura de apps e o momento exato de cada captura de tela). O padrão encontrado foi sempre o mesmo:

1Vorcaro escrevia um texto no app Notas
2Tirava um screenshot, e o iOS gerava um PDF idêntico automático
3Abria o WhatsApp e enviava
→Ao número +55 61 99266-4093

Como o PDF temporário nasce "no mesmo segundo ou um segundo depois" do screenshot, e o iOS o cria sozinho, sem intenção do usuário, ele funciona como um carimbo de horário involuntário. E o destinatário imediato, nos casos analisados, era sempre o terminal +5561992664093, atribuído ao contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA" Figura 11. Ao todo, a PF mapeou 52 notas nesse padrão.

Cartão forense do contato: nome 'Alexandre de Moraes BRASILIA', número +5561992664093, criado em 26/12/2023, com 187 interações registradas.
Figura 11. O cartão do contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA" no celular de Vorcaro, criado em 26/12/2023, com 187 interações de saída registradas. Reprodução do relatório da PF.

O que isso prova, e o que não prova

A correlação técnica é o ponto forte do relatório: mostra que aquelas notas saíram do aparelho de Vorcaro para um número que ele salvou com o nome do ministro. Ela não demonstra, por si só, quem estava do outro lado lendo, nem o que foi respondido, coisas que a própria PF não afirma.

04 · O vínculo formalO contrato com o escritório da esposa

O elo documental mais concreto do relatório é um contrato de prestação de serviços entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

26 de dezembro de 2023

"Fábio Faria" compartilha com Vorcaro os contatos "Alexandre de Moraes BRASILIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF", todos com o mesmo número, +5561992664093 Figura 12.

11 de janeiro de 2024

"Vivi Moraes" envia a Vorcaro a minuta do contrato. Os metadados do arquivo apontam como autor "Guilherme Benazzi" e, como última modificação, o usuário "Ministro Alexandre de Moraes", às 16:30 Figura 26.

15 de janeiro de 2024

A versão final da minuta tem sua última modificação registrada, nos metadados, pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes", às 23:04 Figura 32. Valor: R$ 3 milhões mensais, cerca de R$ 131 milhões no total Figura 31.

23 de janeiro de 2024

O contrato é assinado por Daniel Vorcaro (15:15) e por Angelo Antonio Ribeiro da Silva (15:35) Figura 34.

Captura do relatório: Fábio Faria compartilha com Vorcaro os contatos 'Alexandre de Moraes BRASILIA', 'Novo', 'STF TSE NOVO' e 'Eu STF', todos com o mesmo número.
Figura 12. "Fábio Faria" compartilha os contatos "Alexandre de Moraes BRASILIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF", todos com o mesmo número. Reprodução do relatório da PF.
Primeira página do contrato de prestação de serviços entre o escritório Barci de Moraes e o Banco Master.
Figura 27. O contrato entre o escritório Barci de Moraes e o Banco Master, representado por Guilherme de Toledo Benazzi. Reprodução do relatório da PF.

O que os metadados dizem, em bruto

MINUTA DE CONTRATO, propriedades do arquivo
AutorGuilherme Benazzi
Última modificação (minuta)"Ministro Alexandre de Moraes", 11/01/2024 16:30
Última modificação (versão final)"Ministro Alexandre de Moraes", 15/01/2024 23:04
Revisão posteriorLeonardo Palhares (advogado de Vorcaro)
ValorR$ 3 milhões/mês (~R$ 131 mi no total)
Assinatura23/01/2024
Figura 26: chat de 'Vivi Moraes' enviando a minuta, o texto do contrato e o painel de propriedades do arquivo mostrando 'Última Modificação por Ministro Alexandre de Moraes' em 11/01/2024 16:30.
Figura 26. O print real por trás do painel acima: o envio da minuta, o contrato e as propriedades do arquivo, autor Guilherme Benazzi e, em "Última Modificação por", Ministro Alexandre de Moraes (11/01/2024, 16:30). Reprodução do relatório da PF.
Painel de propriedades do arquivo do contrato: última modificação em 15/01/2024 23:04, autor Guilherme Benazzi, 'Última Modificação por' Ministro Alexandre de Moraes.
Figura 32. As propriedades do arquivo: "Última Modificação por" Ministro Alexandre de Moraes, em 15/01/2024 às 23:04. Reprodução do relatório da PF.
'Vivi Moraes' envia a Vorcaro a minuta final: 'Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço' com o anexo 'MINUTA CONTRATO BANCO MASTER FINAL'.
Figura 31. "Vivi Moraes" envia a versão final do contrato, de R$ 3 milhões mensais. Reprodução do relatório da PF.
Leitura honesta do dado: "Ministro Alexandre de Moraes" é o nome de usuário registrado nos metadados como último a modificar o arquivo — é o que o relatório afirma. Contratar um escritório de advocacia não é, em si, ilícito; o que o documento levanta é quem editou a minuta e qual a relação entre as partes. A avaliação jurídica disso é outra etapa, ainda não decidida.
A acusação, em resumo

