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Homero  ·  uma travessia contada por Laudelino

A Odisseia

A mais longa volta para casa já contada — dez anos de mar, monstros e astúcia para reencontrar uma casa que já não é bem a mesma.

← Antes de tudo: a Ilíada, a cólera de Aquiles A Odisseia é o segundo painel da série — o que se passa depois que a guerra da Ilíada acaba e Troia cai.
≈ 45 min de leitura  ·  relato completo  com tudo o que você precisa saber

Se a Ilíada é a história de uma guerra, a Odisseia é a história de uma volta para casa. Parece pouco, mas não é: a volta de Ulisses dura dez anos — o mesmo tempo que durou a guerra — para atravessar um mar que se cruza em algumas semanas. Eu gosto de avisar quem vai ler pela primeira vez: não espere apenas aventura. A Odisseia é sobre o que acontece quando um homem se ausenta por tempo demais e descobre, ao voltar, que o mundo mudou — e nem sempre para melhor.

As duas obras vêm atribuídas a Homero, poeta que a tradição imagina cego e que talvez nem tenha sido uma pessoa só, mas o nome que herdou séculos de aedos cantando esses versos de cor, muito antes de alguém os fixar na escrita. Pouco importa: o que chegou até nós é uma das maiores histórias já contadas — e uma das chaves para entender de onde viemos, nós, herdeiros do Ocidente.

Busto de Homero em mármore
Homero — o poeta a quem se atribuem os dois pilares da literatura grega.

O herói se chama Ulisses — em grego, Odisseu, o dono do nome do poema. É rei da pequena e rochosa Ítaca, filho de Laertes, marido de Penélope, pai de Telêmaco. Não pense nele como um fracote: ele luta, corre, é forte. Só que não é por isso que ficou famoso. Ulisses é o homem da astúcia — o que resolve pelo engenho o que os outros não resolvem pela força, o eterno curioso, o estrategista, o que sempre quer ver o que há do outro lado. Guarde essa palavra, astúcia, porque é dela que nasce tanto a glória quanto a desgraça deste homem. E, se me permite uma provocação que só faz sentido no fim: ele é o mais esperto dos homens — mas ainda não é o mais sábio. A viagem inteira existe para fazer dele um sábio.

o pano de fundoA guerra de Troia e o cavalo de madeira

Aquiles e Ájax jogando dados, vaso de Exéquias
Aquiles e Ájax em pausa da guerra (ânfora de Exéquias, séc. VI a.C.).

Tudo começa muito antes. O príncipe troiano Páris leva consigo Helena, a mulher mais bela do mundo e esposa de Menelau, rei de Esparta — se a seduziu ou a raptou, depende da versão. Aqui vale um detalhe que costuma passar batido: quando Helena ainda era solteira, todos os seus muitos pretendentes haviam feito um juramento — o de acorrer em auxílio de quem viesse a ser seu marido, caso alguém um dia a tomasse. Foi esse juramento que pôs a Grécia inteira em armas. Sob o comando de Agamêmnon, rei de Micenas e irmão de Menelau, reis e heróis de toda parte cercam Troia.

É a matéria da Ilíada — mas atenção: a Ilíada não conta a guerra inteira. Ela abre com a cólera de Aquiles, o maior dos guerreiros, humilhado por Agamêmnon, e se encerra com o funeral de Heitor, o herói troiano que ele mata para vingar o amigo Pátroclo. Quem procurar ali o famoso cavalo não vai encontrar: Troia, no fim da Ilíada, ainda está de pé. O elenco daquele mundo vale a pena ter na cabeça: o soberbo Agamêmnon; o belo Menelau; o gigantesco Ájax; o prudente Nestor, a voz do bom conselho; e Aquiles, quase invencível, filho da deusa marinha Tétis.

A entrada do cavalo de Troia
O Cavalo de Troia entra na cidade (G. D. Tiepolo) — o ardil de Ulisses.

Quem derruba Troia, no fim, é a cabeça de Ulisses. Depois de dez anos em que a força não bastou, é a astúcia dele que vence: o cavalo de madeira. Os gregos fingem desistir, queimam o acampamento e somem no horizonte, deixando na praia um imenso cavalo de pau — oferenda aos deuses, dizem. Vaidosos com a “vitória”, os troianos arrastam o presente para dentro das muralhas. À noite, do ventre oco saem os guerreiros escondidos, abrem os portões, e a cidade arde. Repare: a primeira grande artimanha da história de Ulisses é a que ganha uma guerra de dez anos. Vencida Troia, os reis embarcam de volta. Todos chegam, cedo ou tarde. Todos menos ele.

a sombra sobre o poemaOs que voltaram — e os que não voltaram

Máscara de ouro dita de Agamêmnon
A “Máscara de Agamêmnon” (ouro micênico) — o rei cujo retorno é o avesso do de Ulisses.

