Em áudio e documentos levados à Procuradoria, Daniel Vorcaro descreve o acordo: pagar por fora para financiar um documentário sobre Lula e uma comissão de 10% para abrir ao Banco Master os cofres dos fundos de pensão das estatais. É o relato do próprio banqueiro. A PGR não levou o caso adiante. Lula, Padilha e Noleto negam.
Na madrugada de 9 de outubro de 2026, a Veja divulgou um áudio de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em Brasília desde março sob acusação de uma das maiores fraudes bancárias do país. Nele, o banqueiro separa dois filmes que ajudou a bancar: o de Lula e o de Bolsonaro.
A reportagem reúne áudio e documentos que Vorcaro apresentou à Procuradoria-Geral da República. Segundo esse material, ele pagou cerca de R$ 30 milhões em espécie para cobrir despesas de um documentário sobre Lula gravado no exterior, e negociou com operadores do PT uma comissão de 10% sobre tudo o que o Master conseguisse captar junto aos fundos de pensão de estatais.
Os fundos citados são a Previ, do Banco do Brasil, a Petros, da Petrobras, o Postalis, dos Correios, e a Caixa Asset. A contrapartida, no relato do banqueiro, era direta: o dinheiro do filme e a comissão de 10% em troca dos votos que faltavam para credenciar o banco e liberar o investimento dos fundos.
Uma ressalva vale para tudo o que segue: isso é o relato de Vorcaro. A PGR não deu prosseguimento a essa parte do caso por considerar as provas insuficientes. Os citados negam. O que está documentado, o que é relato e o que foi negado vêm separados adiante.
Retratos: Wikimedia Commons. Também são citados o sócio Augusto "Guga" Lima, Paulo Okamotto (Instituto Lula), o secretário-executivo Olavo Noleto e o operador "Júlio".
No trecho mais citado, o próprio Vorcaro separa os dois filmes. Segundo ele, o pagamento ao documentário de Lula foi feito por fora, em espécie. O do Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro, diz, foi patrocínio declarado.
Na conversa, um interlocutor estranha a semelhança com o filme sobre Bolsonaro. Vorcaro corrige e marca a diferença:
Na mesma gravação, ele descreve quem estruturou o pagamento e por quê:
O documentário a que Vorcaro se refere é o filme sobre Lula dirigido pelo cineasta Oliver Stone, com depoimentos de aliados do presidente. Parte da conta, pelo relato, era paga em dinheiro vivo.
No anexo entregue à PGR, Vorcaro conta que o primeiro encontro com o PT foi costurado pelo seu então sócio, Augusto "Guga" Lima, por meio de caciques do partido na Bahia, até chegar ao ex-tesoureiro João Vaccari Neto. Já nessa conversa teriam sido fixados os adiantamentos:
O repasse ao Instituto Lula, administrado por Paulo Okamotto, teria somado ainda um segundo valor, que o banqueiro não revelou. Vorcaro faz questão de separar esse pagamento do que fez pelo Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, que classifica como patrocínio comum, dentro das regras.
O relato de Vorcaro não é o único a ligar o documentário à captação de dinheiro. Prints de conversas atribuídas a Roberta Luchsinger, sócia de Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", reforçam o vínculo — e são de março a julho de 2024, antes do áudio do banqueiro. Numa das mensagens, Roberta afirma que "estão captando muito dinheiro usando o nome do presidente" para o filme de Oliver Stone, em estados governados pelo PT. Noutra, o próprio Fábio confirma o documentário e diz que fazia a ponte com o cineasta.
Prints divulgados em 9/10/2026 (perfil @Pri_usabr1). Números de telefone borrados na origem. Material atribuído a Roberta Luchsinger; corrobora o relato, mas sua origem não foi autenticada de forma independente.
Além do filme, o relato descreve uma cobrança contínua: uma fatia de tudo o que o banco captasse nos fundos de pensão federais. O caminho, segundo Vorcaro, passava por operadores ligados ao gabinete do então ministro Alexandre Padilha.
