Em 1º de setembro de 2026, o ministro André Mendonça tirou o sigilo do relatório forense que a Polícia Federal produziu a seu pedido (IPJ-A 3298613/2026). O documento não é sobre "uma mensagem": reconstrói, com metadados e cronologia, a relação entre Daniel Vorcaro e o contato salvo em seu celular como "Alexandre de Moraes BRASILIA" — de um contrato de R$ 3 milhões por mês ao evento de Londres e à nota sobre "Andrei e Paulo". Lemos o relatório inteiro. Aqui está o que ele diz — e o que a própria PF ressalva.
A PF entregou a Mendonça, em 27 de agosto, uma "Informação de Polícia Judiciária" de 218 páginas. Em 1º de setembro o ministro retirou o sigilo. No mesmo dia, os fatos se precipitaram.
Análise forense do iPhone 17 Pro de Daniel Vorcaro, apreendido na Operação Compliance Zero. A PF identificou pessoas mencionadas em notas do celular — inclusive quem tem foro no STF.
Um contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA", um contrato de R$ 3 mi/mês do Master com o escritório da mulher do ministro, e metadados de contrato assinados pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes".
Ainda em 1º/09, Moraes e Mendonça bateram boca nos bastidores do Supremo. Moraes acusou o colega de "direcionar" a investigação; segundo colunista, quase houve agressão.
A PGR, de Paulo Gonet — citado no próprio relatório —, pediu a nulidade de tudo, alegando que Mendonça extrapolou. A palavra final tende a caber ao plenário.
📄 Baixe o relatório completo da PF (PDF, 218 págs — fonte primária) ↗
Este ponto é o coração da disputa jurídica. O relatório abre transcrevendo a própria ordem do relator, nos autos da PET nº 15.556.
Mendonça deu 72 horas para os delegados da Compliance Zero atualizarem as investigações e — item 15 — identificarem quem participou e foi mencionado em mensagens já apreendidas, incluindo eventuais autoridades com foro:
"as informações ora requisitadas devem contemplar a identificação das pessoas que participaram e foram mencionadas nas mensagens reproduzidas nas fls. 3-5 da IPJ-M nº 144738439.2026, aí incluídas eventuais detentoras de foro por prerrogativa de função, inclusive aquelas eventualmente sujeitas à incidência do art. 5º, I, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal."
— Trecho da ordem transcrito no relatório da PF
O relatório não se apoia em "print" solto. Ele reconstrói, segundo a segundo, um padrão de comportamento no iPhone de Vorcaro — e é essa correlação técnica que sustenta o resto.
A PF cruzou dois registros do próprio sistema do aparelho: os "Logs" (que marcam o instante de envio de cada mensagem no WhatsApp) e o "Uso de Aplicativos" (que marca a abertura de apps e o momento exato de cada captura de tela). O padrão encontrado foi sempre o mesmo:
Como o PDF temporário nasce "no mesmo segundo ou um segundo depois" do screenshot — e o iOS o cria sozinho, sem intenção do usuário —, ele funciona como um carimbo de horário involuntário. E o destinatário imediato, nos casos analisados, era sempre o terminal +5561992664093, atribuído ao contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA" Figura 11. Ao todo, a PF mapeou 52 notas nesse padrão.
A correlação técnica é o ponto forte do relatório: mostra que aquelas notas saíram do aparelho de Vorcaro para um número que ele salvou com o nome do ministro. Ela não demonstra, por si só, quem estava do outro lado lendo, nem o que foi respondido — coisas que a própria PF não afirma.
O elo documental mais concreto do relatório é um contrato de prestação de serviços entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes — de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
"Fábio Faria" compartilha com Vorcaro os contatos "Alexandre de Moraes BRASILIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF" — todos com o mesmo número, +5561992664093 Figura 12.
"Vivi Moraes" envia a Vorcaro a minuta do contrato. Os metadados do arquivo apontam como autor "Guilherme Benazzi" e, como última modificação, o usuário "Ministro Alexandre de Moraes", às 16:30 Figura 26.
A versão final da minuta tem sua última modificação registrada, nos metadados, pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes", às 23:04 Figura 32. Valor: R$ 3 milhões mensais — cerca de R$ 131 milhões no total Figura 31.
O contrato é assinado por Daniel Vorcaro (15:15) e por Angelo Antonio Ribeiro da Silva (15:35) Figura 34.
O escritório da esposa fechou R$ 131 milhões com um banco que viria a ser alvo de investigação — e os metadados apontam o usuário "Ministro Alexandre de Moraes" como quem deu a última mão na minuta.
Segundo nota do escritório Barci de Moraes, o setor de compliance consultou o ministro — na condição de marido da advogada sócia — e concluiu que não havia impedimento: Moraes "nunca julgou causa envolvendo o Banco Master" e o contrato não previa atuação perante o STF. Os serviços, diz a nota, foram efetivamente prestados.
A partir de fevereiro de 2024, o relatório acompanha as cobranças e transferências ligadas ao contrato. Aqui aparece o codinome que a PF associa ao ministro: "o Careca" (e um emoji de "homem careca").
