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DOSSIÊTRABALHO FORÇADONº 2026 · CUBA
Saúde · Direitos humanos · Cuba

Mais Médicos: a anatomia de um trabalho forçadoo contrato que a ONU, os EUA e a Justiça americana chamaram de escravidão contemporânea

O programa foi vendido como cooperação humanitária. Por dentro, era um contrato triangular: o Brasil pagava, a OPAS intermediava e Cuba ficava com a maior parte do salário de cada médico. O profissional recebia uma fração, tinha o passaporte retido e, se fugisse, não podia voltar para casa por oito anos. Este dossiê mostra a engrenagem — com documentos, cifras e o que já foi a tribunal.

A partir de documentos oficiais (Depto. de Estado dos EUA, ONU/OHCHR, TST, STF), autos judiciais e imprensa plural · Agosto de 2026
Por onde entrar

O assunto

Entre 2013 e 2018, mais de 20 mil médicos cubanos atenderam em cidades brasileiras pelo Mais Médicos. Eles salvaram vidas em rincões que nunca tinham visto um médico — isso é verdade e não está em disputa. O que este dossiê investiga é o regime de trabalho a que eles próprios foram submetidos: quanto do salário chegava ao médico, que liberdade ele tinha, e o que acontecia se quisesse ir embora.

A tese, em uma frase

Um trabalho é considerado forçado, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), quando há coerção e ausência de consentimento livre — o trabalhador não pode recusar a tarefa nem deixar o emprego sem punição. O que os depoimentos, os relatórios da ONU e os autos de um processo em curso nos Estados Unidos descrevem é exatamente esse conjunto de elementos — que este dossiê destrincha, um a um, adiante.

Método deste dossiê. Separamos o tempo todo três coisas: o que está documentado (normas, cifras oficiais, decisões judiciais), o que é alegação em juízo (acusação de processo ainda não julgado no mérito) e o que Cuba nega. Nada aqui depende de exagero — a documentação basta.
01
Não é retórica

Quem já disse "trabalho forçado" — e com que autoridade

"Escravidão" soa como palavra de comício. Mas, no caso das missões médicas cubanas, ela foi usada por instâncias técnicas e diplomáticas de primeira linha — não por adversários políticos de ocasião.

A ONU (2019)

Em 6 de novembro de 2019, duas Relatoras Especiais da ONU enviaram uma comunicação formal ao governo cubano (referência AL CUB 6/2019): Urmila Bhoola, relatora sobre formas contemporâneas de escravidão, e Maria Grazia Giammarinaro, relatora sobre tráfico de pessoas.

Elas registraram jornadas de até 64 horas semanais, retenção de salários, vigilância e restrição de liberdade, e concluíram que essas condições "poderiam configurar trabalho forçado" segundo os indicadores da OIT — e que "o trabalho forçado constitui uma forma contemporânea de escravidão".

O Departamento de Estado dos EUA

Cuba figura no pior nível (Tier 3) do Trafficking in Persons Report do Departamento de Estado americano de 2019 a 2023. O relatório trata o programa de exportação de trabalho cubano — sobretudo as missões médicas — como trabalho forçado gerido por órgãos do Estado.

O Senado dos EUA foi além: a resolução S.Res.14 (2019) afirmou que as missões médicas cubanas "constituem tráfico humano" e citou que mais de 20 mil profissionais tiveram salários retidos no Brasil sob o Mais Médicos.

Médico cubano atendendo um paciente sentado, numa consulta improvisada durante missão internacional na Guiné-Bissau, em 1974.
Médico cubano em consulta durante uma missão internacional na Guiné-Bissau, em 1974. A "diplomacia médica" de Havana começou logo após a revolução — e cedo se tornou também a maior fonte de divisas do regime. Foto: Roel Coutinho / African Studies Centre Leiden · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
📄 Resolução 168/2010 · Ministério do Comércio Exterior de Cuba (reproduzida pela Human Rights Watch)

"É falta disciplinar manter relacionamentos ou amizades com pessoas de 'condutas não éticas' ou de 'visões hostis à revolução'; morar com pessoas não autorizadas; frequentar lugares que 'prejudiquem o prestígio'. O colaborador deve declarar aos superiores todo relacionamento amoroso e não pode expressar opiniões à imprensa sem autorização e instruções."

