Existe um sócio em todo negócio brasileiro que nunca acordou cedo, nunca arriscou um centavo, nunca atendeu um cliente — e ainda assim fica com a maior fatia do bolo. Esse sócio é o Estado. E o caso do Assaí mostra o tamanho dele.
No fim de junho de 2026, um vídeo do economista e cientista político Diego Muguet (@diegomuguetrj) viralizou com gráficos simples e uma constatação incômoda: o vilão da carestia não é o dono do supermercado — é quem cobra por trás dele. O exemplo veio do balanço recém-divulgado do Assaí, a maior rede de atacarejo do país.
“O verdadeiro sócio majoritário do Brasil é um parasita que não trabalha. Você acha que o dono do supermercado está ficando bilionário às suas custas? Acorde. O Assaí lucrou R$ 86 milhões, mas o governo levou R$ 4,7 bilhões em impostos. O governo lucrou 56 vezes mais que a empresa…”
A reação automática de quem defende a alta carga é dizer que “imposto sobre venda não é lucro, é o consumidor que paga”. É verdade — e é exatamente o ponto. Toda essa montanha de tributo está embutida no preço. Quem o gera é a operação da empresa: ela produz, distribui, vende e, em cada etapa, é obrigada a recolher para o Estado uma quantia que faz o seu próprio lucro parecer troco. A empresa faz o trabalho; o Estado fatura em cima.
01A empresa faz tudo. O Estado leva tudo.
Veja o que cada um leva da mesma operação. De um lado, o resultado da empresa que ergueu centenas de lojas, emprega mais de 80 mil pessoas e opera com margem de atacado — fininha, de 1% a 2%. Do outro, a arrecadação que essa operação despejou nos cofres públicos.
E não se trata de um trimestre ruim. Mesmo num bom resultado, o atacarejo vive de volume, não de margem: gira bilhões em vendas para que sobre pouco no fim. Esse “pouco” é o que sustenta investimento, novas lojas e novos empregos. A fatia do Estado, essa, é cobrada antes — chova ou faça sol, dê lucro ou prejuízo.
0265% do lucro: a mordida sobre quem dá certo
Quando a empresa finalmente apura o que ganhou, vem a segunda mordida. Segundo o estudo Doing Business, do Banco Mundial, uma empresa-padrão no Brasil entrega 65,1% do seu lucro em tributos e contribuições — uma das cargas mais altas do planeta. De cada R$ 100 que sobram do esforço, dois terços vão para o sócio que não trabalhou.
031.501 horas: a empresa virou repartição pública
O parasita não cobra apenas dinheiro — cobra tempo. O mesmo Banco Mundial calculou que uma empresa brasileira gasta até 1.501 horas por ano apenas para apurar, declarar e pagar tributos. É a maior do mundo, contra uma média de 206 horas nos 190 países pesquisados. São quase sete vezes a média global gastas em formulário, não em produzir.
Some as três mordidas: o Estado leva a maior fatia da operação (embutida no preço), morde 65% do que sobra de lucro e ainda consome 1.501 horas por ano de trabalho que não gera um único produto. Tudo isso sem assinar um cheque, sem assumir um risco, sem abrir uma loja.
04E não é só o Assaí: o país inteiro sob o jugo
O Assaí é só o retrato nítido de uma regra geral. A carga tributária bruta do Brasil — tudo o que União, estados e municípios arrancam — fechou a prévia de 2025 em 32,4% do PIB, o maior nível desde o início da série, em 2010. Quase um terço de tudo o que o país produz é capturado antes de chegar a quem produziu.
A tradução disso na vida de cada um é brutal. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), em 2025 o brasileiro trabalhou 149 dias — até 29 de maio — apenas para pagar o Estado. Em meio século, esse cativeiro quase dobrou.
E adivinhe onde dói mais. A maior fatia da carga recai sobre o consumo — o imposto invisível embutido no preço de tudo, do arroz ao chinelo. É o mesmo imposto que aparecia, escondido, nos R$ 4,7 bilhões do Assaí. Cobra igual do rico e do pobre, e por isso esmaga proporcionalmente mais quem ganha menos.
O parasita
Parasita é o organismo que vive à custa de outro, sem nada oferecer em troca. A palavra é dura, mas a definição encaixa. O Estado brasileiro se instalou como sócio majoritário de cada padaria, cada fábrica, cada supermercado — não porque construiu, arriscou ou inovou, mas porque legislou para ficar com a maior parte. Leva a fatia da operação, leva 65% do lucro, leva 1.501 horas do ano. E, quando o preço sobe, aponta o dedo para o comerciante.
O dono do supermercado não está ficando bilionário às suas custas. Ele fica com o tracinho verde. O bilhão é do sócio que não atende caixa, não carrega estoque e não corre risco nenhum — e que, ainda assim, é o primeiro a receber. Enquanto isso não mudar, todo debate sobre “ganância das empresas” é cortina de fumaça para o verdadeiro dono da conta.
Fontes
- Diego Muguet (@diegomuguetrj), vídeo publicado no X em 28/06/2026 — origem do caso analisado nesta reportagem.
- InfoMoney — “Assaí (ASAI3) lucra R$ 86 milhões no 1º trimestre de 2026, queda anual de 47%”; balanço 1T26 do Assaí Atacadista (relações com investidores), com receita líquida de ~R$ 18,6 bilhões.
- Banco Mundial — Doing Business: carga tributária total de 65,1% do lucro e 1.501 horas/ano para cumprir obrigações fiscais no Brasil (média mundial: 206 horas), a maior do mundo.
- Agência Brasil / Exame / IstoÉ Dinheiro — “Prévia da carga tributária sobe para 32,4% do PIB em 2025, maior valor da série histórica”.
- IBPT — “Brasileiro trabalhará até 29 de maio só para pagar impostos” (149 dias; composição consumo/renda/patrimônio; série histórica desde 1970).
- OCDE / Senado Federal — comparativos internacionais de carga tributária e composição por base de incidência.
Nota: este é um artigo de opinião. Os valores de lucro e de impostos recolhidos têm naturezas contábeis distintas — o tributo sobre o consumo é embutido no preço e pago pelo consumidor final, com a empresa atuando como recolhedora. O argumento do texto é justamente que essa engrenagem, somada à mordida sobre o lucro e ao custo de conformidade, faz do Estado o maior beneficiário da atividade produtiva sem nela produzir.