08/02/2024 — comprovante de transferência do Banco Master ao "Escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia", conta no Itaú, no valor de R$ 3.422.268,14.
15/03/2024 — Fábio Faria cobra pontualidade. Vorcaro ordena a um funcionário: "É op pgto mais importante que temos", "Pode pagar sempre, sem nota" Fig. 152.
01/10/2025 — Vorcaro orienta que os pagamentos ao escritório não sejam feitos por PIX.
12/05/2025 — contrato do escritório com a Viking Participações (Vorcaro é sócio): até R$ 50 milhões líquidos em 36 meses — R$ 40 mi em cotas de duas aeronaves (jato Legacy 650 e helicóptero Airbus EC 155 B1) e R$ 10 mi de reembolso de uso. A fatura de R$ 22,8 mi (jul/2025) é uma parcela desse contrato.
Out/2025 — o Master emitiu cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para cada um dos dois filhos do ministro (Alexandre e Giuliana Barci de Moraes). O pedido partiu de Guilherme Benazzi (escritório) e Vorcaro autorizou com um "OK". O escritório afirma que os cartões "jamais foram usados".
O relatório reúne, ao longo de 2024 e 2025, menções a encontros presenciais e a um evento no exterior. Dois pontos chamam a atenção pela presença de outras autoridades.
Dez/2023 — comitiva no Hotel Six Senses Botanique. Um funcionário de Vorcaro relata que "o Ministro pediu para tirar foto com todos os funcionários" e que "Zé Maria" (o chef de cozinha) "tirou foto com o ministro".
Um "Fórum Jurídico Londres–Brasil" com ministros do STF e menção a um encontro privado com o ex-premiê britânico Tony Blair. Vorcaro aparece organizando programa, veículos e despesas.
Segundo o relatório, foram tratados convites, "com todas as despesas bancadas" pelos organizadores, para: o filho do procurador-geral — "Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres" Fig. 219, referido como "Pedrinho filho do PG" Fig. 223 — e o diretor-geral da PF, Andrei Passos: "O Andrei PF precisa de um Convite formal para aceitar Londres" Fig. 228. A assistente do diretor-geral chegou a perguntar se "algum custo é coberto pelos organizadores"; a resposta registrada foi "Todas as despesas bancadas por nós" Fig. 227.
É o trecho que o noticiário resumiu como "pedido para travar investigações". O texto real, tal como consta do relatório, é este — e vale lê-lo por inteiro, com o contexto que o antecede na mesma nota.
"...informações informais e em confidencia de turma do banco central, que G e os diretores estao na pressao máxima de novo pra uma medida, pois o bacen esta sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farao algo contra mim."
"É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco. Estou disponivel pra tratar e explicar qq coisa, so nao pode ter sacanagem. Vou te mandar os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farao algo em breve."
— Nota atribuída a Daniel Vorcaro, enviada segundos depois ao contato "Alexandre de Moraes BRASILIA". Em seguida, ele enviou "os nomes".
Quem são "Andrei" e "Paulo"? Aqui a própria PF usa linguagem condicional, e o artigo respeita isso:
Os termos "Andrei" e "Paulo" escritos por Daniel Vorcaro em sua nota podem indicar que "Andrei" se refere a Andrei Passos, diretor-geral da Polícia Federal, e "Paulo" a Paulo Gonet, procurador-geral da República. — Relatório da PF (grifo nosso na cautela)
O relatório dedica duas seções às buscas pelos nomes "Paulo Gonet" e "Andrei Passos". Em ambas, a PF frisa que não havia contato salvo com esses nomes — as menções chegam por intermediários, sobretudo o advogado Ciro Soares.
15/03/2025 — Ciro Soares envia a Vorcaro uma foto "acompanhado de Paulo Gonet", seguida de quatro chamadas de voz. Antes, escrevera: "Gonet é firme".
Ciro relata: "eu pedi o Gonet ontem... pede o cara para tirar a candidatura... Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir." — sobre um interlocutor chamado "Jarbas".
Na seção sobre "Andrei", o relatório registra tratativas para "convidar o DPF Andrei" para o evento de Londres, com a informação de que "Ele aceitou" e a mensagem "Ministro fez convite ao andrei PF" Fig. 226. Como na parte das mensagens, a PF trata cada identificação como algo que "pode se tratar de" tal autoridade — sem afirmação categórica.
Um dossiê forense pesado — mas que se cerca de limites explícitos. Ignorar isso seria distorcer o documento.
"...as análises e evidências ora apresentadas restringem-se aos dados brutos e elementos informacionais localizados no acervo probatório da Operação Compliance Zero. Assim, não foram realizados quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público, tampouco diligências tipicamente policiais... limitando-se o presente trabalho à identificação e exposição objetiva dos elementos já existentes."
— Relatório da PF (IPJ-A 3298613/2026)
A PF diz, pelo prazo de 72 horas, que "a presente análise não pode ser considerada exaustiva" e transcreveu "apenas as menções nominais diretamente identificadas".