Um contrato milionário editado pelo próprio ministro

O escritório da esposa fechou R$ 131 milhões com um banco que viria a ser alvo de investigação, e os metadados apontam o usuário "Ministro Alexandre de Moraes" como quem deu a última mão na minuta.

A defesa do escritório (nota)

"Não havia impedimento"

Segundo nota do escritório Barci de Moraes, o setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da advogada sócia, e concluiu que não havia impedimento: Moraes "nunca julgou causa envolvendo o Banco Master" e o contrato não previa atuação perante o STF. Os serviços, diz a nota, foram efetivamente prestados.

Página de assinatura do contrato entre Banco Master e Barci de Moraes, São Paulo, 16 de janeiro de 2024, assinado digitalmente por Daniel Bueno Vorcaro em 23/01/2024.
Figura 34. Contrato entre Banco Master e o Escritório de Viviane de Moraes assinado em 23/01/2024. Reprodução do relatório da PF.

05 · O fluxo financeiroOs pagamentos, e o "Careca"

A partir de fevereiro de 2024, o relatório acompanha as cobranças e transferências ligadas ao contrato. Aqui aparece o codinome que a PF associa ao ministro: "o Careca" (e um emoji de "homem careca").

O primeiro pagamento Fig. 149

08/02/2024, comprovante de transferência do Banco Master ao "Escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia", conta no Itaú, no valor de R$ 3.422.268,14.

"O careca não pode atrasar" Fig. 150

15/03/2024, Fábio Faria cobra pontualidade. Vorcaro ordena a um funcionário: "É op pgto mais importante que temos", "Pode pagar sempre, sem nota" Fig. 152.

"Não por PIX" Fig. 156

01/10/2025, Vorcaro orienta que os pagamentos ao escritório não sejam feitos por PIX.

O 2º contrato, até R$ 50 milhões

12/05/2025, contrato do escritório com a Viking Participações (Vorcaro é sócio): até R$ 50 milhões líquidos em 36 meses, R$ 40 mi em cotas de duas aeronaves (jato Legacy 650 e helicóptero Airbus EC 155 B1) e R$ 10 mi de reembolso de uso. A fatura de R$ 22,8 mi (jul/2025) é uma parcela desse contrato.

Cartões de R$ 300 mil aos filhos

Out/2025, o Master emitiu cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para cada um dos dois filhos do ministro (Alexandre e Giuliana Barci de Moraes). O pedido partiu de Guilherme Benazzi (escritório) e Vorcaro autorizou com um "OK". O escritório afirma que os cartões "jamais foram usados".

Mensagem de Fábio Faria a Vorcaro: 'Fala pra Patroa aí que o Careca confirmou o jantar com a gente no dia 02/02. Os 3 casais.'
Figura 33. Fábio Faria: "o Careca confirmou o jantar com a gente no dia 02/02. Os 3 casais." O apelido "Careca" que a PF associa ao ministro. Reprodução do relatório da PF.
Chat de Angelo Silva e a seta apontando para o comprovante de transferência do Banco Master ao escritório Barci de Moraes, no valor de R$ 3.422.268,14, em 08/02/2024.
Figura 149. O chat do pagamento (à esquerda) e a seta → o comprovante da transferência do Banco Master ao escritório Barci de Moraes: R$ 3.422.268,14, em 08/02/2024. Reprodução do relatório da PF.
Vorcaro orienta 'Romy Banco Master': 'É o pgto mais importante que temos', 'Pode pagar sempre, sem nota'.
Figura 152. Vorcaro orienta "Romy Banco Master": o pagamento ao escritório "é o pgto mais importante que temos" e "pode pagar sempre, sem nota". Reprodução do relatório da PF.
Vorcaro orienta Alberto Felix que os pagamentos para o escritório Barci de Moraes não devem ser feitos por PIX.
Figura 156. Vorcaro orienta Alberto Felix que os pagamentos ao Escritório Barci de Moraes não devem ser por PIX. Reprodução do relatório da PF.
Chat em que Ana Claudia pede para pagar a fatura, ao lado da própria fatura da Barci de Moraes contra a Viking Participações, no valor total de R$ 22.815.120,95.
Figura 169. O pedido de pagamento (à esquerda) e a própria fatura do escritório Barci de Moraes contra a Viking Participações: total de R$ 22.815.120,95 (parcela do 2º contrato, o de até R$ 50 mi). Reprodução do relatório da PF.