Antes de seguir Ulisses, preciso contar a história que assombra toda a Odisseia por trás, como um espelho negro. Agamêmnon, o comandante supremo, também voltou da guerra para casa. E o que o esperava? A própria esposa, Clitemnestra, e o amante dela, Egisto, que o assassinam à traição na noite do regresso. Anos depois, Orestes, filho de Agamêmnon, volta para vingar o pai matando os assassinos.

Essa história não está ali por acaso. Ela é o contramodelo de tudo o que vamos ver. De um lado, a esposa que trai e o lar que se torna uma emboscada; do outro, a esposa que resiste e o lar que precisa ser reconquistado. De um lado, o rei que volta desprevenido e morre; do outro, o rei que volta disfarçado e sobrevive. E o exemplo de Orestes — o filho que não assiste de braços cruzados à destruição da casa do pai — é justamente o que vai acender o sangue no jovem Telêmaco. Toda a Odisseia é atravessada por essa pergunta: o que é, afinal, voltar para casa?

o presente da narrativaA casa sitiada

Homero é esperto: não começa pelo começo. Quando o poema abre, a guerra acabou há dez anos e Ulisses está desaparecido há vinte — dez de guerra, dez de volta. E a câmera, por assim dizer, não se abre sobre ele, e sim sobre a casa sem dono. O palácio de Ítaca foi tomado por mais de cem pretendentes — nobres da ilha e das redondezas que, convencidos de que o rei morreu, se instalaram ali para devorar seus bens, beber seu vinho, sacrificar seu gado e cortejar sua mulher, tratando o filho como um menino incapaz.

Penélope ao tear
Penélope ao tear (Angelica Kauffmann) — a artimanha da mortalha que enganou os pretendentes por três anos.

E aqui conhecemos Penélope, que é digna de Ulisses — astuta como ele. Para adiar a decisão, prometeu escolher um novo marido assim que terminasse de tecer a mortalha do velho Laertes, sogro dela. De dia tecia, à vista de todos; de noite, desfazia às escondidas o que fizera. Por três anos a peça nunca ficou pronta — até que uma serva a traiu e os pretendentes a flagraram. É uma artimanha tão “Ulisses” que dá para entender por que esses dois foram feitos um para o outro.

Penélope e os pretendentes
Cercada pelos pretendentes que consomem a casa (Waterhouse).

Repare no drama: a esposa sitiada, o filho impotente, o velho pai esquecido no campo, os servos divididos entre a lealdade e a traição, e no centro uma dúvida que não se resolve — ele está vivo ou morto? Enquanto ninguém souber, nada se decide. É um reino inteiro preso à espera de um rei que talvez nunca volte. Não é preciso forçar a imagem para sentir o que ela tem de universal: há sempre uma casa esperando o seu dono, e sempre gente que age como se ele jamais fosse voltar.

o filhoA jornada de Telêmaco

Telêmaco guiado por Atena
Telêmaco, incitado por Atena (disfarçada de Mentes/Mentor), parte à procura do pai.

Os primeiros cantos são de Telêmaco, e são cruciais, porque ele precisa crescer: deixar de ser o filho do desaparecido e virar um homem capaz de defender a própria casa. Quem o empurra é Atena, disfarçada de um velho amigo da família. Sob seu impulso, o rapaz convoca uma assembleia, enfrenta em público os pretendentes — com uma eloquência nova, que o surpreende a ele mesmo — e, à noite, embarca em segredo atrás de notícias do pai.

Vai primeiro a Pilos, à casa de Nestor, o velho conselheiro, que lhe conta como foi caótico o retorno dos gregos — e como Agamêmnon foi morto em casa, e vingado por Orestes. O recado é claro para o jovem ouvinte. Depois segue a Esparta, onde encontra Menelau e Helena, já de volta e reconciliados. E Menelau lhe conta a mais curiosa de suas próprias aventuras.

Menelau domina Proteu, o velho do mar
Menelau agarra Proteu, o deus que muda de forma, para arrancar-lhe a verdade.

