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Dossiê · 1792–1794 · O Terror

O Inventário
do Horror

Vendée, os afogamentos de Nantes, os Massacres de Setembro, a guilhotina. A Revolução Francesa proclamou os direitos universais do homem — e, no mesmo fôlego, industrializou o massacre. Este é o lado que a Revolução escondeu.

Léon-Maximilien Faivre, A morte da princesa de Lamballe (1908) · domínio público

Toda escola ensina a data e o slogan: 1789, Liberté, égalité, fraternité. Poucas contam o que veio depois — quando os mesmos homens que assinaram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão passaram a afogar prisioneiros em barcaças, a queimar aldeias inteiras com seus habitantes dentro e a desfilar cabeças na ponta de piques pelas ruas de Paris.

Este é o inventário do horror — as atrocidades que constam de atas, ordens militares e das estatísticas dos próprios historiadores da Revolução. Um episódio por vez.

I · Setembro de 1792As prisões viraram matadouros

No fim de agosto de 1792, o exército prussiano cruzou a fronteira e marchou sobre Paris. Longwy caiu; Verdun foi cercada. A monarquia acabara de ser derrubada com a tomada das Tulherias, em 10 de agosto. Espalhou-se então um pânico: e se os presos contrarrevolucionários se libertassem pelas costas dos voluntários que partiam para a frente? Bastou.

De 2 a 6 de setembro de 1792, turbas sans-culottes invadiram nove prisões da capital. Montaram tribunais improvisados nos pátios: um interrogatório sumário, um veredito gritado, e o preso era despachado a piques e sabres do lado de fora. Cerca de 70% das mortes ocorreram nas primeiras 24 horas.

Gravura de Pierre-Gabriel Berthault mostrando a matança de prisioneiros nos pátios das cadeias de Paris em setembro de 1792.
Pierre-Gabriel Berthault, Massacres de 2 a 6 de setembro de 1792 (gravura, 1802). A matança de prisioneiros nos pátios das cadeias de Paris.
~1.300
mortos (faixa: 1.100–1.600)
9
prisões invadidas
~72%
eram presos comuns, não políticos
~220
padres refratários mortos

O dado incômodo — que Frédéric Bluche e Pierre Caron, os dois grandes historiadores do episódio, cravaram — é que a maioria das vítimas não era nobre nem padre. Eram presos comuns: falsários, ladrões, prostitutas, gente detida por dívida. A "justiça popular" matou sobretudo o próprio povo. O número exato é uma estimativa: os registros são incompletos, e por isso se usa uma faixa (Caron: ~1.250–1.450; Bluche: ~1.300), nunca um número redondo fingindo precisão.

Gravura de época da invasão da prisão-hospício da Salpêtrière durante os massacres de setembro.
A invasão da Salpêtrière, prisão-hospício de mulheres.
Gravura do massacre na prisão da Abbaye, em Paris, em setembro de 1792.
O massacre na prisão da Abbaye, na antiga rue Sainte-Marguerite.

A princesa de Lamballe

Entre as vítimas estava Marie-Louise de Savoie-Carignan, princesa de Lamballe — amiga e confidente de Maria Antonieta. Levada ao tribunal improvisado da prisão de La Force em 3 de setembro, mandaram-na jurar ódio ao rei e à rainha. Ela recusou. Foi entregue à turba, morta a golpes e decapitada, e sua cabeça foi cravada num pique e levada até a Torre do Templo — para ser erguida sob a janela de Maria Antonieta.

Retrato da princesa de Lamballe por Antoine-François Callet, por volta de 1776.
A princesa em vida, por Callet (c. 1776).
Gravura de 1838 mostrando o assassinato da princesa de Lamballe.
O assassinato, em gravura de 1838.
A morte da princesa de Lamballe, tela de Léon-Maximilien Faivre (1908): a turba, os piques erguidos e o corpo caído diante da prisão de La Force.
Léon-Maximilien Faivre, A morte da princesa de Lamballe (1908): a turba e o corpo caído diante da prisão de La Force.

