De cada R$ 100 que o Brasil produz, cerca de R$ 61 passam pelo Estado — em gasto público ou em recursos drenados do setor privado — e sobram R$ 39 nas mãos de quem produziu. O PIB não mostra essa conta. Ele faz o contrário: soma o gasto do governo ao produto e chama o resultado de prosperidade.
É um problema de fábrica, não de opinião. O Produto Interno Bruto foi construído para medir a atividade econômica pela ótica da despesa, e uma de suas parcelas é justamente o consumo do governo — salários de servidores, compras públicas, custeio da máquina. No Brasil, essa parcela sozinha vale por volta de 19% do PIB. Ou seja: quase um quinto do que chamamos de "produção nacional" é, por definição, o próprio gasto do Estado, avaliado não pelo que vale para quem recebe, mas pelo que custou ao Tesouro.
Há quase um século alguns economistas apontam a falha. E há uma régua alternativa, pouco conhecida, que tenta medir o que o PIB embaralha: quanto sobra para o setor privado depois que o Estado se serve. Ela tem nome — Produto Privado Restante — e um autor.
01O criador do PIB já avisava
Quem montou as contas nacionais dos Estados Unidos, na década de 1930, foi o economista Simon Kuznets — trabalho que lhe renderia o Nobel de Economia em 1971. E foi ele, no relatório que entregou ao Senado americano em 1934, quem cravou a ressalva que seria ignorada por gerações de governantes.
"O bem-estar de uma nação dificilmente pode ser inferido a partir de uma medida da renda nacional tal como aqui definida."
Kuznets alertava contra o abuso mais comum: supor que, se a renda nacional cai 30%, o bem-estar caiu 30% — ou que, se ela sobe, todos estão melhor. A conta agrega demais e esconde demais. Trinta e quatro anos depois, um político traduziria a mesma ideia em palavras que ficaram famosas.
"O Produto Nacional Bruto conta a poluição do ar e a propaganda de cigarro, e as ambulâncias que limpam nossas estradas da carnificina. Conta as fechaduras especiais das nossas portas, e as prisões para quem as arromba. (…) Ele mede tudo, em suma, exceto aquilo que faz a vida valer a pena."
Kennedy falava do lado que falta: saúde, educação, o valor do que não tem preço. O ponto que interessa a este ensaio é o outro — o lado que sobra na conta e não deveria estar lá. É aí que entra Murray Rothbard.
02Rothbard e o produto que sobra
O economista americano Murray Rothbard (1926–1995), da Escola Austríaca, atacou o problema pela raiz. Sua objeção é simples de enunciar: o método oficial avalia os serviços do governo pelo que o governo gasta. Presume que, se o Estado gastou um bilhão, produziu um bilhão de valor. Mas gasto não é valor.
No mercado, explica Rothbard, o gasto mede valor porque é voluntário: ninguém paga por um serviço se ele não valer, para si, ao menos o preço cobrado. Com o governo é diferente. A receita não é paga, é cobrada — vem do imposto, sob coação. Por isso o gasto público não guarda relação necessária com o valor de qualquer serviço prestado. E não há como medir esse valor: como o serviço não passa pelo teste do mercado, não existe preço que revele quanto ele vale para quem o recebe.
Daí a proposta de Rothbard: parar de somar o gasto do governo ao produto e passar a subtraí-lo. Ele constrói a régua em dois passos, expostos no apêndice de Power and Market (1970) e aplicados em America's Great Depression (1963):
- Produto Privado Bruto (GPP) = PIB menos o produto originado no próprio governo e nas estatais. Tira-se da conta aquilo que é o Estado se contando como produção.
- Produto Privado Restante (PPR) = o GPP menos a "depredação" — os recursos que o governo drena do setor privado. E a depredação é o maior valor entre o que o governo gasta e o que ele arrecada. Se gasta mais do que arrecada, o déficit também sai do setor privado, via dívida; se arrecada mais, o excesso saiu via imposto. Vale sempre o maior dos dois.
