🏠 Home ← Artigos LaudelinoRJ
Retrato de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Caso Banco Master · Áudio e documentos obtidos pela Veja · outubro de 2026

PT entregou fundos para o Master em troca de propina

Em áudio e documentos levados à Procuradoria, Daniel Vorcaro descreve o acordo: pagar por fora para financiar um documentário sobre Lula e uma comissão de 10% para abrir ao Banco Master os cofres dos fundos de pensão das estatais. É o relato do próprio banqueiro. A PGR não levou o caso adiante. Lula, Padilha e Noleto negam.

R$ 30 mi Em espécie, pelo filme sobre Lula
10% De comissão sobre o que o banco captasse
R$ 500 mil O adiantamento no dia em que o cofre abriu

01 · O essencialO que o áudio revelou

Na madrugada de 9 de outubro de 2026, a Veja divulgou um áudio de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em Brasília desde março sob acusação de uma das maiores fraudes bancárias do país. Nele, o banqueiro separa dois filmes que ajudou a bancar: o de Lula e o de Bolsonaro.

A reportagem reúne áudio e documentos que Vorcaro apresentou à Procuradoria-Geral da República. Segundo esse material, ele pagou cerca de R$ 30 milhões em espécie para cobrir despesas de um documentário sobre Lula gravado no exterior, e negociou com operadores do PT uma comissão de 10% sobre tudo o que o Master conseguisse captar junto aos fundos de pensão de estatais.

Os fundos citados são a Previ, do Banco do Brasil, a Petros, da Petrobras, o Postalis, dos Correios, e a Caixa Asset. A contrapartida, no relato do banqueiro, era direta: o dinheiro do filme e a comissão de 10% em troca dos votos que faltavam para credenciar o banco e liberar o investimento dos fundos.

Uma ressalva vale para tudo o que segue: isso é o relato de Vorcaro. A PGR não deu prosseguimento a essa parte do caso por considerar as provas insuficientes. Os citados negam. O que está documentado, o que é relato e o que foi negado vêm separados adiante.

Quem aparece no relato

Daniel Vorcaro
Daniel Vorcaro
Ex-controlador do Banco Master. Autor do áudio e dos documentos.
Luiz Inácio Lula da Silva
Lula
Presidente. Tema do documentário. Nega ter pedido ou recebido valores.
João Vaccari Neto
João Vaccari Neto
Ex-tesoureiro do PT. Com quem Vorcaro diz ter feito o acerto.
Alexandre Padilha
Alexandre Padilha
Então ministro. Citado pela ponte com os fundos. Nega.
Oliver Stone
Oliver Stone
Cineasta. Dirige o documentário sobre Lula citado no áudio.

Retratos: Wikimedia Commons. Também são citados o sócio Augusto "Guga" Lima, Paulo Okamotto (Instituto Lula), o secretário-executivo Olavo Noleto e o operador "Júlio".

02 · A gravação"O do Lula foi por fora"

No trecho mais citado, o próprio Vorcaro separa os dois filmes. Segundo ele, o pagamento ao documentário de Lula foi feito por fora, em espécie. O do Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro, diz, foi patrocínio declarado.

Áudio atribuído a Daniel Vorcaro

Divulgado pela Veja em 9 de outubro de 2026. A gravação tem qualidade baixa; a transcrição abaixo é a publicada pela própria revista.
Corte 1
Corte 2

Na conversa, um interlocutor estranha a semelhança com o filme sobre Bolsonaro. Vorcaro corrige e marca a diferença:

"O filme do Lula não é igual o filme do Flávio não. O do Lula eu coloquei, acho que até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, patrocínio normal." Daniel Vorcaro, no áudio divulgado pela Veja

Na mesma gravação, ele descreve quem estruturou o pagamento e por quê:

"Banco do Brasil, a gente estruturou isso com ele, o Vaccari. O Augusto Lima adianta ali pro Okamotto, do Instituto Lula. E aí tem o negócio do filme também: o Vaccari pede para colocar dinheiro no filme do Lula." Daniel Vorcaro, no áudio divulgado pela Veja

03 · O documentárioOs R$ 30 milhões do filme sobre Lula

O documentário a que Vorcaro se refere é o filme sobre Lula dirigido pelo cineasta Oliver Stone, com depoimentos de aliados do presidente. Parte da conta, pelo relato, era paga em dinheiro vivo.

