Dossiê · 1570–1924 · O martírio dos cristãos do Oriente

Os massacres otomanos
contra cristãos

Quatro séculos de perseguição, em ordem de tempo: a conquista de Chipre, os suplícios descritos por viajantes europeus, o martírio de 1821, a ilha próspera de Quios varrida em 1822, o massacre de Adana e, enfim, o genocídio que levou parte dessa diáspora ao Brasil.

Eugène Delacroix, Cenas dos massacres de Quios (1824), Museu do Louvre · domínio público
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A memória dos massacres otomanos contra os cristãos voltou à circulação por duas contas no X: a de Homer Pavlos, grego, que há meses publica fios sobre o que os cristãos do Oriente passaram sob o domínio otomano, e a de Lianna, armênia, que guarda a memória do genocídio de seu povo. Os textos são duros e, por vezes, de carga polêmica. Mas por baixo deles há fatos que constam de registros alfandegários, relatos de diplomatas, memórias de viajantes e da própria historiografia. Este dossiê parte desses fios e vai ao que os documentos sustentam. Os números vêm em faixas, não em cifras redondas, e cada acusação traz a autoria declarada.

Aqui os episódios aparecem em ordem de tempo, do mais antigo ao mais recente: a conquista de Chipre (1570–1571), os métodos de suplício descritos por europeus, o martírio de 1821 na Grécia em revolta, o massacre de Quios (1822), o eco de Adana (1909) e, enfim, o genocídio de gregos, armênios e assírios da Ásia Menor (1914–1924). É dele que vem a comunidade armênia que hoje vive no Brasil.

O percurso

  1. A conquista de Chipre (1570–1571)
  2. Os métodos do terror
  3. 1821: os mártires do levante
  4. Quios, 1822
  5. A Europa reage
  6. Adana, 1909
  7. O genocídio (1914–1924)
  8. O Brasil que acolheu os sobreviventes

O teatro dos acontecimentos. 1 Quios, o massacre de 1822 · 2 Samos, de onde partiu Logothetis · 3 Constantinopla, sede do sultão e dos suplícios de Tournefort · 4 Esmirna, incendiada em 1922 · 5 Nicósia, 1570 e 1821 · 6 o Ponto, no mar Negro · 7 Ioannina, onde morreu Vlachavas · 8 Kalamata, 1805 · 9 Famagusta, 1571 · 10 Heraclião (Creta), 1771 · 11 Adana, 1909 · 12 Alamana, onde Diakos foi martirizado em 1821. Mapa interativo (Leaflet · MapTiler · OpenStreetMap).

I · 1570 · 1571A conquista de Chipre

O fio mais antigo recua a dois séculos e meio antes de Quios. Chipre foi engolida pelo Império Otomano em duas investidas de uma mesma guerra: o saque de Nicósia, em 1570, e o suplício de Famagusta, no ano seguinte.

1570 · A queda de Nicósia

No verão de 1570, uma frota otomana com cerca de 60 mil homens sob Lala Mustafa Pasha desembarcou perto de Limassol e cercou a capital, Nicósia, então sob domínio de Veneza. A cidade caiu em 9 de setembro de 1570. Seguiram-se dias de saque: igrejas, palácios e prédios públicos foram pilhados, e estima-se que cerca de 20 mil habitantes tenham sido mortos. Mulheres e crianças foram capturadas para o mercado de escravos. O fio de Homer Pavlos resume o episódio assim:

« Quando os turcos muçulmanos invadiram Nicósia em 1570, massacraram e escravizaram todos os cristãos. Destruíram tudo o que encontravam pela frente, até as igrejas. Decapitavam até os velhos, para testar o fio das espadas, enquanto arrastavam outros para o cativeiro, sobretudo os que julgavam render grande lucro. Ao fim, montaram um mercado onde venderam os belos meninos e meninas gregos. Os próprios turcos se gabavam de que o saque superara o de Constantinopla (1453). »

— Relato reproduzido por Homer Pavlos (@HomerPavlos), sobre a conquista de Chipre

1571 · Famagusta e a pele de Bragadin

Resistiu mais a cidade portuária de Famagusta, defendida pelo veneziano Marcantonio Bragadin. Após quase um ano de cerco, rendeu-se sob garantias em agosto de 1571. Lala Mustafa Pasha rompeu o acordo: os cristãos que restavam na cidade foram massacrados, e Bragadin, submetido a um suplício prolongado. Cortaram-lhe as orelhas e o nariz; deixaram-no preso cerca de duas semanas, com as feridas infeccionando; obrigaram-no a carregar sacos de terra e pedra pelas muralhas; por fim, amarrado nu a uma coluna da praça central, foi esfolado vivo em 17 de agosto de 1571. A pele foi recheada de palha, costurada, revestida com as insígnias militares dele e exibida sobre um boi, em procissão de escárnio pelas ruas de Famagusta.