Preso no Egito na volta da guerra, Menelau precisou capturar Proteu, o velho do mar, um deus que muda de forma para escapar — vira água, fera, fogo. Emboscando-o disfarçado sob peles de foca, Menelau o segurou firme por todas as metamorfoses até que o deus, rendido, lhe revelasse o destino dos gregos: a morte de Agamêmnon, e a de Ájax, o Menor, que sobrevivera ao mar mas se vangloriou de ter escapado à revelia dos deuses — e foi por isso fulminado. Não é a última vez que veremos a vanglória ser castigada. Menelau conta, enfim, o que interessa: Ulisses está vivo, retido numa ilha pela ninfa Calipso, chorando de saudade de casa. É a notícia que faltava.

os dois deuses do jogoAtena a favor, Posêidon contra

No Olimpo, os deuses decidem o destino de Ulisses. Dois o disputam. Atena, a sabedoria, o ama exatamente pela inteligência e o protege em cada esquina. Posêidon, senhor do mar, o odeia de morte — por uma ofensa pessoal que o próprio herói ainda vai cometer. E como Ulisses vive no mar, ter o deus do mar como inimigo é a maldição perfeita. Num momento em que Posêidon se ausenta, Atena aproveita a brecha, intercede diante de Zeus, e o retorno enfim é autorizado: Hermes é enviado à ilha de Calipso com a ordem de soltar o prisioneiro.

Palas Atena
Atena — a inteligência que salva; guia de Ulisses e de Telêmaco.
Posêidon / Netuno
Posêidon — o mar que o quer perdido; persegue-o por nove anos.

a grande escolhaCalipso e a imortalidade recusada

Ulisses e Calipso
Calipso e o cativeiro de amor na ilha de Ogígia (Arnold Böcklin).

É aqui, na ilha de Ogígia, que Homero finalmente nos leva a Ulisses — e é uma das cenas mais importantes de toda a obra. A ninfa Calipso o mantém sete anos consigo, apaixonada, e lhe oferece o maior de todos os presentes: a imortalidade. Ficar deus, jovem para sempre, ao lado de uma deusa, numa ilha paradisíaca. E ele recusa. Prefere ser mortal, envelhecer e morrer, contanto que possa rever a fumaça subindo dos telhados da sua Ítaca pobre e o rosto já não jovem de Penélope.

Pense no tamanho dessa recusa. Qualquer um diria “fico”. Ele diz “quero a minha vida mortal, a que é minha”. É o primeiro grande sinal de um homem que amadureceu por dentro: recusar a eternidade fácil em nome do finito, do humano, do que lhe pertence. Obedecendo a Zeus, Calipso o ajuda, chorando, a construir uma jangada, e ele parte.

Hermes ordena a Calipso que liberte Ulisses
Hermes traz a Calipso a ordem de Zeus (G. de Lairesse).

Não por muito tempo: Posêidon o avista e desaba sobre ele uma tempestade brutal que despedaça a jangada. Ulisses quase morre — e é salvo por outra divindade marinha, Ino, que lhe entrega um véu protetor. Nadando, arrebentado contra as pedras, ele por fim alcança, exausto e nu, a terra dos feácios. É o naufrágio que o joga no presente da história.

a corte generosaOs feácios, Nausícaa e o canto que faz chorar

Ulisses e Nausícaa
Nausícaa encontra o náufrago na praia (Salvator Rosa).

Náufrago e nu, coberto de sal, Ulisses dorme escondido entre as folhas — uma imagem quase de recém-nascido. E Atena move a peça seguinte: a jovem princesa Nausícaa, filha do rei Alcínoo, vai lavar roupas no rio com as servas, e o barulho o desperta. A cena é delicadíssima: um homem adulto, nu e destroçado, surgindo diante de moças. Ele precisa pedir ajuda sendo, ao mesmo tempo, humilde e digno — suplicar sem se rebaixar, mostrar nobreza sem parecer ameaça. E consegue. Nausícaa encara-o de frente, percebe sua grandeza, dá-lhe roupa, comida e o caminho para o palácio.

Aqui vale nomear um valor que rege todo o poema: a hospitalidade — para os gregos, um dever quase sagrado, porque sob a capa de um estrangeiro pobre pode se esconder um deus. Quem acolhe bem o forasteiro honra os deuses; quem o maltrata os ofende. Guarde isso: é a régua moral que vai separar, no fim, os que se salvam dos que perecem.

Ulisses chora na corte de Alcínoo
Na corte de Alcínoo: o aedo canta Troia e Ulisses, incógnito, não contém o pranto (Francesco Hayez).

No palácio, Ulisses abraça os joelhos da rainha Arete — cujo nome, não por acaso, evoca a virtude — e é acolhido sem que saibam quem é. Num banquete, o aedo cego Demódoco canta os feitos da guerra de Troia: o cavalo de madeira, a queda da cidade. E o hóspede misterioso, ouvindo cantarem a sua própria história, chora escondido. O rei percebe as lágrimas e, enfim, pergunta quem é aquele homem. Ulisses se revela — e começa a contar, do princípio, tudo o que sofreu desde que deixou Troia. Tudo o que o mundo chama de “a Odisseia”, o Ciclope, Circe, as Sereias, está dentro desse longo relato em torno de uma fogueira. Vamos ouvi-lo.