— Norma interna que rege os "colaboradores" cubanos no exterior. Fonte: Human Rights Watch, "Cuba: Repressive Rules for Doctors Working Abroad", 23/07/2020.

Precisão necessária. A comunicação da ONU foi um pedido de informação/alegação, não uma sentença; usa os critérios da OIT, mas não é um relatório institucional da própria OIT. E nenhum tribunal — brasileiro ou internacional — condenou no mérito o programa como "escravidão". O que existe é um feixe convergente de pareceres, relatórios e uma ação judicial em andamento. Forte, mas não é coisa julgada. Registramos isso com todas as letras.
02
Siga o dinheiro

O contrato triangular: Brasil → OPAS → Cuba

O médico cubano nunca teve contrato com o Brasil. O Brasil pagava a OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde, braço regional da OMS); a OPAS repassava a uma estatal cubana; e essa estatal decidia quanto sobrava para o médico. A engenharia financeira é o coração do caso.

Como o dinheiro se dividia

Segundo os autos da ação que corre nos Estados Unidos (e citando a própria decisão do juiz distrital em 2020), o Brasil depositava o pagamento numa conta da OPAS em Washington; dali, a divisão alegada era esta:

Brasil paga100%~US$ 3.600–4.000 por médico/mês
Cuba retém85%via estatal Comercializadora de Servicios Médicos Cubanos
OPAS fica5%"taxa" de intermediação
Médico recebe≤10%e ainda dividido em duas partes

Citação literal da decisão de 2020 (Rodriguez v. PAHO, 502 F. Supp. 3d 200): "a OPAS arrecadava centenas de milhões de dólares por ano do Brasil e remetia 85% a Cuba, pagava 10% ou menos aos médicos e ficava com 5% para si."

Fachada do edifício-sede da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/PAHO) em Washington, D.C.
A sede da OPAS/PAHO em Washington, D.C. Por essa conta passou o dinheiro do Mais Médicos — e é essa função de intermediária financeira que a tirou da proteção da imunidade nos tribunais americanos. Foto: Ruhrfisch · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

O truque dos "dois envelopes"

Mesmo a fração que cabia ao médico não chegava inteira à sua mão. Do valor, uma parte era paga no Brasil (relatos falam em ~US$ 400/mês) e outra parte ficava "congelada" numa conta em Cuba, liberada apenas quando o médico terminasse a missão e voltasse.

O efeito é uma coleira financeira: quem desertasse perdia o dinheiro retido. Números brasileiros convergem: dos cerca de R$ 10.400 pagos por médico via OPAS, aproximadamente R$ 3.000 chegavam ao profissional — o Estado cubano ficava com cerca de 70%.

O tamanho do bolo

A ação nos EUA sustenta que, desde 2013, a OPAS reteve mais de US$ 75 milhões só de taxa, e Cuba recebeu mais de US$ 1,3 bilhão pelo Mais Médicos. O Departamento de Estado, em 2025, falou em cerca de US$ 1,5 bilhão pagos pelo Brasil à OPAS no total.

Ministra Dora Maria da Costa · TSTO TST, em 3/11/2015, não julgou se houve escravidão: declarou a Justiça do Trabalho incompetente, por entender que a relação era estatutária, e mandou o caso à Justiça Federal.

Status jurídico da cifra. Essa divisão e o valor de US$ 75 mi são alegações da inicial, aceitas pelos tribunais americanos apenas como "suficientemente plausíveis" para o processo seguir — não como fato provado em julgamento de mérito. Os totais globais (US$ 1,3 bi / US$ 1,5 bi) variam conforme a fonte e o período. Tratamos tudo isso como acusação documentada, não como sentença.
03
Ausência de liberdade

A coleira: passaporte, vigilância e a regra dos 8 anos

Dinheiro retido é só metade da história. A outra metade é o controle sobre o corpo e a vida do médico — e sobre a família que ficava na ilha como garantia.

