A segurança pública é, desde 1988, uma atribuição dos estados. As polícias civil e militar respondem ao governador, e é a ele que o eleitor cobra quando a rua fica pior ou melhor. A PEC da Segurança Pública mexe nesse arranjo. Sob o nome técnico de PEC 18/2025, ela eleva ao texto da Constituição um sistema nacional coordenado pela União e amplia o papel do governo federal no combate ao crime organizado. O governo defende que não tira nada dos governadores. Os governadores, de direita e de esquerda, dizem o contrário. E por baixo da disputa técnica há uma disputa de projeto: quem deve segurar a arma do Estado.
O percurso
Parte I · O que está em jogoA votação relâmpago

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, colocou a PEC da Segurança Pública para votar em dois turnos na quinta-feira, 15 de outubro, depois de um rito acelerado. O calendário especial aprovado dispensou o intervalo de cinco dias úteis que normalmente separa os dois turnos de uma emenda constitucional. Oito líderes partidários assinaram o acordo que encurtou o prazo. Para passar, a proposta precisa de 49 votos favoráveis dos 81 senadores em cada turno.
A pressa vem do governo. Lula vinculou a aprovação da PEC à criação de um Ministério da Segurança Pública — uma pasta nova, federal, com orçamento e estrutura próprios. A emenda cria a base constitucional; o ministério vem em seguida. Aprovar uma abre espaço para a outra.
Parte IA letra: o que a PEC faz
Convém começar pelo que está escrito, e não pelo que se teme. A PEC mexe no Art. 144 da Constituição, o artigo que organiza a segurança pública no Brasil. Os pontos principais são quatro.
Constituição Federal · Art. 144 — o que a PEC acrescenta
1. Eleva à Constituição o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), hoje previsto apenas em lei ordinária, e o coloca sob coordenação da União.
2. Amplia a competência federal no enfrentamento ao crime organizado e às milícias, tratados como ameaças de alcance nacional.
3. Transforma a Polícia Rodoviária Federal em Polícia Viária Federal, com atuação para além das rodovias.
4. Autoriza as guardas municipais no policiamento ostensivo e cria regras gerais para fundos de segurança.
O ministro da Justiça repete em todas as entrevistas a mesma frase de defesa: a PEC não retira a competência dos governadores. As polícias militar e civil, os bombeiros e os agentes penais continuam subordinados aos governos estaduais. O que a União ganha, diz o governo, é o poder de universalizar políticas, padronizar dados e coordenar o combate a facções que cruzam fronteiras estaduais. Pela defesa oficial, a palavra-chave é coordenar, não comandar.
Parte II · A engenharia"Coordenar" é o verbo que quer dizer "mandar"
O ponto decisivo da PEC está no peso que a palavra coordenar ganha quando entra na Constituição. Coordenar, no papel, é organizar, alinhar, somar esforços. Na prática de um ente que também detém o orçamento, a definição das diretrizes nacionais e a chave dos repasses, coordenar é dar a ordem e esperar que ela seja cumprida.
É esse o cerne da crítica. Quando a União passa a definir as diretrizes do sistema e a condicionar recursos ao cumprimento delas, o estado que não segue perde dinheiro. A autonomia que sobra no texto é a autonomia de executar o que foi decidido em Brasília. O governador continua dono da farda, mas não da estratégia. Um crítico resumiu o mecanismo em uma imagem simples:
Retirar o poder normativo dos estados é dissolver a própria ideia de equilíbrio entre o centro e a periferia.
— Coluna Lexum, Gazeta do Povo, sobre a PEC da SegurançaHá ainda a blindagem orçamentária. Ao fixar na Constituição fundos vinculados e regras rígidas de aplicação, a PEC tira do administrador a liberdade de responder a circunstâncias que mudam. Um fundo carimbado parece proteção, mas também é camisa de força: engessa o orçamento e desloca o poder de decisão para quem define a regra nacional — de novo, a União.