Rothbard sabia que a hipótese é forte — tratar todo o gasto público como perda, não como ganho. E respondia com uma provocação aritmética: qualquer pessoa que acredite haver mais de 50% de desperdício no governo já terá de admitir que essa hipótese é mais realista do que a oficial, que conta 100% do gasto como produto. O ponto não é que o Estado não faça nada de útil. É que somar o custo dele à riqueza produzida infla a medida — e esconde quanto de fato resta para quem produz.
O economista Robert Batemarco ilustrou assim, em 1987: se os agricultores colhem 1.000 sacas e o governo taxa 200 para pagar funcionários que não vendem nada no mercado, o PIB registra 1.200 — as 1.000 do trigo mais as 200 do salário público. O Produto Privado Bruto é 1.000. E o que resta ao setor privado, o PPR, é 800. O PIB contou o imposto duas vezes: uma como trigo, outra como "serviço do governo".
03O teste: a Grande Depressão
Rothbard não parou na teoria. Aplicou a régua aos anos da Grande Depressão americana e publicou os números. O resultado mostra por que a distinção importa: durante a crise, o Estado encolheu menos que a economia — e a carga sobre o setor privado aumentou no pior momento. Quem olhava só o PIB via uma queda; quem olhava o PPR via um tombo maior.
A lição atravessa o tempo: o PIB pode subir, ou cair pouco, enquanto a fatia que resta a quem produz despenca — desde que o Estado cresça na proporção certa. É exatamente o que a régua do PPR revela quando se aplica ao Brasil das últimas duas décadas.
04O Brasil sob a lente do PPR
O exercício a seguir é do economista Diego Muguet (@diegomuguetrj), que aplicou a régua de Rothbard aos dados brasileiros de 2005 a 2025. No papel, o país deu um salto. O PIB por habitante saiu de cerca de R$ 11,7 mil em 2005 para algo perto de R$ 59,7 mil em 2025 — uma alta de 410% em vinte anos. É o número que enche relatório e discurso. E é uma miragem: quase tudo é inflação. Descontados os preços, o crescimento real do PIB per capita foi de aproximadamente 32% no período — e praticamente todo ele aconteceu até 2013. De 2013 para cá foram cerca de 4% em doze anos.
A estagnação real não é um artifício da régua austríaca; é dado corrente. O IBGE e as instituições de análise fiscal registram uma década perdida: na média de 2011 a 2020, o PIB per capita brasileiro encolheu 0,6% ao ano — desempenho igual ao dos anos 1980 — e o nível de renda por habitante de 2013 só foi recuperado por volta de 2023. O boom de commodities de 2005 a 2013 levantou o país; o que veio depois foi um platô.
Agora a régua do PPR. Medido em valores reais, o Produto Privado Restante por habitante valia cerca de R$ 26,5 mil em 2013 e hoje está em torno de R$ 23,5 mil — uma queda de 11%. Esse patamar é o mesmo de 2008. Traduzindo: quem produz no Brasil está, em termos reais, há dezessete anos no mesmo lugar — enquanto a fatia do Estado no produto subiu.
05A fatia do Estado subiu — e o resto encolheu
Por trás da estagnação do PPR está uma engrenagem só: a parcela do produto que fica com o Estado cresceu. Pela régua de Rothbard — somando o produto do próprio governo à depredação sobre o setor privado — essa fatia passou de cerca de 55% para 61% do PIB entre 2013 e hoje. O que resta ao setor privado caiu na mesma medida, de 45% para 39%.
Aqui é preciso separar o que é dado oficial do que é a régua da tese, para não confundir grandezas:
- A carga tributária bruta — só o que União, estados e municípios arrecadam em tributos — fechou 2024 em 32,3% do PIB pela conta do Tesouro Nacional, ou 34,2% pela medida ampla da FGV (incluindo FGTS e Sistema S), o maior valor da série.