II · 1793–1794A Vendée e as colunas infernais

Em março de 1793, o campesinato católico e realista do oeste francês pegou em armas contra a Revolução — contra o recrutamento forçado, a perseguição aos padres e a execução do rei. Era a guerra da Vendée. Depois de esmagar os rebeldes em campo aberto, a Convenção decidiu não apenas vencer: decidiu apagar.

O massacre de Machecoul, episódio da guerra civil da Vendée, em tela de François Flameng.
François Flameng, O massacre de Machecoul — um dos episódios sangrentos da guerra civil da Vendée.

De janeiro a maio de 1794, as colunas infernais do general Louis-Marie Turreau varreram a região metodicamente. A instrução do próprio Turreau, de 19 de janeiro de 1794, não deixa dúvida sobre a ordem:

« Todos os brigands que forem encontrados de armas na mão, ou convictos de as terem tomado para se revoltar contra a pátria, serão passados pela baioneta. Proceder-se-á da mesma forma com as mulheres, as moças e as crianças que estejam nessas condições. (...) As aldeias, os casebres e tudo o que puder ser queimado serão entregues às chamas. »

— Instrução do general Turreau às colunas, 19 de janeiro de 1794
A batalha de Le Mans, dezembro de 1793, em tela de Jean Sorieul.
A batalha de Le Mans (dezembro de 1793), um dos massacres que dizimaram o exército vendeano.
Retrato do general Louis Marie Turreau.
O general Turreau, comandante das colunas infernais.

A execução variou pela mão de cada comandante — Haxo conteve os abusos ("somos soldados, não carrascos"); as colunas de Cordellier, Grignon e Amey massacraram, incendiaram, estupraram e torturaram sem freio. Em 7 de novembro de 1793, um deputado chegou a propor rebatizar o departamento de "Vengé" — a Vendée Vingada. Já em dezembro de 1794, o revolucionário Gracchus Babeuf denunciava, em Do sistema de despovoamento, o que chamou de "populicídio".

III · Nantes, 1793–94Os afogamentos do Loire

Enquanto Turreau queimava o campo, o representante Jean-Baptiste Carrier resolvia o problema das prisões lotadas de Nantes pela via mais rápida: o rio. Entre novembro de 1793 e fevereiro de 1794, milhares de prisioneiros — muitos padres refratários — foram embarcados em barcaças de fundo alçapão, rebocadas ao meio do Loire e afundadas de noite. As vítimas iam frequentemente amarradas e despidas.

Gravura de época dos afogamentos no rio Loire por ordem de Carrier, as noyades de Nantes.
"Afogamentos no Loire por ordem do feroz Carrier" — a célebre gravura das noyades de Nantes, dezembro de 1793.
~1.800–4.800
afogados (faixa entre historiadores)
Nov 1793
início dos afogamentos
16 dez 1794
Carrier é guilhotinado
Retrato de Jean-Baptiste Carrier, o representante que ordenou os afogamentos.
Jean-Baptiste Carrier, o convencional que ordenou os afogamentos em massa.

O próprio Carrier foi julgado e guilhotinado em dezembro de 1794 — a Revolução devorando o próprio carrasco.

IV · A lenda de MeudonO curtume de pele humana

Nenhuma história marcou tanto o imaginário do horror revolucionário quanto esta: em Meudon, dizia-se, funcionava um curtume onde a pele dos guilhotinados era tratada para virar couro — e faziam-se com ela luvas e calções. A pele de homem seria "superior à camurça"; a de mulher, "mais flexível, mas sem firmeza". A frase "curte-se em Meudon a pele humana" chegou a ser atribuída a Saint-Just.

É preciso dizer, porém, o que a história tem de sólido: não há uma única prova documental do curtume de Meudon. A alegação só aparece a partir de 1795, depois da queda dos jacobinos, quando desmoralizá-los era o objetivo; o suposto "relatório de Saint-Just" é uma falsificação, e o inventário real de suas roupas só listava calções de tecido e camurça comum. A imagem é poderosa — e por isso mesmo atravessou dois séculos —, mas pertence à lenda, não ao arquivo.

Para não confundir: encadernar livros em pele humana (a bibliopegia antropodérmica) existiu em casos isolados e verificáveis, em outros tempos e contextos. Isso não valida a fábrica de calções de Meudon — são coisas diferentes.