No anexo entregue à PGR, Vorcaro conta que o primeiro encontro com o PT foi costurado pelo seu então sócio, Augusto "Guga" Lima, por meio de caciques do partido na Bahia, até chegar ao ex-tesoureiro João Vaccari Neto. Já nessa conversa teriam sido fixados os adiantamentos:

"Ficou aventado que, para que houvesse votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: pagamento por fora, em espécie, de aproximadamente R$ 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e o pagamento de valores ao Instituto Lula." Daniel Vorcaro, anexo entregue à PGR

O repasse ao Instituto Lula, administrado por Paulo Okamotto, teria somado ainda um segundo valor, que o banqueiro não revelou. Vorcaro faz questão de separar esse pagamento do que fez pelo Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, que classifica como patrocínio comum, dentro das regras.

Por que a distinção importa. Patrocínio de obra audiovisual é operação declarada, com contrato e contrapartida prevista em lei. Pagamento "por fora", em espécie, é o oposto: sem registro, para não deixar rastro. É o próprio Vorcaro quem usa as palavras "por fora" e "foi errado" para o caso de Lula.

A corroboração por outra ponta: as mensagens de Roberta Luchsinger

O relato de Vorcaro não é o único a ligar o documentário à captação de dinheiro. Prints de conversas atribuídas a Roberta Luchsinger, sócia de Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", reforçam o vínculo — e são de março a julho de 2024, antes do áudio do banqueiro. Numa das mensagens, Roberta afirma que "estão captando muito dinheiro usando o nome do presidente" para o filme de Oliver Stone, em estados governados pelo PT. Noutra, o próprio Fábio confirma o documentário e diz que fazia a ponte com o cineasta.

Print de conversa de WhatsApp de Roberta Luchsinger: relato sobre captação de dinheiro para o filme de Oliver Stone nos estados governados pelo PT.
Conversa de 5/4/2024. Roberta relata que Fábio lhe contou que "o Marcelo junto do Zé tá indo em tds estados onde o pt governa pra captar dinheiro p o filme do Oliver Stone", e que "estão captando mto dinheiro usando o nome do presidente".
Print de grupo de WhatsApp: Fábio Luís (Lulinha) confirma o documentário de Oliver Stone e diz que fazia a ponte sobre o filme.
Grupo, 3/3/2024. Fábio Luís, o "Lulinha", confirma: "É o documentário do Oliver Stone". E acrescenta: "Quem ficava trocando cartinha do Oliver e meu pai preso era eu toda quinta-feira" e "Fazia a ponte com Fernando Moraes".
Print de conversa de WhatsApp com Marcelo Bittencourt: tabela de cotas de patrocínio do filme.
Conversa de 27/3/2024. As "cotas do filme": R$ 300 mil, R$ 500 mil e R$ 1 milhão, com ingressos para a estreia "com a presença do presidente e do Oliver Stone" e para o festival de Cannes.
Print de conversa de WhatsApp com o embaixador na Espanha: Roberta apresenta o financiador do filme.
Conversa de 3/7/2024. Ao embaixador na Espanha, Roberta apresenta alguém como "o financiador do filme do Olivier stone sobre o presidente Lula".

Prints divulgados em 9/10/2026 (perfil @Pri_usabr1). Números de telefone borrados na origem. Material atribuído a Roberta Luchsinger; corrobora o relato, mas sua origem não foi autenticada de forma independente.

04 · O acordoA comissão de 10% para abrir os cofres

Além do filme, o relato descreve uma cobrança contínua: uma fatia de tudo o que o banco captasse nos fundos de pensão federais. O caminho, segundo Vorcaro, passava por operadores ligados ao gabinete do então ministro Alexandre Padilha.

Entre o fim de 2023 e o início de 2024, Vorcaro montou uma equipe interna no Master para captar recursos dos fundos de pensão do governo. A partir daí, diz ele, começaram as cobranças:

"Logo passei a receber propostas espúrias, as mordidas de políticos e emissários desses fundos." Daniel Vorcaro, anexo entregue à PGR

O operador que fazia a ponte com os presidentes dos fundos é identificado como "Júlio", com trânsito livre no gabinete de Padilha. Foi ele, segundo a PF, que apresentou o banqueiro a Olavo Noleto, então secretário-executivo da pasta. Vorcaro relata ter ido ao Planalto conhecer Padilha e ter oferecido pelo menos dois jantares ao ministro. Numa dessas conversas, atribui a Padilha a seguinte garantia:

"O que eu tratasse com o Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha." Fala atribuída a Alexandre Padilha, no relato de Vorcaro

A regra para entrar na Previ, na Petros e no Postalis, conta o banqueiro, era uma só: comissão de 10% sobre tudo o que o Master captasse. Nas projeções que circulavam, se o plano desse certo, o grupo ligado ao PT embolsaria cerca de R$ 1 bilhão, e o banco faturaria muito mais na mesma operação.