- O gasto total do governo geral — todas as esferas, já com juros e transferências — ronda os 45% do PIB, segundo o FMI e o próprio Tesouro.
- Os 61% não são "imposto pago" nem "gasto de caixa": são o resultado da régua do PPR, que soma o produto do próprio governo (contado dentro do PIB) à depredação sobre o setor privado. É uma medida da carga total sobre o produto, mais ampla — e mais severa — do que a carga tributária.
A escolha entre as réguas não é neutra. O PIB conta o gasto do governo como riqueza e, por isso, mostra um país que cresceu. O PPR desconta esse gasto e mostra um setor privado parado há quase duas décadas. Os dois números descrevem o mesmo Brasil — mas só um deles responde à pergunta que interessa a quem trabalha: quanto do que eu produzo continua meu?
O PIB per capita subiu 410%. O produto privado restante voltou a 2008. Somar o gasto do Estado à riqueza produzida transforma o crescimento do governo em "prosperidade" nas estatísticas. É o que o Produto Interno Bruto foi desenhado para não mostrar — e o que a régua do PPR devolve à vista: quem produz ficou no mesmo lugar.
Kuznets avisou em 1934. Rothbard deu a régua em 1963. O Brasil de 2005 a 2025 é a demonstração: a economia pode parecer maior a cada ano e, ainda assim, sobrar cada vez menos para quem a move. A miragem tem nome técnico — PIB. E a realidade também — Produto Privado Restante.
Fontes e notas
- Murray N. Rothbard — America's Great Depression (1963), apêndice "Government and the National Product, 1929–1932" (Table VIII); e Power and Market (1970), apêndice do cap. 5, "The Role of Government Expenditures in National Product Statistics". Ludwig von Mises Institute (mises.org). Origem dos conceitos GPP e PPR e dos números de 1929–1932.
- Simon Kuznets — National Income, 1929–1932 (Senate Document nº 124, 73º Congresso, 1934). Citação verbatim: "…the welfare of a nation can scarcely be inferred from a measurement of national income as defined above." Arquivo FRASER, Federal Reserve Bank of St. Louis.
- Robert F. Kennedy — discurso na Universidade do Kansas, 18/03/1968 (transcrição oficial, John F. Kennedy Presidential Library). Falava do "Gross National Product" (PNB), não do PIB.
- Robert Batemarco — "GNP, PPR, and the Standard of Living", The Review of Austrian Economics, vol. 1 (1987), pp. 181–186. Exemplo didático e expansão empírica do PPR.
- IBGE — Sistema de Contas Nacionais: PIB per capita (R$ 10.520 em 2005; R$ 55.247 em 2024) e despesa de consumo do governo (≈ 19% do PIB). FGV/IBRE — "nova década perdida": PIB per capita −0,6% ao ano em 2011–2020.
- Secretaria do Tesouro Nacional — carga tributária bruta do governo geral (32,32% do PIB em 2024; prévia de 32,4% em 2025). FGV/IBRE — medida ampla de 34,24% em 2024 (com FGTS e Sistema S). FMI — despesa total do governo geral ≈ 45% do PIB.
- Diego Muguet (@diegomuguetrj) — aplicação da régua do PPR ao Brasil de 2005 a 2025 (PIB per capita, produto privado restante e fatia do Estado). Origem do gráfico e dos números da seção sobre o Brasil.
- Nota metodológica. Os valores da aplicação ao Brasil (PIB nominal +410%, real +32%, PPR per capita e a fatia de 55%→61%) resultam da régua de Rothbard aplicada aos dados oficiais acima, e não de uma publicação do IBGE ou do Tesouro. Rothbard reconhecia uma pequena sobrecontagem no método — parte do imposto é cobrada dos próprios servidores —, que ele considerava desprezível diante da distorção de usar o PIB no lugar do PPR. Os "61%" são uma medida da carga total sobre o produto, não o gasto de caixa do governo (≈ 45%) nem a carga tributária (≈ 33%).