Passaporte e vigilância

Os médicos viajavam com passaporte oficial, válido só durante a missão, e relatos afirmam que os documentos eram retidos na chegada. Em abril de 2025, um vice-ministro cubano chegou a admitir publicamente a retenção de passaportes de médicos no exterior — "para que não se perdessem".

Ex-integrantes descrevem "chefes de missão" ligados à segurança do Estado que controlavam movimentos, contatos e falas. A ONG Prisoners Defenders reuniu 110 depoimentos na denúncia inicial à ONU (2019) e 622 no relatório que embasou a denúncia ao Tribunal Penal Internacional (2020) — hoje passam de 1.400.

A regra dos 8 anos e a família refém

Quem "abandona" a missão é declarado "desertor/indesejável" e fica proibido de entrar em Cuba por 8 anos — separado dos filhos deixados na ilha. Pelo Código Penal cubano, "abandonar" o posto no exterior pode ser punido com até 8 anos de prisão.

A Prisoners Defenders estima entre 5 mil e 10 mil pais e mães separados à força dos filhos por essa regra. A família que fica funciona, na prática, como garantia de que o médico volte — e devolva o dinheiro congelado.

Os indicadores da OIT, um a um

Confisco de salário: presente. Retenção de documento de identidade: presente. Restrição de movimento e vigilância: presente. Ameaça de retaliação (a si e à família): presente. Impossibilidade de deixar o emprego sem punição severa: presente. É a soma desses elementos — e não uma palavra isolada — que faz a ONU e os EUA usarem o termo trabalho forçado.

04
Os rostos

Os que fugiram — e o processo que corre nos EUA

A engenharia só veio a público porque médicos fugiram e falaram. O caso que abriu tudo tem nome, cidade e data.

Ramona Matos Rodríguez — Pacajá (PA), fevereiro de 2014

Lotada no município de Pacajá, no Pará, a médica cubana Ramona Matos Rodríguez abandonou o Mais Médicos em fevereiro de 2014 e se refugiou na liderança de um partido na Câmara dos Deputados, em Brasília. Em depoimento ao Ministério Público do Trabalho, relatou que recebia cerca de US$ 400 enquanto o Brasil pagava muito mais, que não podia deixar a cidade sem permissão de um responsável cubano e que o contrato trazia cláusulas de sigilo sobre as próprias condições.

Ramona Matos · depoimento ao MPT, 2014Não podíamos namorar nem casar com estrangeiros sem autorização de um superior. Cada passo dependia de permissão.Exame / ConJur · 2014

Sua ação trabalhista no Brasil (contra a União, o município, a OPAS e a estatal cubana) foi, porém, desistida em setembro de 2014 — não houve condenação de mérito aqui. O caso migrou para os Estados Unidos.

Rodriguez v. PAHO — a ação que a OPAS não conseguiu barrar

Fachada do E. Barrett Prettyman United States Courthouse, em Washington, D.C., sede do tribunal federal e da corte de apelações do Distrito de Colúmbia.
O E. Barrett Prettyman U.S. Courthouse, em Washington, D.C. — onde o tribunal federal e a corte de apelações do D.C. Circuit decidiram, por três vezes, que a OPAS pode ser processada. Foto: AgnosticPreachersKid · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Ramona e outros três médicos — Tatiana Carballo, Fidel Cruz e Russela Rivero — processaram a OPAS nos EUA sob a lei americana de tráfico de pessoas (Trafficking Victims Protection Act), em nome de cerca de 3.500 profissionais. A OPAS alegou imunidade de organização internacional. Perdeu:

Atenção à precisão: as decisões afastaram a imunidade — ou seja, permitiram o processo seguir. Não houve, até aqui, sentença declarando a OPAS culpada de tráfico. E, no Brasil, a Justiça caminhou noutra direção: em 2023 determinou a recontratação de cubanos demitidos pela ruptura, e o STF validou os critérios (ADI 7771, fev/2026) — sem enfrentar a acusação de trabalho forçado.