Parte IIO projeto por trás: o comando único
A centralização da segurança pública vem de uma ideia antiga da esquerda latino-americana: concentrar no Estado nacional os instrumentos de poder que hoje estão dispersos. O monopólio da força é o mais cobiçado deles. Quem coordena a polícia de um país inteiro tem nas mãos algo que nenhum ministério econômico tem.
Por que a direção importa mais do que a intenção declarada? Porque instituições se constroem para durar além de quem as criou. Uma vez que a coordenação nacional das polícias está na Constituição, ela não volta atrás com a troca de governo. O instrumento fica pronto. Quem assumir o Planalto — hoje um projeto, amanhã outro — herda a alavanca já instalada. Centralizar é fácil de fazer e difícil de desfazer.
O desenho federativo de 1988 foi, em parte, uma resposta a isso. Depois de vinte anos de comando militar unificado, o constituinte distribuiu o poder de polícia entre os estados de propósito. Não por eficiência administrativa, mas por desconfiança: um país grande e desigual fica mais seguro contra o abuso quando a força não tem um único dono. A PEC caminha na direção oposta.
Parte III · O custoPor que isso fere o pacto federativo
O pacto federativo não é detalhe. É cláusula pétrea — a Constituição o protege de emenda no Art. 60, que proíbe propostas tendentes a abolir a forma federativa de Estado. A federação pressupõe entes com competências próprias, que não podem ser esvaziadas por ato do centro. Transferir para a União o poder de definir a política de segurança dos estados é, segundo os críticos, mexer exatamente nesse núcleo protegido.
O argumento tem três camadas.
Independência dos estados. O federalismo existe para que unidades diferentes de um país heterogêneo decidam seus próprios rumos. A segurança de São Paulo não tem os mesmos problemas da do Amazonas ou da do Rio Grande do Sul. Uma diretriz nacional única trata como igual o que é desigual.
Laboratório de soluções. A descentralização permite que cada estado teste caminhos e que os acertos sejam copiados. É o chamado federalismo como laboratório: estados competem, inovam e aprendem uns com os outros. Quando a norma vem de cima, o erro de Brasília vira o erro de todos ao mesmo tempo, sem alternativa para comparar.
Responsabilidade clara. Hoje o eleitor sabe a quem cobrar: a polícia é do governador. Com o comando difuso entre União e estados, a culpa pelo fracasso se dilui. Ninguém responde porque todos respondem um pouco.
Parte IIIQuem mais faz isso no mundo
Os defensores da PEC gostam de lembrar que a França tem polícia nacional. É verdade — mas a França é um Estado unitário, não uma federação, e a comparação engana. O comando nacional das polícias é natural em países sem estados autônomos. Levado ao extremo, ele aparece nos regimes em que quem controla o país controla diretamente a polícia, sem o filtro de um governador eleito. São estes os regimes que concentram a força sob o comando nacional:
Miguel Díaz-Canel
Cuba
Nicolás Maduro
Venezuela
Daniel Ortega
Nicarágua
Xi Jinping
China
Vladimir Putin
Rússia
Bandeiras em domínio público. Retratos via Wikimedia Commons — Díaz-Canel: Palácio do Planalto (CC BY 2.0); Maduro: Ricardo Stuckert (CC BY 2.0); Ortega: Duma Estatal da Rússia (CC BY 4.0); Xi Jinping e Putin: Presidência da Rússia / Kremlin (CC BY 4.0).
Não se trata de dizer que o Brasil vai virar Cuba. Trata-se de notar em que companhia fica o modelo de comando único: ele é a regra onde não há federação de verdade. Onde a há, o caminho é o inverso.
Quem faz como o Brasil faz hoje, antes da PEC
As grandes federações — países divididos em estados ou províncias, como o Brasil — mantêm a polícia nas mãos dessas unidades, não do governo central. É exatamente o modelo brasileiro atual:
Estados Unidos
Alemanha
Canadá
Suíça
Austrália
Argentina
México
Índia
Nos Estados Unidos há mais de 17 mil forças estaduais e locais; a federal é limitada. E a Alemanha é o caso mais eloquente: ela pôde criar uma polícia nacional e escolheu não criar. Depois do uso que o Estado nazista centralizado fez da polícia, a Lei Fundamental alemã entregou a força aos estados — a mesma lógica com que o constituinte brasileiro, saindo de um regime de comando unificado, distribuiu o poder de polícia em 1988. A PEC desfaz essa opção.