06 · Os encontros e o eventoCampos do Jordão, jantares e Londres

O relatório reúne, ao longo de 2024 e 2025, menções a encontros presenciais e a um evento no exterior. Dois pontos chamam a atenção pela presença de outras autoridades.

Campos do Jordão Fig. 24

Dez/2023, comitiva no Hotel Six Senses Botanique. Um funcionário de Vorcaro relata que "o Ministro pediu para tirar foto com todos os funcionários" e que "Zé Maria" (o chef de cozinha) "tirou foto com o ministro".

O evento de Londres Fig. 191

Um "Fórum Jurídico Londres–Brasil" com ministros do STF e menção a um encontro privado com o ex-premiê britânico Tony Blair. Vorcaro aparece organizando programa, veículos e despesas.

Michael relata a Vorcaro que o ministro pediu para tirar foto com os funcionários do hotel e que 'Zé Maria tirou foto com o ministro'.
Figura 24. O funcionário Michael relata que "o ministro pediu para tirar fotos com todos" no hotel, e que "Zé Maria tirou foto com o ministro". Reprodução do relatório da PF.
Vorcaro a Luiz Rennó: 'Semana que vem estou fazendo um evento super exclusivo com alexandre de moraes em londres'.
Figura 191. Vorcaro a Luiz Rennó: "estou fazendo um evento super exclusivo com alexandre de moraes em londres". Reprodução do relatório da PF.

Quem mais foi convidado a Londres, com despesas pagas

Segundo o relatório, foram tratados convites, "com todas as despesas bancadas" pelos organizadores, para: o filho do procurador-geral, "Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres" Fig. 219, referido como "Pedrinho filho do PG" Fig. 223, e o diretor-geral da PF, Andrei Passos: "O Andrei PF precisa de um Convite formal para aceitar Londres" Fig. 228. A assistente do diretor-geral chegou a perguntar se "algum custo é coberto pelos organizadores"; a resposta registrada foi "Todas as despesas bancadas por nós" Fig. 227.

'Marcio Conjur' repassa a Vorcaro mensagem da assistente do diretor-geral da PF sobre o interesse no convite a Londres e se as despesas são cobertas; resposta: 'Todas as despesas bancadas por nós'.
Figura 227. "Marcio Conjur" repassa a Vorcaro o interesse do diretor-geral da Polícia Federal no convite a Londres; à pergunta sobre custos, a resposta foi "Todas as despesas bancadas por nós". Reprodução do relatório da PF.

07 · A mensagem que estourou o casoA nota sobre "Andrei e Paulo"

É o trecho que o noticiário resumiu como "pedido para travar investigações". O texto real, tal como consta do relatório, é este, e vale lê-lo por inteiro, com o contexto que o antecede na mesma nota.

Nota no celular de Vorcaro · modificada em 30/10/2025 · Figura 208

"...informações informais e em confidencia de turma do banco central, que G e os diretores estao na pressao máxima de novo pra uma medida, pois o bacen esta sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farao algo contra mim."

"É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco. Estou disponivel pra tratar e explicar qq coisa, so nao pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farao algo em breve."

Nota atribuída a Daniel Vorcaro, enviada segundos depois ao contato "Alexandre de Moraes BRASILIA". Em seguida, ele enviou "os nomes".

Metadados forenses da nota no celular de Vorcaro, com o texto 'É importante reforçar com Andrei e Paulo...' e data de criação em 30/10/2025.
Figura 208. A leitura forense da nota, com o texto integral em destaque (em vermelho) e a data de modificação: 30/10/2025. Reprodução do relatório da PF.

Quem são "Andrei" e "Paulo"? Aqui a própria PF usa linguagem condicional, e o artigo respeita isso:

Os termos "Andrei" e "Paulo" escritos por Daniel Vorcaro em sua nota podem indicar que "Andrei" se refere a Andrei Passos, diretor-geral da Polícia Federal, e "Paulo" a Paulo Gonet, procurador-geral da República. Relatório da PF (grifo nosso na cautela)
As 5 mensagens de véspera: em 17/11/2025, um dia antes de a operação ser deflagrada, Vorcaro enviou ao mesmo contato 5 mensagens "de visualização única". A PF diz tê-las recuperado no processo de extração e confirma, pelos logs, "exatamente 5 registros" de envio. O conteúdo dessas 5 notas, porém, aparece no relatório como imagem, não foi transcrito em texto.

