🏠 Home ← Artigos LaudelinoRJ
Reprodução da Veja das Figuras 38 e 40 do relatório da PF: conversas de WhatsApp entre 'DANIEL VORCARO' e o contato 'Alexandre de Moraes BRASILIA', com setas vermelhas ligando cada mídia ao texto recuperado do bloco de notas e um emoji de joinha no canto da mídia enviada por Vorcaro.
STF · Caso Vorcaro / Banco Master · Perícia da PF · setembro de 2026

O rastro que o iPhone guardou

Daniel Vorcaro montou um método para não deixar rastro das mensagens. O rastro acabou vindo do próprio sistema operacional do celular. A PF não quebrou a visualização única: reconstruiu o caminho que cada imagem fez antes de entrar no WhatsApp. Cinco mensagens vieram direto do chat, 47 por correlação. Há ainda um emoji de joinha preso à mídia de Vorcaro que virou o centro da disputa no Supremo.

52 Notas mapeadas no padrão
5 Imagens recuperadas no próprio chat
47 Ligações feitas por correlação
1 👍 O joinha cuja autoria ninguém declarou

01 · O essencialUm método para sumir com as mensagens

Durante meses, o dono do Banco Master escreveu recados no bloco de notas do iPhone, fotografou a própria tela e mandou a imagem pelo WhatsApp em modo de visualização única, que some depois de aberta. A ideia era não deixar rastro nem para quem tivesse acesso direto aos aparelhos.

Retrato de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Foto: Wikimedia Commons.

O método falhou por dois motivos. O primeiro foi humano: Vorcaro cometeu erros ao capturar as imagens. O segundo foi técnico, e ele não controlava. O próprio iPhone salvava, sozinho, uma cópia de cada tela. Essa cópia sobrevivia à exclusão da nota e à expiração da mensagem.

A partir desses resíduos, a Polícia Federal reconstruiu quem escreveu, o que escreveu, quando fotografou, quando abriu o WhatsApp e para quem mandou. O destinatário, nos casos analisados, era o contato salvo no celular de Vorcaro como "Alexandre de Moraes BRASILIA". Em 15 e 16 de setembro de 2026, a Veja publicou a reportagem sobre um detalhe dessas telas: um pequeno emoji de joinha.

02 · A reproduçãoO que a imagem mostra

As duas telas que a Veja publicou lado a lado vêm do relatório da PF, numeradas 38 e 40. Ambas registram trocas entre "DANIEL VORCARO" e o contato "Alexandre de Moraes BRASILIA" em 17 de novembro de 2025.

Cada figura tem duas metades. À esquerda está a conversa do WhatsApp como a ferramenta forense a exibe. À direita está a imagem do bloco de notas que a PF recuperou. As setas vermelhas ligam uma coisa à outra: uma mídia enviada por "DV" na conversa e o texto que, segundo a PF, estava naquela mídia.

Reprodução da Veja: as Figuras 38 e 40 do relatório da PF, cada uma dividida entre a conversa do WhatsApp à esquerda e a nota recuperada à direita, com setas vermelhas ligando as mídias aos textos e um joinha no canto da mídia de Vorcaro.
Figuras 38 e 40. As telas reproduzidas pela Veja. À esquerda de cada figura, a conversa; à direita, a nota recuperada. Em vermelho, no canto da mídia de Vorcaro, o joinha. Reprodução: Veja / relatório da PF.

Na Figura 38, a nota começa com um "Bom dia, tudo bem?" e trata de antecipar investidores para assinar e anunciar uma operação ainda naquele dia. Na Figura 40, a nota foi capturada às 20h48: Vorcaro diz que está indo assinar com os investidores estrangeiros e que está online.

Ampliação do canto inferior da mídia enviada por Vorcaro na Figura 38: o carimbo de horário 23:00 e, dentro da caixa vermelha do relatório, a reação de joinha (emoji de polegar para cima).
Zoom. O joinha ampliado no canto da mídia de Vorcaro, na Figura 38. A reação aparece destacada em vermelho na reprodução do relatório. Recorte da reprodução da Veja.

03 · O caminho reconstruídoComo a perícia chegou aos arquivos

A visualização única não foi quebrada. A PF reconstruiu o percurso que cada imagem fez antes de entrar no WhatsApp. São quatro elementos, e eles se encaixam.