Entre o fim de 2023 e o início de 2024, Vorcaro montou uma equipe interna no Master para captar recursos dos fundos de pensão do governo. A partir daí, diz ele, começaram as cobranças:
O operador que fazia a ponte com os presidentes dos fundos é identificado como "Júlio", com trânsito livre no gabinete de Padilha. Foi ele, segundo a PF, que apresentou o banqueiro a Olavo Noleto, então secretário-executivo da pasta. Vorcaro relata ter ido ao Planalto conhecer Padilha e ter oferecido pelo menos dois jantares ao ministro. Numa dessas conversas, atribui a Padilha a seguinte garantia:
A regra para entrar na Previ, na Petros e no Postalis, conta o banqueiro, era uma só: comissão de 10% sobre tudo o que o Master captasse. Nas projeções que circulavam, se o plano desse certo, o grupo ligado ao PT embolsaria cerca de R$ 1 bilhão, e o banco faturaria muito mais na mesma operação.


Logos das instituições (Previ e Caixa próprios; Petros e Postalis representados por Petrobras e Correios, suas patrocinadoras). Fonte: Wikimedia Commons.
Duas datas resumem o acordo: a liberação oficial e a cobrança caíram no mesmo dia.
O Banco Master entra na "lista exaustiva", o documento oficial que autoriza instituições a receber recursos dos fundos de pensão estatais. Vorcaro comemora a Guga Lima: "entramos na lista exaustiva".
O operador Júlio cobra R$ 500 mil, descritos como adiantamento da propina. Vorcaro paga e avisa: quer ver o banco virar "uma boleta de verdade", ou seja, captar de fato nos fundos.
A imprensa noticia que dois gestores da Caixa Asset foram afastados após emitirem parecer contrário à operação do Master. Com o caso exposto, o grupo e os dirigentes dos fundos seguram as decisões de investimento.
Depois de mais de doze meses sem a captação prometida, Vorcaro perde a paciência com o operador. No início de agosto, encerra as conversas: "já consumiu muito tempo, dinheiro e recurso nosso".
Pelo próprio relato, o grande negócio com os fundos federais não se concretizou. Vorcaro afirma ter captado algum recurso em fundos municipais onde o operador tinha influência, seguindo a mesma lógica de 10%, o que teria rendido pelo menos R$ 6 milhões aos operadores. O pacote inteiro não saiu do papel.
A cronologia mostra pagamentos pedidos e, em parte, feitos, e um banco que de fato foi autorizado a operar com os fundos. Não demonstra, por si só, que Lula tenha pedido ou recebido qualquer valor. Não há prova, nas mensagens, de um encontro entre Lula e Vorcaro arranjado por esse grupo.
O caso é grave, mas a reportagem é, em boa parte, a palavra de um preso que negocia uma delação. Vale separar o que está provado do que é só relato.
A entrada do Master na lista exaustiva em 29/4/2024. As trocas de mensagens recuperadas pela PF no celular de Vorcaro, que a própria polícia diz corroborarem parte do relato. O afastamento de gestores da Caixa Asset, noticiado em julho de 2024.
Os R$ 30 milhões em espécie para o filme, a comissão de 10%, o adiantamento de R$ 500 mil e as falas atribuídas a Padilha. A defesa diz ter mensagens, registros de quem retirou o dinheiro vivo e as rotas das entregas.
A PGR não deu prosseguimento, por falta de prova dos pagamentos em espécie. Lula afirmou que "jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira, nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome". Padilha e Olavo Noleto negam envolvimento.
A delação que fazia essas acusações foi descartada em junho, antes de ser investigada a fundo. A defesa sustentava haver mais do que a palavra do banqueiro: mensagens, saques e trajetos. Não se sabe por que esse material não foi apurado antes de o caso ser arquivado. Vorcaro prepara uma nova proposta de delação.
Os áudios reproduzidos acima foram divulgados pela Veja e circularam em redes sociais. A transcrição citada é a publicada pela própria revista.