08 · Os outros nomesGonet e Andrei nas conversas

O relatório dedica duas seções às buscas pelos nomes "Paulo Gonet" e "Andrei Passos". Em ambas, a PF frisa que não havia contato salvo com esses nomes, as menções chegam por intermediários, sobretudo o advogado Ciro Soares.

A foto e as chamadas Fig. 216

15/03/2025, Ciro Soares envia a Vorcaro uma foto "acompanhado de Paulo Gonet", seguida de quatro chamadas de voz. Antes, escrevera: "Gonet é firme".

O áudio sobre uma candidatura Fig. 215

Ciro relata: "eu pedi o Gonet ontem... pede o cara para tirar a candidatura... Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.", sobre um interlocutor chamado "Jarbas".

Chat de Ciro Soares em 15/03/2025 com a foto (dois homens) e uma sequência de quatro chamadas de voz completadas.
Figura 216. Em 15/03/2025, Ciro Soares envia uma foto "acompanhado de Paulo Gonet", seguida de quatro chamadas de voz. Reprodução do relatório da PF.
Vorcaro informa 'Marcio Conjur': 'Ministro fez convite ao andrei PF'; resposta: 'ótimo', 'Eu fiz o mesmo'.
Figura 226. Vorcaro informa "Marcio Conjur": "Ministro fez convite ao andrei PF". Reprodução do relatório da PF.

Na seção sobre "Andrei", o relatório registra tratativas para "convidar o DPF Andrei" para o evento de Londres, com a informação de que "Ele aceitou" e a mensagem "Ministro fez convite ao andrei PF" Fig. 226. Como na parte das mensagens, a PF trata cada identificação como algo que "pode se tratar de" tal autoridade, sem afirmação categórica.

Ciro Soares a Vorcaro: 'O Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres?', resposta: 'Obvio ne'.
Figura 219. Ciro Soares: "O Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres?", Vorcaro: "Obvio ne". Reprodução do relatório da PF.
Ciro Soares informa a Vorcaro que 'PG confirmou ida a Londres' e pergunta se o 'Pedrinho filho do PG pode ir com a gente'.
Figura 223. Ciro Soares informa que "PG confirmou ida a Londres" e pergunta se o "Pedrinho filho do PG pode ir com a gente". Reprodução do relatório da PF.

09 · O que a própria PF ressalvaA cautela do relatório

Um dossiê forense pesado, mas que se cerca de limites explícitos. Ignorar isso seria distorcer o documento.

Ressalva da PF · em observância à LOMAN

"...as análises e evidências ora apresentadas restringem-se aos dados brutos e elementos informacionais localizados no acervo probatório da Operação Compliance Zero. Assim, não foram realizados quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público, tampouco diligências tipicamente policiais... limitando-se o presente trabalho à identificação e exposição objetiva dos elementos já existentes."

Relatório da PF (IPJ-A 3298613/2026)

Não é exaustivo

A PF diz, pelo prazo de 72 horas, que "a presente análise não pode ser considerada exaustiva" e transcreveu "apenas as menções nominais diretamente identificadas".

Linguagem condicional

As ligações a Moraes, Gonet e Andrei vêm sempre como "pode indicar", "pode se tratar de", "atribuído a", não como conclusão fechada.

Mérito não julgado

O relatório identifica e expõe; não afirma crime. Se os fatos configuram ilícito é decisão de outra instância, o plenário do STF.

10 · O choque no SupremoA briga jurídica de 1º de setembro

Tornado público o relatório, o dia terminou em conflito aberto, dentro e sobre o STF.

André Mendonça

"Caminho inevitável": o plenário

O relator retirou o sigilo e pediu a Edson Fachin, presidente do STF, uma sessão plenária presencial, o plenário seria o "órgão soberano para analisar, em termos técnicos e estritamente jurídicos" as provas da PF. Diante do pedido de nulidade, não arquivou: remeteu o caso a Fachin, que decidirá entre pautar ou acatar a nulidade.

PGR / Paulo Gonet

"Dupla nulidade": arquivar

Gonet pediu a anulação do relatório e o fim da apuração: "Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais." Para ele, o vício contamina a ordem e os frutos dela.