Recriação: mãos digitando um texto no aplicativo de notas de um iPhone, à noite.
1Vorcaro escrevia o recado no bloco de notas.
Recriação: a tela do iPhone capturada, com um arquivo PDF da nota surgindo automaticamente.
2Capturava a tela, e o iOS gerava um PDF automático.
Recriação: o WhatsApp aberto, a imagem sendo enviada em mensagem de visualização única.
3Abria o WhatsApp e enviava em visualização única.
Recriação: o celular sobre a mesa, a mensagem entregue ao contato salvo no aparelho.
4Entregue ao contato "Alexandre de Moraes BRASILIA".

Recriação ilustrativa da sequência descrita pela PF (imagens geradas por IA). Não são as telas reais do aparelho.

Primeiro: os registros do aparelho

A PF recuperou os momentos em que Vorcaro abriu o bloco de notas, capturou a tela, gerou o arquivo, abriu o WhatsApp e enviou. O cruzamento desses registros liga o conteúdo recuperado à mensagem enviada. Os metadados do celular do remetente indicam também o destinatário.

Segundo: o PDF que ninguém pediu

Este foi o erro que Vorcaro não controlava. Quando se captura a tela de um documento, o iOS cria automaticamente, no mesmo segundo ou no seguinte, uma cópia em PDF do conteúdo. O arquivo fica numa pasta temporária do sistema, fora do alcance do usuário comum, e sobrevive tanto à exclusão da nota quanto à expiração da mensagem de visualização única. A PF afirma que esses PDFs não foram criados de propósito, e sim salvos sozinhos pelo iPhone.

Infográfico em quatro estágios: 1) captura de tela; 2) nota excluída; 3) mensagem de visualização única expira; 4) o PDF permanece salvo no sistema.
O caminho do arquivo. A captura de tela, a exclusão da nota e a expiração da mensagem não apagam o PDF que o iOS gerou sozinho: ele continua na pasta do sistema. Esquema ilustrativo.

Terceiro: a ferramenta

A extração que tornou esse resíduo legível foi feita com tecnologia da Cellebrite, empresa israelense cujo produto mais conhecido é o UFED. Antes de reconstituir o conteúdo das notas, a equipe pericial testou a confiabilidade do próprio método de datação.

Aparelho Cellebrite UFED Touch sobre uma bancada, com um celular conectado por cabo e discos rígidos ao fundo.
O UFED Touch, da Cellebrite. O tipo de equipamento usado para extrair e ler o conteúdo dos aparelhos apreendidos. Foto ilustrativa.

Quarto: o padrão repetido

Segundo o relatório, segundos depois de escrever e capturar as notas, Vorcaro as enviava ao contato "Alexandre de Moraes, Brasília". A PF descreve o procedimento como frequente e voltado a não deixar rastros.

O que isso prova e o que não prova

A reconstrução mostra que aquelas notas saíram do aparelho de Vorcaro para um número que ele salvou com o nome do ministro. Ela não demonstra, sozinha, quem estava do outro lado lendo, nem o que foi respondido. A própria PF respeita essa fronteira.

04 · O peso de cada peçaProva direta e prova por correlação

O material não tem um único peso, e essa distinção é o centro da briga jurídica.

47 notas, por correlação

Em 47 das 52 notas, entre elas as que citam Gonet e Andrei, o vínculo com o envio vem de reconstrução forense e cruzamento de dados. A imagem não permaneceu no chat; a PF a amarrou ao envio pelos registros do sistema.

5 imagens, no fluxo do chat

Cinco imagens, porém, foram recuperadas diretamente na conversa do WhatsApp. São as que menos dependem de inferência: estavam onde a troca aconteceu.

Há também um limite claro, e a PF o admite. Moraes chega a responder algumas mensagens, mas não dá para saber o que disse: ele também usava visualização única, e o celular dele não teve o sigilo quebrado. A perícia tinha só um lado da conversa.

A PF não tem o que Moraes escreveu. Tem o que Vorcaro escreveu, quando escreveu, quando fotografou, quando abriu o WhatsApp e para quem mandou. Resumo do que o relatório sustenta

05 · O contraditórioA defesa de Moraes

O ministro argumenta que diálogo pressupõe dois interlocutores e que não se achou nenhuma mensagem ou nota de sua autoria. O ataque técnico mira exatamente a prova por correlação.

Retrato de Alexandre de Moraes, ministro do STF.
Alexandre de Moraes, ministro do STF. Foto: Wikimedia Commons.

Para Moraes, a leitura dos metadados e a atribuição de autoria carecem de perícia e resultam de análise subjetiva. Ele lista quatro hipóteses que, segundo diz, foram ignoradas:

As duas últimas hipóteses dependem de saber se a mensagem foi vista. É aí que o emoji ajuda a testar o argumento.