05
A conta fecha?

A fábrica de médicos — e o que ela realmente esconde

Uma dúvida honesta: Cuba consegue mesmo formar médicos suficientes para abastecer meia centena de países e a própria ilha? Fizemos a conta. A resposta incomoda os dois lados do debate.

Prédio da Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Playa, Havana, Cuba.
A Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Havana — fundada em 1999, é a maior escola de medicina do mundo e treina milhares de estrangeiros de graça, em troca do compromisso de servir. É o motor da máquina de exportação. Foto: Dezona · Wikimedia Commons · CC BY-SA

A capacidade é real

Cuba tem cerca de 21 faculdades de medicina mais a ELAM (Escola Latino-Americana de Medicina, em Havana, fundada em 1999 — a maior escola médica do mundo). No pico, formava cerca de 10 mil médicos por ano: só em 2013, foram 10.526 formandos numa única cerimônia (5.683 cubanos e 4.843 estrangeiros).

O estoque chegou a 106 mil médicos em 2021 — densidade de ~9 por mil habitantes, a maior do mundo. O curso dura 6 anos, como no Brasil. Ou seja: a matemática fecha. Não é preciso "formação relâmpago" para explicar o volume — Cuba é, de fato, uma potência de formação médica.

O que a conta esconde

O problema não é a quantidade, é o destino. Boa parte dos formandos são estrangeiros da ELAM, treinados para a exportação, não para o SUS cubano. No pico (2007), 42 mil profissionais estavam fora ao mesmo tempo — o que ajuda a explicar a escassez crônica de médicos dentro de Cuba, hoje agravada pelo êxodo (o país perdeu mais de 12 mil médicos entre 2021 e 2022).

E sobra a pergunta que a quantidade não responde: o que exatamente se aprende nesse currículo, e que médico ele entrega? É o tema da próxima seção.

Onde estão os médicos cubanos hoje — por país

Havana espalha profissionais de saúde por cerca de 50 a 60 países. A concentração, porém, é enorme: um único cliente — a Venezuela — responde pela maior fatia, num arranjo de "petróleo por médicos". O Brasil chegou a ser o segundo maior destino no pico do Mais Médicos.

Venezuela 2026
~13.000
Brasil pico, 2017
11.429
México 2026
3.849
Angola 2026
~3.000
Argélia 2026
955

Foto atual (2026) da base independente CubaArchive, exceto o Brasil — cujo número é o pico oficial de 2017 (Ministério da Saúde), antes da ruptura. Anos diferentes propositalmente rotulados. Cuba também mantém missões na África do Sul, Qatar, Portugal, Itália e outros — sem cifra por país confiável. Histórico total: mais de 600 mil profissionais em ~165 países desde 1963.

Por que Havana faz isso: é a maior fonte de dólares do regime

As missões médicas não são caridade — são o principal negócio de exportação de Cuba. Em 2018, a exportação de serviços profissionais (majoritariamente saúde) rendeu cerca de US$ 7,7 bilhões, mais que o dobro do turismo (~US$ 3 bilhões). O Departamento de Estado estima US$ 6 a 8 bilhões por ano. Desde 1963, foram mais de 600 mil profissionais enviados a 165 países (número do próprio governo cubano).

O Brasil foi um dos maiores clientes dessa máquina. É por isso que a palavra certa não é "cooperação": é exportação de mão de obra — com o Estado, e não o trabalhador, ficando com o dinheiro.

06
Qualidade da formação

Muitas faculdades — mas o que se forma lá?

Que Cuba forma médicos em massa, já vimos. A pergunta seguinte é mais espinhosa: que médico é esse? O currículo cubano tem virtudes reais — e um flanco que entidades médicas e uma auditoria oficial brasileira apontaram.

