Durante os anos mais sombrios da Alemanha, um teólogo tentou entender como um país culto, cristão e instruído havia mergulhado na barbárie coletiva. A resposta a que chegou não apontava para o ódio nem para a crueldade dos poucos. Apontava para outra coisa, mais difusa e mais difícil de combater: a estupidez da maioria. Não a falta de inteligência, mas a renúncia a pensar por conta própria. Este é o argumento de Bonhoeffer. A pergunta que fica é se ele ainda nos descreve.
O percurso
Parte IQuem escreveu, e de onde
Dietrich Bonhoeffer (1906–1945) foi teólogo e pastor luterano, e um dos poucos líderes religiosos alemães a romper abertamente com o regime de Hitler. Envolveu-se na resistência e na conspiração para derrubar o ditador, foi preso em 5 de abril de 1943 e enforcado no campo de Flossenbürg em 9 de abril de 1945, poucas semanas antes do fim da guerra.
Convém corrigir um detalhe que costuma circular junto com essas páginas. O texto sobre a estupidez não foi escrito na prisão. Ele integra um ensaio chamado Depois de dez anos, que Bonhoeffer redigiu na virada de 1942 para 1943, dez anos após Hitler chegar ao poder, e ofereceu como um balanço a companheiros próximos da conspiração. O manuscrito ficou escondido; foi encontrado depois da guerra e só então incluído por seu amigo Eberhard Bethge na coletânea de cartas do cárcere, Resistência e Submissão (1951). Ou seja: são as reflexões de um homem que ainda estava livre e no centro da resistência, observando de dentro como seus compatriotas haviam sido capturados: não pela força, mas pela adesão.
Parte IA tese: pior que o mal
A conclusão de Bonhoeffer é direta e desconcertante:
"A estupidez é um inimigo do bem mais perigoso do que a maldade. Contra o mal é possível protestar, ele pode ser desmascarado e, se necessário, impedido pela força. O mal traz sempre em si o germe da autodissolução, pois deixa nas pessoas, ao menos, um mal-estar. Contra a estupidez estamos indefesos."
Dietrich Bonhoeffer, Depois de dez anos (1942–43)O raciocínio tem uma simetria clara. Contra o malvado há armas: pode-se denunciá-lo, combatê-lo, legislar contra ele. E, no fundo, quem faz o mal costuma saber que está quebrando as regras. Resta nele alguma consciência do crime, uma brecha por onde a resistência entra. O estúpido, no sentido de Bonhoeffer, não tem essa brecha. Ele está convencido de que age certo.
Parte IPor que estamos indefesos
É aqui que a tese fica inquietante. Diante da estupidez, o arsenal habitual não funciona. A pessoa dominada por ela é impermeável a argumentos e a fatos. Apresentam-se provas que contradizem o que ela acredita, e as provas simplesmente não são registradas: são ignoradas, ou tratadas como irrelevantes, ou tomadas como exceções que não abalam o dogma.
Pior: quando confrontada, essa pessoa não recua nem hesita. Segura de si, ela reage com irritação e passa ao ataque. Por isso Bonhoeffer conclui que o estúpido é, em certas circunstâncias, mais perigoso do que o malvado. Com o malvado ainda é possível argumentar, ou pelo menos entender o que ele quer; com o estúpido, não há terreno comum onde a razão possa apoiar-se.
Parte INão é um defeito intelectual
Bonhoeffer faz questão de deixar claro um ponto, o que separa a sua tese de um mero insulto: estupidez, aqui, nada tem a ver com quociente intelectual ou escolaridade. Há mentes brilhantes operando sob profunda estupidez, e pessoas simples que transbordam sabedoria moral. O diploma não protege; às vezes até agrava, ao dar ao estúpido melhores palavras para justificar-se.
Trata-se, portanto, de um problema moral, não cognitivo. A estupidez, nesse sentido, começa no instante em que um indivíduo renuncia voluntariamente à sua capacidade de julgamento próprio. Não é uma incapacidade de pensar; é uma abdicação de pensar. E abdicação é uma escolha, o que torna a tese, no fundo, uma questão de caráter, e não de inteligência.