Mapa da viagem de Ulisses pelo Mediterrâneo
O itinerário de Ulisses: de Troia a Ítaca, passando pelos Cícones, os Lotófagos, o Ciclope, Éolo, os Lestrigões, Circe, o mundo dos mortos, as Sereias, Cila & Caríbdis, o gado do Sol e a ilha de Calipso.

o relato de Ulisses · aventura IÍsmaro e os Cícones

I

Ulisses parte de Troia com doze navios. A primeira parada já mostra quem ele ainda é. Em Ísmaro, cidade dos Cícones, aliados dos troianos, o bando saqueia tudo, mata os homens, reparte o resto — a moral crua do guerreiro recém-saído de dez anos de matança. Ulisses manda reembarcar depressa, mas a tripulação, embriagada pela pilhagem, se demora bebendo na praia. Os Cícones voltam com reforços e cobram caro: seis homens de cada navio tombam. Setenta e dois itacenses mortos logo de saída — e por pura indisciplina dos próprios companheiros. É o primeiro aviso de um tema que vai perseguir Ulisses até o fim: ele quase nunca é derrotado pelos inimigos, mas pelas falhas dos seus e pelas suas próprias.

aventura IIOs Lotófagos

II

Uma tempestade os arrasta para longe, à terra dos Lotófagos, os comedores de lótus. Quem prova aquele fruto doce cai num torpor feliz e perde toda a vontade de voltar para casa — esquece a pátria, a esposa, o nome. Alguns provam e não querem mais partir. Ulisses precisa arrancá-los à força e amarrá-los sob os bancos dos navios. É a primeira lição da travessia, e das mais atuais: o maior perigo nem sempre tem garras. Às vezes é apenas um prazer que faz a gente esquecer quem é.

aventura IIIO Ciclope Polifemo e o nome “Ninguém”

Ulisses cega Polifemo
Polifemo, o gigante de um olho só, filho de Posêidon (esboço de W. Turner).
III

Chegam à terra dos Ciclopes, gigantes de um olho só que vivem sem leis nem cidades. Movido pela curiosidade — sempre ela —, Ulisses entra com doze homens e um odre de vinho forte na caverna de Polifemo, filho de Posêidon. Os companheiros querem só roubar comida e fugir; ele insiste em esperar o dono, meio por curiosidade, meio à espera da hospitalidade que lhe seria devida. Mas Polifemo não teme deus algum: volta com o rebanho, tranca a saída com uma pedra que nem vinte carros moveriam, e passa a devorar os homens dois a dois. Matá-lo enquanto dorme não adianta — quem removeria a pedra?

Então entra a astúcia. Ulisses oferece ao gigante o vinho forte, que ele bebe com gula. Embriagado, Polifemo pergunta seu nome. E vem a resposta imortal: “Meu nome é Ninguém.” Agradecido, o gigante promete, como “presente”, que Ninguém será o último a ser comido. Quando o monstro tomba num sono bêbado, Ulisses e os companheiros afiam no fogo uma estaca de oliveira e a cravam, em brasa, no seu único olho. Aos urros de Polifemo, os outros Ciclopes acorrem: “Quem te feriu?!” E ele ruge o que o condena: “Ninguém me feriu!” — e todos vão embora, achando que ele delira. Para escapar, Ulisses amarra os homens sob o ventre dos carneiros; o cego apalpa o dorso dos bichos e não percebe ninguém passando por baixo.

Estaria tudo certo — não fosse a soberba. Já a salvo no mar, em vez de fugir calado, Ulisses não resiste a humilhar o inimigo e grita seu nome verdadeiro: “Foi Ulisses, filho de Laertes, senhor de Ítaca, quem te cegou!” Foi o erro da vida dele. Agora o gigante tem o endereço completo e implora ao pai, Posêidon, que o inimigo volte tarde, sozinho, tendo perdido tudo — e encontre desgraça em casa. A maldição pega. É por causa dessa vaidade de aparecer, desse prazer de dizer “fui eu”, que a volta vira um calvário de mais nove anos.

aventura IVÉolo e o odre dos ventos

Os companheiros abrem o odre dos ventos
O odre de Éolo — a curiosidade da tripulação joga a salvação a perder.
IV

Na ilha de Éolo, o senhor dos ventos, Ulisses é bem recebido e ganha um presente régio: um odre de couro com todos os ventos contrários presos dentro, deixando soprar só o vento certo, rumo a Ítaca. Nove dias ele segura o leme sem dormir. Ao décimo, a ilha aparece no horizonte — dá para ver as fogueiras de casa! Vencido pelo sono, ele cochila. E a tripulação, imaginando que o odre esconde ouro que o chefe não quer dividir, abre o saco. Os ventos escapam de uma vez e arrastam tudo de volta, do horizonte da pátria ao ponto de partida. De volta à ilha, Ulisses implora ajuda de novo — mas Éolo o expulsa apavorado: um homem tão perseguido só pode ter os deuses contra si, e ninguém quer parecer aliado de um amaldiçoado. A salvação estava na palma da mão. A tripulação, sozinha, a abriu como quem abre um presente.