O currículo cubano: comunidade — e doutrina

O Hospital Hermanos Ameijeiras, um edifício alto e moderno em Havana, Cuba.
No Brasil, o estudante só chega ao hospital no internato dos dois últimos anos; em Cuba, o eixo é o posto de saúde do bairro. Na foto, o Hospital Hermanos Ameijeiras, em Havana. Foto: Hana Gaon · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O curso dura 6 anos e gira em torno da Medicina Geral Integral (MGI), o "médico de família" cubano, com forte ênfase em atenção primária e trabalho comunitário desde o 1º ano. É a joia do modelo: forma para o posto de saúde, não para o hospital de ponta.

O outro lado é o peso do componente ideológico. O sistema educacional cubano se declara "marxista-leninista e martiano", e a formação política divide espaço com a técnica. Na ELAM, a seleção é por critério social (origem pobre ou rural), não por vestibular — e a contrapartida é o compromisso de servir. Ressalva honesta: a literatura acadêmica é dividida — parte dela credita a esse modelo humanista o bom desempenho dos cubanos na atenção básica brasileira.

Seis anos, dois modelos: Cuba × Brasil, etapa por etapa

Os dois países formam médicos em 6 anos, mas por caminhos opostos. No Brasil, o currículo segue as Diretrizes Curriculares Nacionais (2014) e tem eixo hospitalar-clínico — a medicina de família é uma disciplina, e uma especialidade opcional, dentro de um curso voltado ao hospital. Em Cuba, a atenção primária é a espinha dorsal desde o primeiro dia.

Etapa (6 anos)BrasilCuba
Anos 1–2
Ciclo básico
Anatomia, Histologia, Embriologia, Fisiologia, Bioquímica, Genética, Microbiologia, Imunologia, Farmacologia e Patologia — as ciências básicas, sobretudo em laboratório.As mesmas ciências básicas somadas à imersão no posto de saúde já no 1º ano; a Medicina Geral Integral (MGI) é a disciplina integradora do 1º ao 6º ano.
Anos 3–4
Ciclo clínico
Semiologia, Clínica Médica, Cirurgia, Pediatria, Ginecologia-Obstetrícia, Psiquiatria e Saúde Coletiva — o aprendizado à beira do leito hospitalar.Clínica com peso central da atenção primária e do consultório do médico de família na comunidade.
Anos 5–6
Internato
Estágio prático obrigatório (no mínimo 35% da carga total), com rodízios em Clínica, Cirurgia, GO, Pediatria e Saúde Coletiva; ao menos 30% do internato na Atenção Básica e na Urgência do SUS.Internato rotativo de ênfase comunitária; o egresso já sai com o perfil de generalista de família.
Depois de formadoDiploma + registro no CRM já habilitam a clinicar; a especialidade vem por Residência Médica (2 a 5 anos), disputada em concurso.Serviço social obrigatório + especialização em MGI quase compulsória; boa parte segue para as missões no exterior.

Lado brasileiro: Diretrizes Curriculares Nacionais de Medicina — Resolução CNE/CES nº 3/2014 (carga mínima de 7.200 horas; internato ≥ 35% da carga, sendo ≥ 30% dele na Atenção Básica e na Urgência/Emergência do SUS).

A escala: quem forma mais médicos

Brasil448 faculdades de medicina (2024), o 2º maior número do mundo, atrás apenas da Índia; formou 32.611 médicos em 2023 (e, com a expansão em curso, a projeção já passa de 42 mil por ano), para uma população de 213 milhões. O país tem hoje 575.930 médicos em atividade — 2,81 por mil habitantes.

Cuba — cerca de 21 faculdades mais a ELAM, formando ~10 mil médicos por ano (quase metade deles estrangeiros), para 11 milhões de habitantes. Chegou a 106 mil médicos — a maior densidade do mundo, mas com boa parte do corpo clínico destinada à exportação.