Parte IV · A práticaA União não dá conta
Há o argumento de princípio e há o argumento prático. Mesmo quem não se importasse com o pacto federativo teria de encarar uma pergunta simples: a União é boa no que já faz? Entregar a coordenação da segurança nacional supõe um governo federal competente para coordenar. A evidência não ajuda essa suposição.
As fronteiras, por onde entram armas e drogas, são atribuição federal — e seguem porosas. Os presídios federais, administrados pela União, não impediram que facções crescessem de dentro das cadeias. A inteligência nacional não evitou que o PCC se tornasse, segundo estudos recentes, a maior facção das Américas, com estrutura empresarial e braço no mercado financeiro e no setor de combustíveis. O histórico da União no que administra sozinha não é bom.
Enquanto isso, parte dos resultados concretos veio dos estados. Governos estaduais que investiram em polícia, inteligência e integração próprias mostraram queda de indicadores sem precisar de um comando nacional. A proposta inverte a lógica: tira margem de quem vem entregando resultado e dá poder a quem falhou no que já administra.
O tamanho do adversário
Um levantamento de inteligência da Polícia Civil de São Paulo descreveu, em 2026, a estrutura do PCC: 14 setores e 89 lideranças, das quais 52 presas e 36 em liberdade. Investigações apontam ainda um núcleo político da facção, que financia campanhas e busca influência em prefeituras, e conexões entre crime organizado e emendas parlamentares direcionadas a regiões sob controle de facções. É contra um adversário desse porte que se discute quem deve comandar a resposta.
Parte V · O risco políticoPor que importa quem segura a chave

Aqui está o ponto que a discussão técnica costuma evitar. Uma instituição não se avalia só pelo que faz nas boas mãos, mas pelo que permite nas piores. Concentrar o comando das polícias é criar uma alavanca. A pergunta inevitável é: nas mãos de quem ela fica?
Quem defende a PEC pede que se confie no desenho abstrato — a União coordena, os estados executam, tudo institucional. Mas instituições são operadas por governos de carne e osso, com partido e passado definidos. E a proximidade entre setores do poder federal e o mundo do crime não é tranquilizadora. Investigações em curso ligam o financiamento de campanhas ao crime organizado; emendas públicas aparecem irrigando áreas dominadas por facções; e é conhecida a leniência de certas correntes com o discurso que trata o criminoso com mais zelo do que a vítima.
É por isso que o argumento não depende de provar má-fé de ninguém. Basta o princípio: não se entrega a chave do cofre sem olhar para quem vai guardá-la — e sem lembrar que ela passará de mão em mão. O federalismo funciona como um seguro contra o mau governante que ainda vai chegar. A PEC abre mão desse seguro em troca da eficiência do governo atual.
Parte VI · A reaçãoOs governadores reagem
A resistência não veio de um lado só: governadores de direita e de esquerda enxergaram a mesma ameaça à própria autonomia. O recado ao Planalto foi coletivo: a segurança pública deve continuar fora da tentativa de centralização.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, foi o mais direto. Disse que a PEC "fere de morte" a autonomia dos estados e, ao mesmo tempo, a chamou de "cosmética" — porque eleva ao status constitucional algo que já existia na lei do SUSP, só que agora com a União no comando. O de Goiás, Ronaldo Caiado, usou a imagem mais dura do debate:
É um presente às facções.