aventura VOs Lestrigões, gigantes canibais

V

A escala seguinte é uma catástrofe. Na terra dos Lestrigões, gigantes que comem gente, os navios de Ulisses ancoram todos dentro de uma baía fechada — todos menos o dele, que, mais cauteloso, ficou do lado de fora. Foi o que os salvou. Os gigantes despencam rochedos do alto sobre a frota presa, esmagam os cascos e fisgam os marinheiros como peixes, para o banquete. Dos doze navios, onze são destruídos com suas tripulações. De toda a armada, sobra um único barco. A viagem, que já ia mal, fica sombria de vez.

aventura VIA feiticeira Circe

Circe oferece a taça a Ulisses
Circe oferece a taça (Waterhouse) — o prazer que reduz o homem ao seu animal.
VI

O barco que resta aporta na ilha da feiticeira Circe. O grupo de reconhecimento é recebido com um banquete encantado — e transformado em porcos. A imagem é exata: o prazer, quando vira senhor, rebaixa a pessoa à sua parte animal. Só um escapa e corre a avisar. Ulisses parte sozinho para o resgate, e no caminho cruza com Hermes, que lhe dá a artimanha certa: a erva mágica moly, que o torna imune ao feitiço, e a instrução de sacar a espada quando o veneno falhar e obrigar Circe, sob juramento, a libertar os companheiros. Assim se dá. Vencida, ela devolve a forma humana aos homens — mais belos do que antes — e se torna aliada e amante do herói. Ficam um ano ali, comendo, bebendo, descansando, esquecendo a viagem. Até que os companheiros pressionam para partir. E é a própria Circe quem revela a condição terrível para voltar a Ítaca: antes, será preciso descer ao mundo dos mortos.

aventura VIIA descida ao mundo dos mortos

Tirésias aparece a Ulisses no Hades
Tirésias, o adivinho cego, surge no reino das sombras (Füssli).
VII

Ulisses navega até os confins do oceano, à boca do Hades, e com sangue e oferendas chama as almas dos mortos. É o coração simbólico do poema, e não à toa: nenhuma grande travessia da alma chega ao alto sem antes descer ao fundo. Primeiro aparece Elpenor, o companheiro que morrera do jeito mais banal — bêbado, caíra do telhado de Circe — e ficara insepulto; ele suplica um enterro, para não vagar como fantasma. Depois vem o vidente cego Tirésias, que enxerga mais que os vivos: traça a profecia e o alerta decisivo — só voltará se conseguir refrear a cobiça, a sua e a dos seus, diante do gado sagrado do Sol. Se tocarem naquelas reses, todos morrerão e ele voltará tarde, sozinho e arruinado.

E então as sombras que ensinam. Surge Anticleia, a mãe de Ulisses, morta de tristeza esperando o filho; três vezes ele tenta abraçá-la, três vezes seus braços se fecham sobre fumaça. O homem que engana gigantes não consegue abraçar a própria mãe. Passa Agamêmnon, que conta a própria morte às mãos da esposa. E passam os grandes heróis, já sem a glória de outrora. Aquiles, o maior dos guerreiros, agora uma sombra, diz uma das frases mais desconcertantes de toda a literatura: preferiria ser um pobre servo de um camponês sem terra, vivo, a reinar sobre todos os mortos. É a lição de humildade que falta a quem só admira a força. E Ájax, o gigante que se matou de vergonha quando a armadura de Aquiles foi dada a Ulisses — a inteligência premiada acima do músculo —, recusa-se até a dirigir-lhe a palavra, virando as costas em silêncio. Dessa descida ao escuro Ulisses sai outro homem.

“Antes um pobre servo entre os vivos do que rei entre todos os mortos.” — a sombra de Aquiles, no Hades

aventura VIIIO canto das Sereias

Ulisses e as Sereias
As Sereias — amarrado ao mastro, ele ouve o canto e sobrevive (Waterhouse).
VIII