Agora a comparação é justa — formados por ano contra formados por ano. O Brasil forma cerca de três vezes mais médicos em número absoluto; mas Cuba, com 1/19 da população brasileira, forma proporcionalmente muito mais — e despacha boa parte deles para fora. É essa engenharia de escala que torna a exportação possível.

O que dizem as entidades médicas

O Conselho Federal de Medicina (CFM) foi contra o programa desde 2013. Em comissão na Câmara, o vice-presidente Carlos Vital Corrêa Lima afirmou que ele "expõe a população brasileira a médicos sem formação adequada".

O ponto central da crítica sempre foi a dispensa do Revalida: os cubanos podiam atuar sem passar pela prova que todo brasileiro formado no exterior precisa fazer. Os Conselhos Regionais foram à Justiça para não serem obrigados a registrá-los sem a revalidação do diploma.

A prova oficial de risco clínico: a auditoria do TCU (2014)

Não é boato de internet — é um relatório do Tribunal de Contas da União. Ao monitorar o programa, o TCU registrou que 17,7% dos intercambistas admitiram que a falta de conhecimento de protocolos "conturbou diagnósticos e terapêuticas", e que mais de um terço dos supervisores do Ministério da Saúde relatou que os estrangeiros tinham dificuldade diária por desconhecer nomes de medicamentos e suas dosagens corretas. É a base documental — e não um caso viral — para a preocupação com a segurança do paciente.

O padrão nas outras missões: estatística inflada, paciente inventado

A denúncia de má prática não é só brasileira. Com base em mais de 1.400 depoimentos, a ONG Prisoners Defenders relata que 60,84% dos entrevistados foram forçados a inflar estatísticas de atendimento, e mais da metade admitiu inventar pacientes, tratamentos e patologias para bater metas políticas.

Na Venezuela (missão Barrio Adentro), o New York Times (2019) colheu relatos de médicos cubanos pressionados a condicionar atendimento a voto, e a ONG Transparencia Venezuela documentou módulos abandonados e ocultação de dados de epidemias. Ressalva: a reportagem do NYT foi contestada por veículos de esquerda; tratamos como denúncia grave e amplamente divulgada, não como fato pacífico.

07
O estopim

2018: o Revalida como divisor de águas

O programa cubano no Brasil não terminou por decisão judicial nem por escândalo de corrupção. Terminou numa queda de braço política — e o gatilho foi justamente a exigência de que os médicos provassem o diploma.

As três exigências de Bolsonaro

Eleito em 28 de outubro de 2018, Jair Bolsonaro condicionou a permanência dos cubanos a três pontos: fazer o Revalida; receber o salário integral (em vez de a maior parte ir para Havana); e ter liberdade para trazer a família.

Ele também disse não haver "comprovação de que sejam médicos". Aqui, precisão: a checagem do Aos Fatos classificou essa frase como falsa — a lei do programa exigia a documentação do diploma. As duas primeiras exigências, porém, batem exatamente no esquema que este dossiê descreveu.

A resposta de Havana: retirar todos

Em 14 de novembro de 2018, o Ministério da Saúde de Cuba anunciou a saída do programa, em nota que chamou as condições de "inaceitáveis" e as falas de Bolsonaro de "depreciativas e ameaçadoras".

A escolha é reveladora: entre submeter seus médicos a uma prova e pagar-lhes o salário cheio, ou abandonar o segundo maior mercado de sua diplomacia médica, o regime preferiu abandonar o mercado.

O buraco — e quem o tapou

Na saída (fim de 2018)Número
Médicos cubanos no programa na ruptura~8.300
Deixaram o Brasil (24/11 a 24/12/2018)~6.000
Ficaram (laços no Brasil)~2.000
Municípios sob risco de ficar sem médicoaté ~600
Vagas do edital emergencial (para brasileiros)8.517

O governo abriu um edital emergencial e afirmou ter preenchido as 8.517 vagas com médicos brasileiros — embora 1.325 tenham depois deixado o posto, e reportagens registrassem cidades ainda com vagas abertas. Os ~2.000 cubanos que ficaram passaram a poder atuar apenas mediante o Revalida — a mesma prova que motivara a ruptura.