— Ronaldo Caiado, governador de Goiás, sobre a PEC da SegurançaPara Caiado, a proposta enquadra os governadores, impede que legislem sobre segurança e representa um grave desrespeito aos entes federados, com risco de fortalecer as facções em vez de combatê-las. Em vez da PEC, um grupo de governadores — Caiado, Romeu Zema, Jorginho Mello e Celina Leão — assinou um texto cobrando a aprovação urgente de um projeto alternativo, o PL 2.646/2025, apelidado de "Brasil Mais Seguro", que pede sinergia entre União, estados e municípios sem transferir o comando.
| O que diz | |
|---|---|
| Governo federal | A PEC "não tira a competência dos governadores"; apenas universaliza políticas e coordena o combate a facções que cruzam fronteiras. |
| Tarcísio (SP) | "Fere de morte" a autonomia dos estados; ao mesmo tempo é "cosmética" — constitucionaliza o que já era lei, mas sob comando da União. |
| Caiado (GO) | "Presente às facções"; enquadra os governadores e compromete o pacto federativo. Defende o PL alternativo "Brasil Mais Seguro". |
| STF (Fachin) | Preocupação com o dispositivo que deixa o Congresso sustar atos do CNJ e do CNMP — interferência sobre o Judiciário. |
ConclusãoA arma do Estado não deve ter um dono só
A segurança pública do Brasil é ruim, e é legítimo querer mudá-la. O erro da PEC não está no diagnóstico, está na direção da cura. Diante de um Estado que falha no que já administra — fronteiras, presídios, inteligência —, a resposta proposta é dar a esse mesmo Estado ainda mais poder, agora sobre as polícias dos estados. Centraliza-se o comando sem ter resolvido a competência.
O custo maior é político, não técnico. O federalismo distribui a força de propósito, para que nenhum ocupante do Planalto, de qualquer partido, reúna sozinho a coordenação nacional da polícia. Uma vez na Constituição, essa alavanca não some na próxima eleição: fica à espera da próxima mão. Pedir que se confie no desenho é pedir que se confie, antecipadamente, em todos os governos que virão.
A melhora da segurança passa por integração, por dados compartilhados, por cooperação entre entes — e nada disso exige entregar a chave a Brasília. Exige o contrário: estados fortes, responsáveis pelo que fazem, cobrados por quem os elegeu. A PEC troca essa responsabilidade difusa e verificável por uma promessa concentrada. É um mau negócio para o federalismo, para a Constituição e para a própria segurança que diz querer melhorar.
Nota sobre fontes
A PEC e a votação: o número (PEC 18/2025), o rito acelerado, a dispensa do intervalo de cinco dias úteis, o quórum de 49 votos em dois turnos e o vínculo com a criação de um Ministério da Segurança Pública foram noticiados pela Gazeta do Povo. O conteúdo do texto — constitucionalização do SUSP, ampliação da atuação federal, Polícia Viária Federal, guardas municipais e fundos — e a ressalva do governo de que "não tira a competência dos governadores" seguem a cobertura de Agência Brasil, Brasil de Fato e Agência Pública.
As críticas técnicas: os argumentos sobre poder normativo, blindagem orçamentária e federalismo como laboratório têm base na coluna Lexum (Gazeta do Povo). A preocupação de Edson Fachin com a sustação de atos do CNJ e do CNMP consta da mesma cobertura legislativa.
O panorama internacional: a distinção entre o modelo centralizado (Estados unitários e regimes autoritários) e a polícia descentralizada das federações, incluindo o caso alemão, tem base em Council on Foreign Relations, na Enciclopédia Britannica e nos verbetes de law enforcement por país da Wikipédia.
Os governadores: as falas de Tarcísio de Freitas ("fere de morte" / "cosmética") e de Ronaldo Caiado ("presente às facções"), além do pacto de governadores em torno do PL 2.646/2025, foram registradas pelo Portal da Câmara, pelo DGABC e por O Hoje.
O crime organizado: a estrutura do PCC (14 setores, 89 lideranças), o núcleo político e as conexões com financiamento de campanhas e emendas constam de reportagens da Gazeta do Povo e da Carta Capital, com base em levantamento de inteligência da Polícia Civil de São Paulo.
Natureza do texto: este é um artigo de opinião em formato de dossiê. A ligação entre a PEC e o projeto político da esquerda continental, bem como a leitura sobre a proximidade entre poder e crime, são tese e interpretação do autor, distintas do que é texto da proposta ou fato noticiado. O Foro de São Paulo não é citado na PEC.