Parte IO contágio e o papel do poder
A observação mais original de Bonhoeffer é que a estupidez não é, primariamente, um traço individual. É um fenômeno sociológico. Ele notou que ela se alastra em condições específicas: sempre que surge uma estrutura de poder forte, política ou religiosa, ela parece infectar de estupidez uma parcela enorme da população.
"A estupidez é menos um problema psicológico do que sociológico. Em certas circunstâncias, os homens tornam-se estúpidos; ou melhor, permitem que os tornem estúpidos. [...] O poder de uns exige a estupidez de outros."
Dietrich Bonhoeffer, Depois de dez anosO mecanismo é o seguinte. Ao dissolver-se num grupo, ao aderir cegamente a uma ideologia ou a um movimento de massa, o indivíduo sacrifica a própria independência interior. Deixa de pensar por si e passa a repetir slogans, palavras de ordem e narrativas prontas. Sua consciência foi, por assim dizer, delegada ao coletivo.
E é essa delegação que produz o resultado mais assustador. Alguém que entregou o próprio juízo ao grupo torna-se uma ferramenta dócil, capaz de cometer ou justificar as maiores atrocidades sem sentir qualquer remorso. Não porque seja cruel, mas porque desligou a instância interior que julgaria o ato. Bonhoeffer, que escrevia em plena Alemanha nazista, tinha diante dos olhos a demonstração do que descrevia.
Parte IA única cura possível
Se a estupidez fosse falta de informação, bastaria informar. Mas Bonhoeffer é categórico: não se cura estupidez com mais dados nem com mais instrução. Aliás, o estúpido bem informado apenas fica mais hábil em rejeitar o que contraria suas convicções.
A saída, para ele, é de outra ordem: um ato de libertação interior, ligado à coragem moral. Enquanto o indivíduo não recuperar a disposição de examinar as próprias ideias de forma autônoma, e de tolerar o desconforto de contradizer o seu próprio grupo, permanecerá preso nesse torpor. A libertação, sugere ele, quase nunca vem de dentro do estúpido; costuma exigir uma sacudida externa e a coragem, rara, de voltar a pensar sozinho.
Parte IIO eco em Gad Saad
Releia agora a mecânica descrita por Bonhoeffer: a razão que se desliga, o contágio pela adesão ao grupo, a sociedade que se volta contra si mesma. Ela vai soar familiar a quem acompanhou um debate recente. Em maio de 2026, o psicólogo Gad Saad lançou Suicidal Empathy: Dying to Be Kind ("Empatia suicida: morrer por ser gentil"), que estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times.
Saad é professor de comportamento do consumidor e psicólogo evolucionista, e já vinha trabalhando essa veia: seu livro anterior, The Parasitic Mind (2020), tinha como subtítulo "como ideias infecciosas estão matando o bom senso". A imagem do contágio de ideias é a marca registrada do autor, a mesma que Bonhoeffer usou ao falar em população "infectada de estupidez".
O que é a "empatia suicida"
A tese central: um excesso de compaixão mal direcionada pode destruir uma civilização. Saad chama de "empatia suicida" a forma de pensar que passa a priorizar o sentimento sobre a verdade, o infrator sobre a vítima e a ideologia sobre o bom senso. Nesse ponto, a sociedade age contra o próprio instinto de sobrevivência, imaginando que está apenas sendo bondosa.
Ele explica o conceito com uma metáfora da biologia. O nematomorfo é um verme parasita que infecta um grilo. O grilo evita a água por natureza. Sob o parasita, passa a fazer o contrário do que lhe convém: pula na água e se afoga, que é o que o verme precisa para completar o próprio ciclo. Saad argumenta que algo parecido aconteceria com as sociedades. Primeiro é sequestrado o pensamento racional. Depois, o sistema emocional. Quando os dois se vão, vai junto o instinto de autopreservação. Elon Musk endossou publicamente a ideia, tratando a empatia mal calibrada como uma fraqueza que estaria sendo explorada contra o Ocidente.