V · 1793–1794A navalha nacional

Tudo isso teve um nome oficial: o Terror. De setembro de 1793 a julho de 1794, o Comitê de Salvação Pública governou a França pela guilhotina. A Lei dos Suspeitos (17 de setembro de 1793) permitia prender qualquer um que não pudesse provar civismo — uma definição vaga de propósito. A Lei de 22 Pradial (10 de junho de 1794) suprimiu a defesa e deixou ao júri só duas saídas: absolvição ou morte.

Uma execução na Praça da Revolução, em Paris, retratada por Pierre-Antoine Demachy.
Pierre-Antoine Demachy, Execução na Praça da Revolução — o cotidiano do Terror parisiense.

A máquina era, ironicamente, um projeto humanitário. O médico Joseph-Ignace Guillotin a propôs em 1789 como método igualitário — a mesma morte rápida para nobre e plebeu, no lugar da espada para uns e da forca para outros. Guillotin era contra a pena de morte e não inventou a máquina (o projeto foi do cirurgião Antoine Louis). E não, ele não morreu guilhotinado: morreu na cama, em 1814. O primeiro executado foi o salteador Nicolas Pelletier, em abril de 1792.

~16.594
execuções por sentença (Greer, 1935)
~35–45 mil
mortos totais do Terror
~85%
das vítimas eram do Terceiro Estado
10 Termidor
Robespierre guilhotinado (28 jul 1794)

Os números vêm de Donald Greer. Uma distinção importa: os ~16.594 são execuções por sentença judicial — não o total de mortos, que sobe para 35–45 mil quando se somam os que morreram nas prisões e nas execuções sumárias. E, de novo, o retrato social desmente o clichê: a guilhotina não caiu sobretudo sobre duques. 85% das vítimas eram gente comum — "mais carroceiros que príncipes", na síntese de Greer.

A execução de Luís XVI na guilhotina, 21 de janeiro de 1793.
Luís XVI, guilhotinado em 21 de janeiro de 1793.
A execução de Maria Antonieta, 16 de outubro de 1793.
Maria Antonieta, guilhotinada em 16 de outubro de 1793.

Caíram o rei, a rainha, os girondinos, Danton, o químico Lavoisier — e, por fim, o próprio Robespierre. No dia seguinte à execução de Lavoisier, o matemático Lagrange resumiu o que a máquina significava para a ciência e para o país:

« Bastou-lhes um instante para fazer cair essa cabeça, e talvez cem anos não bastem para produzir outra igual. »

— Joseph-Louis Lagrange, sobre a execução de Lavoisier (relato de Delambre)
A execução de Robespierre na guilhotina, 28 de julho de 1794.
A queda do carrasco: Robespierre é guilhotinado em 28 de julho de 1794, encerrando o Terror.

EpílogoEm nome dos direitos do homem

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, quadro alegórico de Le Barbier, 1789.
Jean-Jacques-François Le Barbier, A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789).

Em 26 de agosto de 1789, a Assembleia proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: presunção de inocência, legalidade das penas, liberdade individual. Cinco anos depois, o mesmo ciclo revolucionário afogava padres no Loire, queimava camponeses na Vendée e negava defesa a quem subia ao cadafalso. A ironia não é retórica — é factual. O país que anunciou os direitos universais do homem construiu, no mesmo movimento, um regime de exceção com julgamento sumário e execução em massa.

Chamar a Revolução Francesa de "berço da liberdade moderna" e parar aí é contar meia história. A outra metade é este inventário: mil e trezentas pessoas mortas nas prisões de Paris num fim de semana; dezenas de milhares guilhotinadas; a Vendée reduzida a cinzas. É isso que deveria constar do livro didático — do lado da data e do slogan.

E convém lembrar o slogan por inteiro. A tríade que a escola ensina — Liberté, égalité, fraternité — tinha, em 1793, um quarto termo que o tempo tratou de apagar. Pintado nas paredes, gritado nas seções, ele dizia tudo sobre o que a Revolução fazia com quem discordava dela:

« Liberdade, Igualdade, Fraternidade — ou a Morte! »

— Lema revolucionário, França, 1793

Fonte deste texto:

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