As ligações a Moraes, Gonet e Andrei vêm sempre como "pode indicar", "pode se tratar de", "atribuído a" — não como conclusão fechada.
O relatório identifica e expõe; não afirma crime. Se os fatos configuram ilícito é decisão de outra instância — o plenário do STF.
Tornado público o relatório, o dia terminou em conflito aberto — dentro e sobre o STF.
O relator retirou o sigilo e pediu a Edson Fachin, presidente do STF, uma sessão plenária presencial — o plenário seria o "órgão soberano para analisar, em termos técnicos e estritamente jurídicos" as provas da PF. Diante do pedido de nulidade, não arquivou: remeteu o caso a Fachin, que decidirá entre pautar ou acatar a nulidade.
Gonet pediu a anulação do relatório e o fim da apuração: "Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais." Para ele, o vício contamina a ordem e os frutos dela.
Nos bastidores, Moraes pediu conversa e acusou Mendonça de "direcionar" a investigação contra ele; Mendonça quis saber como o colega tivera acesso ao material sigiloso. Segundo a colunista Andreza Matais (Metrópoles), "por pouco, a discussão não evoluiu para agressões físicas". E há o dado incontornável: quem pede a nulidade, Gonet, é nominalmente citado no relatório que quer anular.
É a objeção que salta aos olhos. Ao pedir a anulação e o arquivamento de uma apuração em que ele mesmo é mencionado — nas mensagens sobre "Andrei e Paulo" e nos convites de Londres ao filho —, o procurador-geral, na prática, pleiteia em causa própria. Em tese, a situação atrai impedimento ou suspeição (CPP, arts. 252 e 258): quem tem interesse pessoal no resultado não deveria ser quem opina sobre ele. A saída natural seria a manifestação caber a um PGR substituto ou diretamente ao plenário do STF — e não a Gonet. Não há, até aqui, decisão sobre esse ponto; é uma crítica, não um veredito.
Do contrato à crise no STF — os fatos em ordem, com os desdobramentos mais recentes.
Assinado o contrato de R$ 131 milhões (R$ 3 mi/mês) entre o escritório Barci de Moraes e o Banco Master; os metadados apontam o usuário "Ministro Alexandre de Moraes" como quem editou a minuta.
Pagamentos "sem nota" e "não por PIX"; um 2º contrato de até R$ 50 mi (Viking, com cotas de avião e helicóptero); encontros presenciais e o evento de Londres — com convites, de despesas pagas, ao filho do PGR e ao diretor-geral da PF.
O Master emite cartões de crédito de R$ 300 mil de limite para cada um dos dois filhos de Moraes, autorizados por Vorcaro (o escritório diz que nunca foram usados).
A nota pedindo "reforçar com Andrei e Paulo" para ninguém "fazer uma sacanagem" com o Master, enviada ao contato salvo como Moraes.
Na véspera, 5 mensagens de visualização única ao mesmo contato. No dia seguinte, a Compliance Zero prende Vorcaro e o Bacen liquida o Banco Master.
A PF entrega a Mendonça o relatório IPJ-A 3298613/2026 — o exame do 1º dos 9 celulares apreendidos com Vorcaro.
Mendonça retira o sigilo; tem bate-boca com Moraes nos bastidores; a PGR (Gonet) pede a nulidade; e o escritório Barci divulga nota de defesa.
Mendonça não arquiva e remete o caso a Fachin. Na política, a oposição protocola pedidos de impeachment (entre eles o 54º, do senador Carlos Viana) e notícia-crime por tráfico de influência e obstrução, e pede o afastamento do diretor-geral da PF.
Cabe ao presidente do STF pautar o plenário (sessão pública) ou acatar a nulidade pedida pela PGR — é ali que a disputa se resolve.
Falou o escritório; Moraes e Vorcaro, pessoalmente, seguem sem se manifestar sobre as mensagens e os metadados.
Este foi o exame do 1º de 9 aparelhos (5 da 2ª fase, 3 da 3ª); a PF prevê concluir as análises "nos próximos 60 dias" — novos elementos ainda podem surgir.
Um exercício analítico: dados os fatos do relatório, que tipos penais uma eventual investigação poderia examinar — e para quem. Nada aqui é acusação.
Esta lista é uma classificação analítica do autor, não da Polícia Federal nem de qualquer tribunal. O relatório não denuncia ninguém e expressamente não aprofundou nada contra magistrados ou membros do MP (LOMAN). Ninguém foi denunciado ou condenado; vale integralmente a presunção de inocência. Crimes envolvendo ministro do STF e o PGR só podem ser apurados e julgados pelo plenário do STF. Os enquadramentos abaixo são possibilidades em tese, ancoradas em fatos do documento — não juízos de culpa.
Legenda do grau de vínculo no relatório:
Documental contrato, metadados, comprovantes. Indiciário menções indiretas / a linguagem condicional da própria PF ("pode se tratar de").
Funcionários, operadores e o escritório respondem, em tese, por condutas próprias (executar pagamentos irregulares, emitir contrato simulado, articular acessos) — que existem independentemente de qualquer conclusão sobre as autoridades. Por isso não se misturam com a lista de cima.