Parte IIA proximidade dos dois casos
Postas lado a lado, as duas teses descrevem a mesma anatomia com vocabulários diferentes. Bonhoeffer parte da estupidez; Saad, de uma forma específica dela, a compaixão desregulada. Mas os dois estão apontando para o mesmo ponto de falha: o momento em que o juízo autônomo é desligado e a pessoa passa a operar no piloto automático de um sentimento ou de um grupo.
| Bonhoeffer: a estupidez (1942) | Saad: a empatia suicida (2026) | |
|---|---|---|
| O gatilho | Renúncia voluntária ao juízo próprio | Compaixão que se sobrepõe à razão e aos fatos |
| A metáfora | Contágio: o poder "infecta de estupidez" | Parasita: o verme sequestra o grilo |
| A ordem da queda | Razão desligada → consciência delegada ao grupo | Razão sequestrada → depois a emoção |
| O resultado | Justificar atrocidades sem remorso | Agir contra o próprio instinto de sobrevivência |
| A cura | Ato de libertação interior e coragem moral | Recolocar a verdade e a razão acima do sentimento |
| O que não resolve | Mais instrução e mais dados | Mais empatia, que é justamente o problema |
Há três pontos de contato que merecem ser sublinhados. O primeiro é a linguagem do contágio: os dois recusam a ideia de que o problema seja um defeito individual e o tratam como algo que se espalha pelo corpo social. O segundo é a sequência do colapso: primeiro cai a razão, depois cai o resto. Em Bonhoeffer, a consciência é entregue ao coletivo; em Saad, a emoção é capturada depois da razão. O terceiro é o diagnóstico sobre a cura: nenhum dos dois acredita que informação resolva. Para Bonhoeffer, é preciso um ato de coragem interior; para Saad, é preciso reordenar as prioridades e recolocar a verdade acima do afeto. Em ambos, sair do torpor custa desconforto, e por isso é raro.
Parte IIO que os separa
A aproximação é real, mas não é uma equação. Convém marcar as diferenças, para não forçar a mão.
Época e campo. Bonhoeffer escreve em 1942, como teólogo e conspirador antinazista, e seu horizonte é o totalitarismo de massa. Saad escreve em 2026, como psicólogo evolucionista, e seu alvo declarado é a cultura ideológica contemporânea. São diagnósticos de doenças diferentes, ainda que com sintomas parecidos.
Amplitude. A "estupidez" de Bonhoeffer é um conceito largo: cabe nela qualquer abdicação do juízo próprio, de qualquer lado do espectro. A "empatia suicida" de Saad é mais estreita e mais direcionada: é uma forma específica desse desligamento, ligada a um tipo particular de compaixão, e vem carregada de uma posição política explícita do autor. Uma é ferramenta de análise; a outra é também uma tese de combate.
Feita essa ressalva, o eco permanece. Um teólogo diante do nazismo e um psicólogo diante do debate cultural de hoje, separados por oitenta anos, descreveram, cada um à sua maneira, a mesma cena: uma sociedade instruída que, sem ser forçada, entrega o próprio juízo e passa a marchar contra os próprios interesses, convencida de que faz o certo. Bonhoeffer chamou isso de estupidez. Saad chamou de empatia suicida. É possível que estejam, em boa medida, falando da mesma coisa.
Nota sobre fontes e interpretação
Bonhoeffer: o texto sobre a estupidez integra o ensaio Depois de dez anos (Nach zehn Jahren), escrito na virada de 1942–43 e publicado postumamente em Resistência e Submissão (Widerstand und Ergebung, 1951), organizado por Eberhard Bethge. Bonhoeffer foi preso em 5 de abril de 1943 e executado em Flossenbürg em 9 de abril de 1945. As passagens citadas são traduções fiéis do sentido do original; o essencial ("a estupidez é um inimigo do bem mais perigoso que a maldade", "contra a estupidez estamos indefesos", a estupidez como fenômeno "sociológico") está no texto.
Saad: Suicidal Empathy: Dying to Be Kind foi lançado em 12 de maio de 2026 (Broadside Books) e estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times. Gad Saad é também autor de The Parasitic Mind: How Infectious Ideas Are Killing Common Sense (2020). A metáfora do verme parasita (nematomorfo) e do grilo, e a ideia do "sequestro" da razão e depois da emoção, são exposições do autor.
Interpretação: o paralelo entre as duas teses é uma aproximação analítica, não uma afirmação de influência ou identidade. São autores, contextos e propósitos distintos; o que se destaca é a semelhança do mecanismo descrito, não uma equivalência entre as obras.
O relato do autor
Laudelino relata o episódio em programa da Brasil Paralelo (trecho de 2min53s a 4min18s).
Vídeo de despedida do poeta e ateu reformado.