06 · O joinhaA questão dos emojis

A Veja ouviu dois técnicos em redes sociais e inteligência artificial. Para eles, a posição do emoji indicaria que quem o enviou foi Moraes. Um deles disse que seria raríssimo alguém colocar emoji na própria mensagem. O argumento tem uma base técnica e uma limitação técnica.

Conversa · lado de Vorcaro (DV)
MÍDIA ENVIADA POR "DV"
20:48 ✓✓ 👍

No WhatsApp, a reação aparece como uma bolha presa ao canto inferior da mensagem reagida. É onde o joinha está nas figuras: agarrado à mídia de Vorcaro, não solto na conversa. Pelo formato, é uma reação, não uma resposta.

A base do argumento

Se a reação veio do outro lado, duas hipóteses caem

Ninguém reage a algo que não viu. Se a reação partiu do destinatário, cai, para aquela mensagem, a hipótese de ela ter sido apagada antes de vista ou nunca visualizada. E um único joinha do outro lado enfraquece o argumento de que não há "dois interlocutores".

O que o WhatsApp guarda sobre a reação

A autoria de uma reação não depende de leitura de imagem. O WhatsApp registra quem reagiu, tanto no que trafega quanto no banco de dados do aparelho. Ao reagir, o app envia, junto do emoji, a identidade de quem apertou o botão. No celular, essa reação vira uma linha em duas tabelas do banco de mensagens.

No Android (msgstore.db), a reação fica na tabela message_add_on: o tipo 56 marca uma reação de emoji e o parent_message_row_id aponta a mensagem reagida. O campo que resolve a autoria é o from_me: num diálogo de duas pessoas, 1 é o dono do aparelho e 0 é o outro lado. O emoji em si fica em message_add_on_reaction.

No iPhone do caso vale o equivalente. O WhatsApp para iOS guarda tudo no ChatStorage.sqlite: a tabela ZWAMESSAGE marca a direção no campo ZISFROMME (o correspondente do from_me), e os metadados da mensagem, incluindo a reação, ficam em ZWAMESSAGEINFO. A própria documentação da Meta confirma o modelo: o aviso de reação transporta from (quem reagiu), emoji e message_id. E, no nível do protocolo, o autor da reação vem no MessageInfo, não no corpo do emoji.

Esquema do WhatsApp no Android (msgstore.db): a tabela message_add_on com o campo from_me (1 = o próprio usuário, 0 = o outro) marcando quem reagiu, e message_add_on_reaction guardando o emoji.
Android. No msgstore.db, o campo from_me diz quem reagiu: 1 o dono do aparelho, 0 o outro lado.
Esquema do WhatsApp no iOS (ChatStorage.sqlite): a tabela ZWAMESSAGE com o campo ZISFROMME (1 = o próprio usuário, 0 = o outro) marcando a direção, e ZWAMESSAGEINFO guardando a reação.
iOS (o aparelho do caso). No ChatStorage.sqlite, o campo ZISFROMME cumpre o mesmo papel: 1 o dono, 0 o outro lado.

A mesma informação, guardada em formatos diferentes por sistema. No protocolo e na documentação oficial da Meta, o autor também acompanha a reação (campo from). Esquema ilustrativo; fontes ao final.

Aplicado ao caso: no próprio celular de Vorcaro, um joinha vindo do contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA" ficaria gravado com from_me = 0. O dado que responde "quem apertou o botão" existe na extração. Até agora, nenhuma reportagem mostra a PF declarando esse valor. Por isso o joinha segue como indício forte, à espera de a perícia abrir o registro.

07 · O que ficaConclusão

A disputa no STF hoje é menos sobre se as notas existiram e mais sobre quanto vale a correlação.

De um lado estão cinco imagens encontradas na conversa e 47 ligações feitas por correlação, tudo reconstruído a partir de arquivos que o iPhone guardou por conta própria. Somam-se a isso as mídias do contato atribuído ao ministro, cujo conteúdo sumiu, e um joinha cuja autoria o banco de dados provavelmente registra, mas que ninguém declarou oficialmente.

A parte do emoji não se resolve com opinião de especialista. Resolve-se quando a PF abrir o registro da reação e disser quem apertou o botão.

Dossiê principal As 218 páginas da PF sobre Moraes e Vorcaro → Companheiro O depoimento de Vorcaro, comentado sob o viés da lei →

08 · ReferênciasFontes

Compartilhe este artigo
Telegram Twitter E-mail
🏠 Home