08
O responsável político

Padilha e os vistos revogados

Todo arranjo tem um autor. Do lado brasileiro, o rosto do Mais Médicos é Alexandre Padilha — e, em 2025, os Estados Unidos o alcançaram, não com bloqueio de bens, mas com a revogação de vistos.

Retrato de Alexandre Padilha, ministro brasileiro, de terno e gravata.
Alexandre Padilha, ministro da Saúde de Dilma Rousseff quando o Mais Médicos foi criado, em 2013 — e novamente à frente do Ministério da Saúde no governo Lula. Foto: Palácio do Planalto · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Quem é, e o que fez

Médico e político do PT, Padilha era ministro da Saúde de Dilma Rousseff quando o Mais Médicos foi lançado, em 2013, e foi o principal artífice político da parceria com Cuba intermediada pela OPAS — o desenho que este dossiê destrinchou. No governo Lula, voltou ao primeiro escalão e reassumiu a pasta da Saúde, defendendo o programa como uma marca do seu legado.

O que os EUA fizeram (13/08/2025)

O Departamento de Estado anunciou a revogação e restrição de vistos de autoridades ligadas ao Mais Médicos. O comunicado citou nominalmente dois brasileiros: Mozart Julio Tabosa Sales (secretário de Atenção Especializada) e Alberto Kleiman (ex-assessor de Relações Internacionais do Ministério da Saúde).

A justificativa oficial: terem favorecido o "esquema coercitivo de exportação de trabalho" cubano, usando a OPAS como intermediária e pagando "conscientemente ao regime cubano o que era devido aos médicos". O secretário de Estado Marco Rubio falou em "trabalho forçado".

E onde entra Padilha

O comunicado oficial não cita Padilha nominalmente. Mas reportagens registram que o governo americano revogou vistos de familiares do ministro e que o próprio Padilha ficou impedido de obter novo visto para os EUA.

Ele reagiu chamando as medidas de "ataques injustificáveis" e afirmando que "o Mais Médicos, como o Pix, vai sobreviver". Vale a nota: os EUA agiram por restrição de visto (barrar a entrada no país), e não por bloqueio de bens — são instrumentos diferentes, e foi o primeiro que se aplicou aqui.

09
Do contrato à Justiça

A linha do tempo

Doze anos entre a assinatura do convênio e a última decisão judicial americana — costurando saúde, dinheiro e direitos humanos.

Programa Denúncia / ruptura Justiça
2013
O convênio triangular

O governo Dilma cria o Mais Médicos e firma, via OPAS, acordo com a estatal cubana Comercializadora de Servicios Médicos Cubanos. Chega a primeira leva em agosto.

Fev 2014
Ramona Matos foge em Pacajá (PA)

A deserção da médica torna público o esquema de retenção salarial e o controle sobre a vida dos cubanos. Ela depõe ao MPT e leva documentos ao Congresso.

2015
TST se declara incompetente

Em 3/11, o Tribunal Superior do Trabalho decide, por unanimidade, que a Justiça do Trabalho não pode julgar a ação do MPT — sem enfrentar o mérito da acusação.

2017
Pico: 11.429 médicos cubanos

Os cubanos chegam a 62,6% de todos os participantes do programa — a fração mais alta de toda a série.

Nov 2018
Cuba rompe e retira os médicos

Após Bolsonaro exigir Revalida, salário integral e vinda das famílias, Havana chama as condições de "ameaçadoras" e retira o contingente. Mais de 7 mil (90%+) voltam à ilha.

2019
A ONU pergunta a Cuba

Relatoras Bhoola (escravidão) e Giammarinaro (tráfico) enviam a comunicação AL CUB 6/2019: as condições "poderiam configurar trabalho forçado". Cuba nega em janeiro de 2020.

2020–22
A OPAS perde a imunidade nos EUA

No caso Rodriguez v. PAHO, a Justiça americana decide que a OPAS responde como empresa por ter atuado de intermediária financeira. O processo por trabalho forçado segue.