O bate-boca, e um conflito de interesses à vista

Nos bastidores, Moraes pediu conversa e acusou Mendonça de "direcionar" a investigação contra ele; Mendonça quis saber como o colega tivera acesso ao material sigiloso. Segundo a colunista Andreza Matais (Metrópoles), "por pouco, a discussão não evoluiu para agressões físicas". E há o dado incontornável: quem pede a nulidade, Gonet, é nominalmente citado no relatório que quer anular.

A pergunta que fica: o PGR não estaria decidindo em causa própria?

É a objeção que salta aos olhos. Ao pedir a anulação e o arquivamento de uma apuração em que ele mesmo é mencionado, nas mensagens sobre "Andrei e Paulo" e nos convites de Londres ao filho, o procurador-geral, na prática, pleiteia em causa própria. Em tese, a situação atrai impedimento ou suspeição (CPP, arts. 252 e 258): quem tem interesse pessoal no resultado não deveria ser quem opina sobre ele. A saída natural seria a manifestação caber a um PGR substituto ou diretamente ao plenário do STF, e não a Gonet. Não há, até aqui, decisão sobre esse ponto; é uma crítica, não um veredito.

11 · A cronologiaLinha do tempo do caso

Do contrato à crise no STF, os fatos em ordem, com os desdobramentos mais recentes.

Janeiro de 2024

Assinado o contrato de R$ 131 milhões (R$ 3 mi/mês) entre o escritório Barci de Moraes e o Banco Master; os metadados apontam o usuário "Ministro Alexandre de Moraes" como quem editou a minuta.

2024–2025

Pagamentos "sem nota" e "não por PIX"; um 2º contrato de até R$ 50 mi (Viking, com cotas de avião e helicóptero); encontros presenciais e o evento de Londres, com convites, com despesas pagas, ao filho do PGR e ao diretor-geral da PF.

Outubro de 2025

O Master emite cartões de crédito de R$ 300 mil de limite para cada um dos dois filhos de Moraes, autorizados por Vorcaro (o escritório diz que nunca foram usados).

30 de outubro de 2025

A nota pedindo "reforçar com Andrei e Paulo" para ninguém "fazer uma sacanagem" com o Master, enviada ao contato salvo como Moraes.

17–18 de novembro de 2025

Na véspera, 5 mensagens de visualização única ao mesmo contato. No dia seguinte, a Compliance Zero prende Vorcaro e o Bacen liquida o Banco Master.

27 de agosto de 2026

A PF entrega a Mendonça o relatório IPJ-A 3298613/2026, o exame do 1º de 9 celulares apreendidos com Vorcaro.

1º de setembro de 2026

Mendonça retira o sigilo; tem bate-boca com Moraes nos bastidores; a PGR (Gonet) pede a nulidade; e o escritório Barci divulga nota de defesa.

2 de setembro de 2026

Mendonça não arquiva e remete o caso a Fachin. Na política, a oposição protocola pedidos de impeachment (entre eles o 54º, do senador Carlos Viana) e notícia-crime por tráfico de influência e obstrução, e pede o afastamento do diretor-geral da PF.

O que ainda falta

A decisão de Fachin

Cabe ao presidente do STF pautar o plenário (sessão pública) ou acatar a nulidade pedida pela PGR, é ali que a disputa se resolve.

As defesas pessoais

Falou o escritório; Moraes e Vorcaro, pessoalmente, seguem sem se manifestar sobre as mensagens e os metadados.

8 celulares a periciar

Este foi o exame do 1º de 9 aparelhos (5 da 2ª fase, 3 da 3ª); a PF prevê concluir as análises "nos próximos 60 dias", novos elementos ainda podem surgir.

12 · Enquadramento hipotéticoCrimes possíveis, em tese

Um exercício analítico: dados os fatos do relatório, que tipos penais uma eventual investigação poderia examinar, e para quem. Nada aqui é acusação.

Leia isto antes: são hipóteses, não acusações

Esta lista é uma classificação analítica do autor, não da Polícia Federal nem de qualquer tribunal. O relatório não denuncia ninguém e expressamente não aprofundou nada contra magistrados ou membros do MP (LOMAN). Ninguém foi denunciado ou condenado; vale integralmente a presunção de inocência. Crimes envolvendo ministro do STF e o PGR só podem ser apurados e julgados pelo plenário do STF. Os enquadramentos abaixo são possibilidades em tese, ancoradas em fatos do documento, não juízos de culpa.