Enterrado Elpenor, Circe adverte Ulisses dos perigos à frente. O primeiro são as Sereias — que, note-se, para os gregos eram pássaros de rosto de mulher, não peixes; a sereia de cauda é invenção bem posterior. Seu canto é tão sobrenaturalmente belo, e promete tanto conhecimento, que os marinheiros se perdem e o navio se espatifa nas rochas onde elas cantam entre ossos. E aqui está uma das artimanhas mais reveladoras de todas. Ulisses quer ouvir o canto proibido — mas não quer morrer por ele. Então tapa com cera os ouvidos dos remadores, que ficam surdos ao perigo, e manda que o amarrem, ele próprio, com força ao mastro, ordenando que, por mais que implore, ninguém o solte. Ouve o canto arrebatador, delira, ruge para ser libertado — e os homens, fiéis e surdos, só apertam mais as cordas. É o único mortal que ouviu as Sereias e viveu: quis conhecer a tentação sem se entregar a ela.

aventura IXEntre Cila e Caríbdis

Cila devora os marinheiros
Cila, o monstro do estreito, arrebata seus homens (Pellegrino Tibaldi).
IX

Vem então o estreito de dois monstros. De um lado, Caríbdis, um redemoinho que engole o mar inteiro e afunda navios de uma vez. Do outro, Cila, criatura de muitas cabeças que arranca seis homens por vez do convés. Circe já avisara: não há passagem incólume — mas é melhor perder seis para Cila do que o navio inteiro para Caríbdis. É, no fundo, a mais dura das lições políticas: entre dois males, escolher com sangue-frio o menor, e calar aos outros o preço, para que não parem de remar de pavor. Ulisses passa colado à rocha, e a fera arranca seis companheiros que gritam seu nome no ar enquanto são devorados. Ele dirá que foi a coisa mais lancinante que viu em toda a viagem.

aventura XO gado sagrado do Sol

X

E chega a provação anunciada por Tirésias. Aportam na ilha onde pastam os bois resplandecentes do deus-sol Hélios. Ulisses proíbe terminantemente que toquem neles. Mas ventos contrários os prendem na ilha, a comida acaba, a fome aperta. Enquanto o chefe se afasta para rezar e adormece, os famintos se convencem — “melhor morrer de uma vez do que de fome; depois erguemos um templo ao Sol para aplacá-lo” — e abatem o gado sagrado. Não há templo que pague. Mal retomam o mar, Zeus fulmina o navio com um raio. Morrem todos. Só Ulisses sobrevive, agarrado a uma tábua, exatamente como fora profetizado: sozinho. É esse náufrago solitário que as ondas levam a Calipso — e assim o relato dá a volta e alcança o ponto em que ele começou, na corte dos feácios. Fecha-se o círculo.

o regressoÍtaca, o mendigo e o cão que reconhece

Comovidos com a história, os feácios cumprem a promessa: enchem Ulisses de presentes e o levam, num navio veloz, de volta a Ítaca, onde o deixam adormecido na praia — depois de vinte anos. (Posêidon, furioso por perder a partida, ainda petrifica o navio deles na volta; mas já é tarde.) Ulisses acorda sem reconhecer a própria terra, e Atena surge para tramar com ele. A lembrança de Agamêmnon paira sobre tudo: não se entra em casa como rei antes de saber quem é fiel e quem é traidor. Então a deusa o disfarça de mendigo — e ninguém o reconhecerá.

O primeiro destino é a cabana de Eumeu, o porqueiro, um escravo que continuou leal ao patrão ausente. Ele acolhe o velho maltrapilho com uma cortesia comovente, oferece comida e abrigo ao estrangeiro pobre sem imaginar que serve ao próprio rei. É a hospitalidade em estado puro — e o coração moral da história: quem trata bem o forasteiro sem nada esperar é quem está do lado certo. Ali chega Telêmaco, de volta e escapando por pouco de uma emboscada dos pretendentes. Diante do filho, e só dele, Atena devolve a Ulisses sua verdadeira aparência. O rapaz custa a crer que aquele mendigo transfigurado seja o pai; acha que é um deus a enganá-lo. Então pai e filho se abraçam e choram — reencontro de um homem e de um filho que só o conhecia de fama. E, secos os olhos, tramam o golpe: Ulisses entrará ainda disfarçado e suportará toda humilhação; Telêmaco, com um pretexto, retirará todas as armas das paredes do salão; e ninguém saberá que o rei voltou.

Ulisses reconhecido por seu velho cão Argos
Argos, o cão de Ulisses, reconhece o dono depois de vinte anos — e então morre.

É na chegada ao palácio que se dá uma das cenas mais pungentes já escritas. Largado no esterco, coberto de carrapatos, velhíssimo, jaz Argos — o cão que Ulisses criou de filhote, vinte anos atrás, antes de partir para a guerra. Sem forças para se levantar, o animal ergue as orelhas, reconhece o dono sob o disfarce que enganou a todos, abana de leve a cauda. Ulisses, que não pode se trair, apenas enxuga escondido uma lágrima. E Argos, tendo enfim revisto o dono depois de vinte anos, deita a cabeça e morre. Nem o homem mais astuto do mundo enganou a fidelidade de um cão.