As empresas e os fundos no centro do caso

Logo do Banco Master
Banco Master
O banco de Vorcaro que buscava os fundos
Logo da Previ
Previ
Fundo de pensão do Banco do Brasil
Logo da Petrobras
Petros
Fundo de pensão da Petrobras
Logo dos Correios
Postalis
Fundo de pensão dos Correios
Logo da Caixa Econômica Federal
Caixa Asset
Gestora de fundos da Caixa

Logos das instituições (Previ e Caixa próprios; Petros e Postalis representados por Petrobras e Correios, suas patrocinadoras). Fonte: Wikimedia Commons.

05 · A cronologiaA rota do dinheiro, passo a passo

Duas datas resumem o acordo: a liberação oficial e a cobrança caíram no mesmo dia.

29 de abril de 2024 · O cofre abre

O Banco Master entra na "lista exaustiva", o documento oficial que autoriza instituições a receber recursos dos fundos de pensão estatais. Vorcaro comemora a Guga Lima: "entramos na lista exaustiva".

No mesmo dia · A cobrança

O operador Júlio cobra R$ 500 mil, descritos como adiantamento da propina. Vorcaro paga e avisa: quer ver o banco virar "uma boleta de verdade", ou seja, captar de fato nos fundos.

12 de julho de 2024 · O freio

A imprensa noticia que dois gestores da Caixa Asset foram afastados após emitirem parecer contrário à operação do Master. Com o caso exposto, o grupo e os dirigentes dos fundos seguram as decisões de investimento.

2025 · O fim das conversas

Depois de mais de doze meses sem a captação prometida, Vorcaro perde a paciência com o operador. No início de agosto, encerra as conversas: "já consumiu muito tempo, dinheiro e recurso nosso".

Pelo próprio relato, o grande negócio com os fundos federais não se concretizou. Vorcaro afirma ter captado algum recurso em fundos municipais onde o operador tinha influência, seguindo a mesma lógica de 10%, o que teria rendido pelo menos R$ 6 milhões aos operadores. O pacote inteiro não saiu do papel.

O limite do que o relato alcança

A cronologia mostra pagamentos pedidos e, em parte, feitos, e um banco que de fato foi autorizado a operar com os fundos. Não demonstra, por si só, que Lula tenha pedido ou recebido qualquer valor. Não há prova, nas mensagens, de um encontro entre Lula e Vorcaro arranjado por esse grupo.

06 · O peso de cada peçaComprovado, relatado e negado

O caso é grave, mas a reportagem é, em boa parte, a palavra de um preso que negocia uma delação. Vale separar o que está provado do que é só relato.

Documentado

A entrada do Master na lista exaustiva em 29/4/2024. As trocas de mensagens recuperadas pela PF no celular de Vorcaro, que a própria polícia diz corroborarem parte do relato. O afastamento de gestores da Caixa Asset, noticiado em julho de 2024.

Relatado por Vorcaro

Os R$ 30 milhões em espécie para o filme, a comissão de 10%, o adiantamento de R$ 500 mil e as falas atribuídas a Padilha. A defesa diz ter mensagens, registros de quem retirou o dinheiro vivo e as rotas das entregas.

Negado / não aceito

A PGR não deu prosseguimento, por falta de prova dos pagamentos em espécie. Lula afirmou que "jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira, nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome". Padilha e Olavo Noleto negam envolvimento.

O ponto em aberto

A delação que fazia essas acusações foi descartada em junho, antes de ser investigada a fundo. A defesa sustentava haver mais do que a palavra do banqueiro: mensagens, saques e trajetos. Não se sabe por que esse material não foi apurado antes de o caso ser arquivado. Vorcaro prepara uma nova proposta de delação.

07 · No mesmo casoLeia também

Dossiê principal As 218 páginas da PF sobre Moraes e Vorcaro → Companheiro O depoimento de Vorcaro, comentado sob o viés da lei →

08 · ReferênciasFontes

Os áudios reproduzidos acima foram divulgados pela Veja e circularam em redes sociais. A transcrição citada é a publicada pela própria revista.

Fonte deste texto:

Compartilhe este artigo
Telegram Twitter E-mail
🏠 Home