Legenda do grau de vínculo no relatório:

Documental contrato, metadados, comprovantes.    Indiciário menções indiretas / a linguagem condicional da própria PF ("pode se tratar de").

Autoridades e investigado central

Alexandre de Moraes Documental + indiciário

Ministro do STF
  • Corrupção passiva CP art. 317, em tese, receber vantagem (o contrato de R$ 131 mi com o escritório da esposa e os cartões de R$ 300 mil aos dois filhos) em razão do cargo.
  • Lavagem de dinheiro Lei 9.613/1998, dar aparência lícita a valores via contrato de advocacia e pagamentos "sem nota" / "não por PIX".
  • Advocacia administrativa / tráfico de influência CP art. 321 · 332, a nota pedindo "reforçar com Andrei e Paulo" (interceder junto ao PGR e ao DG-PF).
  • Obstrução de investigação de org. criminosa Lei 12.850/2013, art. 2º §1º, atuar para "travar" apurações contra o Master.

Viviane Barci de Moraes Documental

Advogada · titular do escritório contratado · esposa do ministro
  • Lavagem de dinheiro Lei 9.613/1998, recebimento dos valores pelo escritório.
  • Corrupção passiva (coautoria) CP art. 317 c/c 29, se o contrato foi o meio da vantagem.
  • Falsidade ideológica CP art. 299, se o contrato de serviços foi simulado (sem contrapartida real).

Daniel Vorcaro Documental

Controlador do Banco Master · investigado da Compliance Zero
  • Corrupção ativa CP art. 333, oferecer/prometer vantagem a agentes públicos.
  • Lavagem de dinheiro Lei 9.613/1998, via contratos e pagamentos "sem nota".
  • Gestão fraudulenta de instituição financeira Lei 7.492/1986, art. 4º, o esquema do Master.
  • Coação no curso do processo / obstrução CP art. 344 · Lei 12.850, art. 2º §1º, tentar travar as investigações.
  • Organização criminosa Lei 12.850/2013.

Paulo Gonet Indiciário

Procurador-Geral da República
  • Corrupção passiva CP art. 317, em tese, benefício (viagem a Londres com despesas pagas, inclusive ao filho) como vantagem.
  • Prevaricação CP art. 319, se deixasse de agir por interesse pessoal.
  • Ressalva: as menções chegam por terceiros; a PF usa "pode se tratar de". Vínculo frágil.

Andrei Passos Indiciário

Diretor-geral da Polícia Federal
  • Corrupção passiva CP art. 317, em tese, convite/viagem a Londres com "todas as despesas bancadas".
  • Advocacia administrativa / prevaricação CP art. 321 · 319.
  • Ressalva: o relatório mostra apenas tratativas de convite, não confirma aceite nem viagem.
Funcionários e operadores de Vorcaro

Operadores financeiros Documental

Angelo Silva, "Romy", Alberto Felix, Ana Claudia (executaram/ordenaram pagamentos)
  • Lavagem de dinheiro (coautoria) Lei 9.613/1998 c/c CP 29, executar pagamentos "sem nota" e "não por PIX".
  • Crimes contra a ordem tributária Lei 8.137/1990, pagamentos sem nota fiscal.
  • Organização criminosa Lei 12.850/2013.

Intermediários / articuladores Indiciário

Fábio Faria, Ciro Soares, "Marcio Conjur" (articulavam acessos e convites)
  • Tráfico de influência CP art. 332, articular acessos e convites a autoridades.
  • Corrupção ativa (partícipe) CP art. 333 c/c 29.
  • Lavagem / organização criminosa Lei 9.613 · Lei 12.850.
Escritório Barci de Moraes e seus responsáveis

Escritório Barci de Moraes Documental

Pessoa jurídica contratada pelo Banco Master · resp.: Guilherme de Toledo Benazzi (administrador) e Leonardo Palhares (advogado)
  • Lavagem de dinheiro Lei 9.613/1998, se a estrutura serviu para ocultar a origem/destinação dos valores.
  • Falsidade ideológica CP art. 299, se o contrato de serviços advocatícios foi simulado.
  • Crimes contra a ordem tributária Lei 8.137/1990, recebimentos "sem nota".

Por que separados?

Funcionários, operadores e o escritório respondem, em tese, por condutas próprias (executar pagamentos irregulares, emitir contrato simulado, articular acessos), que existem independentemente de qualquer conclusão sobre as autoridades. Por isso não se misturam com a lista de cima.

13 · ReferênciasFontes

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