Dentro, o mendigo é escarnecido e agredido pelos pretendentes — sobretudo pelo mais insolente deles, Antínoo, que chega a lhe atirar um banco. E Ulisses aceita tudo em silêncio, ele, que outrora teria reagido num átimo. Enfrentou monstros, tempestades e feiticeiras; faltava-lhe enfrentar de novo o próprio orgulho, dominar a cólera dentro da própria casa. Quem o defende, com pena, é a própria Penélope, sem saber que socorre o marido. Ela oferece que lhe lavem os pés, e ele aceita com uma condição: que seja uma mulher idosa — porque quer que quem o toque seja Euricleia, a velha ama que o amamentou.

Euricleia
Euricleia, a velha ama, reconhece Ulisses pela cicatriz (Angelica Kauffmann).

E a astúcia quase desaba. Ao lavar-lhe as pernas, a ama reconhece na coxa a cicatriz antiga, marca de um javali na juventude do herói. Entende tudo num átimo, larga a perna na bacia — a água transborda — e se vira para chamar Penélope. Mas Ulisses agarra-lhe a garganta com uma das mãos, puxa-a para perto e sussurra, entre a ternura e a ameaça: “Ama, queres me perder? Tu me criaste em teus peitos, e agora, depois de vinte anos, voltei. Cala-te.” Atena, de propósito, desvia a atenção de Penélope. O segredo se salva por um fio.

o acerto de contasA prova do arco e a vingança

Ulisses arqueiro em vaso de figuras vermelhas
Ulisses arqueiro — retesando o grande arco, em cerâmica ática (Pintor de Penélope).

Encurralada, Penélope anuncia a prova, inspirada por Atena: casará com quem for capaz de vergar o grande arco de Ulisses e cravar uma flecha através de doze machados enfileirados. Um a um, os pretendentes tentam — homens amolecidos pela bebida e pela indolência — e nenhum sequer consegue curvar o arco para encordoá-lo. Telêmaco quase o dobra. Então o mendigo pede sua vez. Os pretendentes se indignam com a audácia do maltrapilho, mas Penélope consente. Antes, discretamente, Ulisses já se revelara a dois servos fiéis, o porqueiro Eumeu e o boiadeiro Filécio, que trancam as portas. E ele toma o arco: sem esforço, como quem afina uma lira, verga-o, encorda e dispara — a flecha cruza limpa os doze machados.

Ulisses atira a flecha através dos doze machados enfileirados
A cena célebre — o disparo da flecha através dos doze machados alinhados, com Atena a observar (gravura, série Les Travaux d'Ulysse).
A vingança de Ulisses
A vingança — revelado, Ulisses extermina os pretendentes com o arco.

E então ele se levanta e anuncia: “Agora procuro outro alvo.” Arranca os farrapos, salta para a soleira da porta e a primeira flecha derruba Antínoo, o pior de todos, no exato instante em que ele erguia a taça. Começa o massacre. Os pretendentes se atrapalham, tentam se justificar — “a culpa foi toda de Antínoo, devolveremos tudo” —, mas não há acordo possível depois de anos de abuso, da tentativa de tomar sua mulher e matar seu filho. Correm às paredes atrás das armas, que não estão mais lá. Ao lado de Ulisses lutam Telêmaco, Eumeu e Filécio; e Atena, no fim, ajuda. Um a um, os invasores caem. E são punidos também os servos que traíram e desonraram a casa. O salão é, enfim, purificado.

o reconhecimentoO leito — e o que vem depois do sangue

O reencontro de Ulisses e Penélope
O reencontro — Penélope enfim reconhece o marido depois de vinte anos (Pinturicchio).

Falta o mais difícil: convencer Penélope. Vinte anos de espera e de boatos a tornaram desconfiada — e ela também é filha da astúcia. Então arma sua última cilada, e desta vez a vítima é o próprio Ulisses. Diante dele, ordena calmamente que tirem do quarto o leito do casal e o preparem noutro aposento. Ulisses explode: aquele leito é intransferível, e ele explica por quê — foi ele mesmo quem o construiu, talhando-o de uma oliveira viva, ainda enraizada no chão, de modo que um dos pés da cama é o próprio tronco da árvore fincado na terra. Ninguém poderia tê-lo movido. É o segredo mais íntimo dos dois, que só eles no mundo conhecem. Ao ouvi-lo, Penélope sabe: é ele. E corre para os braços do marido. Para coroar a noite, Atena retém a Aurora além do horizonte, alongando a escuridão, para que aquele reencontro, esperado por vinte anos, seja inteiro. O sinal derradeiro da identidade de Ulisses não é o trono nem o arco: é o leito conjugal — o vínculo escondido que nem a guerra, nem o mar, nem os deuses conseguiram arrancar.