Ago 2025
EUA revogam vistos ligados ao programa

Departamento de Estado restringe vistos de Mozart Sales e Alberto Kleiman e atinge familiares de Padilha. Justificativa: "esquema de trabalho forçado" cubano via OPAS.

2026
O caso segue vivo

Em agosto, o tribunal americano mantém Rodriguez v. PAHO em andamento (nº 24-7135). No Brasil, o STF valida (ADI 7771) a reintegração de cubanos demitidos pela ruptura.

Balanço

O que se sabe — e o que ainda não

Para não confundir acusação com sentença, o balanço final em três colunas.

✔ Documentado

  • O Brasil pagava a OPAS, que repassava a uma estatal cubana; o médico nunca teve contrato com o Brasil.
  • O Estado cubano ficava com a maior parte do salário (~70% no Brasil; alegação de 85% nos autos).
  • Parte do pagamento ficava retida em Cuba, liberada só no retorno.
  • Norma cubana proíbe relacionamentos não autorizados e regula a vida do "colaborador" (HRW).
  • Deserção = "indesejável", proibido de voltar por 8 anos; até 8 anos de prisão por "abandono".
  • O CFM alertou (2013) para "médicos sem formação adequada" e contra a dispensa do Revalida.
  • A auditoria do TCU (2014) apontou dificuldade dos estrangeiros com dosagens e nomes de medicamentos.
  • Na ruptura de 2018, Cuba retirou ~8.300 médicos após o Brasil exigir Revalida e salário integral.
  • Cuba em Tier 3 do relatório de tráfico dos EUA (2019–2023).
  • EUA revogaram vistos (2025); a OPAS perdeu a imunidade nos tribunais americanos.

⚖ Alegado / em juízo

  • Divisão exata 85% / 5% / 10% e os US$ 75 mi retidos pela OPAS — pleiteados na inicial, ainda não julgados no mérito.
  • Vigilância por agentes de segurança, retenção de passaporte na chegada — depoimentos, não coisa julgada.
  • "Escravidão" como qualificação jurídica: parecer não vinculante da ONU + relatórios de ONGs; nenhuma condenação de mérito.
  • Falsificação de estatísticas e coação eleitoral nas missões (Prisoners Defenders; NYT, na Venezuela) — denúncias graves, em parte contestadas.
  • Totais globais (US$ 1,3 bi a Cuba; US$ 1,5 bi do Brasil) variam por fonte.

✖ Negado / a corrigir

  • Cuba nega tudo: diz que os relatores da ONU foram "usados em campanha dos EUA".
  • Os EUA atingiram o programa por revogação de vistos (Depto. de Estado), não por bloqueio de bens; o comunicado não cita Padilha nominalmente.
  • A "receita cubana recusada" que viraliza não é erro clínico — é problema administrativo (registro RMS vencido).
  • A reprovação alta no Revalida não é exclusiva dos cubanos — atinge os diplomas estrangeiros em geral.
  • O TST não reconheceu vínculo nem escravidão — declarou-se incompetente.
  • A matemática da formação cubana fecha: não há "diploma relâmpago" — o problema é o regime de trabalho e a qualidade, não o número de médicos.

O fio da meada

Retire o exagero e sobra o essencial: um trabalhador que não escolhe o empregador, não recebe o próprio salário, não guarda o próprio passaporte e não pode voltar para casa sem punição não é um "cooperante" — é, pela definição técnica da OIT, alguém em trabalho forçado. O Mais Médicos importou esse arranjo e o cobriu com o verniz da saúde pública. Os médicos cubanos foram, ao mesmo tempo, benfeitores do interior brasileiro e vítimas do próprio Estado que os enviou. Reconhecer as duas coisas é o começo da honestidade sobre o programa.

Esta página se apoia em documentos oficiais, autos judiciais e reportagens plurais. Se sobrevier sentença de mérito — condenando ou absolvendo a OPAS —, será atualizada.

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