Mas — e este é o ponto que quase todo mundo esquece — a Odisseia não termina no massacre. Matar os pretendentes resolveu a usurpação; não resolveu suas consequências. As famílias dos mortos se levantam em armas contra Ulisses, sedentas de vingança. É o velho ciclo: sangue que pede sangue, sem fim à vista. O epílogo ainda passa pela emocionante cena em que Ulisses se revela ao pai, Laertes, envelhecido no campo, que recupera as forças ao saber que o filho voltou. E o que enfim quebra o ciclo da vingança não é mais nenhuma astúcia humana: é a intervenção divina. Atena, com a autoridade de Zeus, impõe a paz entre as partes, e a ordem de Ítaca é restaurada. A casa se refaz — não pela matança, mas pela reconciliação que vem de fora, de cima.

As artimanhas de Ulisses

O poema inteiro é um catálogo de astúcias. As principais, em ordem:

  1. O cavalo de Troia — o ardil de madeira que faz cair, por dentro, a cidade que dez anos de guerra não venceram.
  2. O náufrago mentiroso — diante de Polifemo, esconde onde está o navio para não entregar os companheiros.
  3. O vinho para o gigante — embriaga o Ciclope para vencê-lo no sono.
  4. O nome “Ninguém” — cegado o gigante, faz com que ele mesmo grite aos vizinhos que “Ninguém” o feriu.
  5. A fuga sob as ovelhas — escapa da caverna preso ao ventre dos carneiros, sob as mãos do cego.
  6. A erva de Hermes — imuniza-se contra o veneno de Circe e a obriga, sob juramento, a libertar os homens.
  7. A cera e o mastro — surdece os remadores e manda amarrar-se para ouvir as Sereias e viver.
  8. A escolha de Cila — sacrifica seis homens ao monstro para não perder o navio inteiro em Caríbdis.
  9. O disfarce de mendigo — volta a Ítaca irreconhecível e engole a humilhação para preparar a vingança.
  10. As identidades falsas — inventa ser um cretense fugido, testando Eumeu, Penélope e os pretendentes.
  11. As armas escondidas — com Telêmaco, esvazia as paredes do salão antes do acerto de contas.
  12. A prova do arco — transforma a própria competição de Penélope na armadilha que desarma e destrói os pretendentes.

E as artimanhas de Penélope, à altura do marido: a mortalha tecida de dia e desfeita de noite, e o teste do leito — a única cilada que apanha o próprio Ulisses.

para fecharPor que essa história não envelhece

Contada a aventura, fica a pergunta: por que ela ainda nos toca, três mil anos depois? Eu gosto de pensar que a Odisseia é, no fundo, uma longa lição sobre uma única coisa — a diferença entre ser esperto e ser sábio. Ulisses começa a viagem como o mais astuto dos homens: um trapaceiro genial que sobrevive à custa da ingenuidade alheia. Mas a astúcia, sozinha, não o leva para casa. O que quase o destrói, aliás, não são os inimigos — é a soberba, aquele impulso de gritar o próprio nome ao mar, de aparecer, de se achar acima dos deuses. O mesmo pecado que fulmina Ájax, o Menor, e que Homero castiga em toda esquina do poema.

A viagem inteira é o preço que Ulisses paga para perder essa soberba. Por isso ele precisa recusar o esquecimento fácil dos Lotófagos e a imortalidade fácil de Calipso; por isso precisa descer aos mortos antes de voltar aos vivos; por isso precisa, de volta a Ítaca, engolir a humilhação em silêncio e domar a própria cólera antes de reconquistar o que é seu. Ele perde os navios, os companheiros, a riqueza, a juventude — quase perde o próprio nome — e é justamente ao perder tudo que finalmente amadurece. Não é por acaso que todos os companheiros morrem e só ele volta: porque só ele atravessou a provação inteira.

Há um último fio que me parece o mais bonito. A Odisseia é a história de um regresso — o retorno de um rei a uma casa que se tornou hostil, onde muitos vivem como se ele jamais fosse voltar; a história de um estrangeiro pobre que bate à porta e cujo verdadeiro rosto só é reconhecido por quem o acolhe com o coração; e a história de um ciclo de vingança que nenhuma esperteza humana consegue encerrar, e que só se rompe por uma intervenção que vem de cima. Quem tem ouvidos para essas coisas percebe que a viagem de Ulisses fala de muito mais do que de um marinheiro grego. Fala da nossa própria travessia — a de todo homem que precisa perder a vaidade, atravessar o seu inferno particular e reencontrar, no fim, o caminho de casa. É por isso que ela não envelhece. E é por isso que, se você ainda não leu, vale cada página.

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