Gravura do esfolamento de Marcantonio Bragadin em Famagusta, 1571: o veneziano amarrado nu a uma coluna, um carrasco iniciando o suplício, a cidade ao fundo.
O esfolamento de Marcantonio Bragadin em Famagusta, 1571, em gravura do século XIX. Sua pele voltaria a Veneza nove anos depois.

A galé otomana percorreu depois a costa da Síria exibindo os despojos. Em 1580, um jovem marinheiro veneziano, Girolamo Polidori, roubou a pele do arsenal de Constantinopla e a trouxe de volta a Veneza. Ela repousa hoje num monumento da Basílica dos Santi Giovanni e Paolo, panteão dos doges.

II · c. 1700–1809 · Os suplíciosOs métodos do terror

Um dos fios de Homer Pavlos reúne descrições dos métodos de execução usados contra gregos sob domínio otomano, colhidas de viajantes e eruditos europeus. São relatos antigos, de autores identificados, e é assim que entram aqui: como testemunho de época, com o nome de quem os registrou.

Retrato do botânico e viajante francês Joseph Pitton de Tournefort.
Joseph Pitton de Tournefort, que percorreu o Levante por volta de 1700.
Retrato do diplomata e historiador francês François Pouqueville.
François Pouqueville, cônsul de Napoleão na corte de Ali Pasha de Ioannina.

O botânico Joseph Pitton de Tournefort, que viajou pelo Oriente otomano por volta de 1700, descreveu o empalamento praticado em Constantinopla:

📖 Do relato de viagem de Tournefort · c. 1700

A vítima era imobilizada de bruços. A estaca, cravada a marteladas até emergir pelo peito; depois erguida e fincada no chão, enquanto se chamava o moribundo a se converter.

Havia ainda os "ganchos": o condenado era içado por uma roldana e solto de súbito sobre uma fileira de ganchos de ferro, onde podia agonizar por dias.

— Joseph Pitton de Tournefort, Relação de uma viagem ao Levante

O diplomata francês François Pouqueville, cônsul de Napoleão na corte de Ali Pasha de Ioannina, narrou o fim de Thymios Vlachavas, chefe armado da Tessália que liderou um levante em 1808. Traído e capturado, foi executado e esquartejado em 1809; seus membros foram arrastados pelas ruas de Ioannina como aviso. O erudito Kandyloros, por sua vez, relata que um comandante otomano desembarcou em Kalamata em 1805 "carregando vinte mil estacas" e empalou cerca de seiscentos gregos terra adentro.

Outro suplício recorrente era o esfolamento, arrancar a pele da vítima ainda viva. Sob domínio otomano, era aplicado sobretudo contra líderes rebeldes gregos, como castigo exemplar: o condenado era espancado, humilhado em público e amarrado a um cadafalso que o imobilizava, antes de os carrascos lhe removerem a pele a faca, diante da multidão. Foi o que sofreu Bragadin em Famagusta, como vimos, e, dois séculos depois, o cretense Daskalogiannis.

Ioannis Vlachos, o Daskalogiannis ("João, o Mestre-escola"), armador de Sfakiá, liderou em 1770 uma revolta em Creta. Entregou-se confiando numa promessa de clemência. Em 17 de junho de 1771, foi levado a uma praça de Heraclião e esfolado vivo. A cena mais lembrada vem do Canto de Daskalogiannis, rizítiko cretense ditado em 1786, tradição oral e não registro oficial:

« O carrasco começou a esfolá-lo pela cabeça e atirava os pedaços de pele à multidão: "Toma couro para as tuas botas!" Um segundo carrasco, de tempos em tempos, mostrava-lhe o próprio rosto esfolado num espelho, zombando: "Olha, capitão, como o vermelho te cai bem!" Ele resistiu firme e morreu quando a faca chegou às omoplatas. »

— Do Canto de Daskalogiannis (Barba-Pantzelios, 1786), reproduzido por Homer Pavlos (@HomerPavlos)

Nota sobre as fontes: os relatos desta seção vêm de memórias de viagem e de compilações do século XIX e início do XX. Descrevem práticas penais reais do período otomano, mas os números e as cenas mais extremas devem ser lidos como testemunho e tradição, não como estatística verificada. Tratam de uma era, não de um povo em bloco.

III · 1821Os mártires do levante

Em março de 1821 estourou a Guerra de Independência da Grécia. A resposta otomana foi imediata e exemplar: executar em praça pública quem liderasse ou simbolizasse a revolta, para aterrorizar o resto. Três episódios daquele ano mostram de perto o método e a crueldade.

24 de abril · Athanasios Diakos, empalado e assado vivo

Diácono e chefe militar, Athanasios Diakos foi capturado pelos otomanos na ponte de Alamana, perto de Lamia, após resistir com um punhado de homens. Ofereceram-lhe a vida em troca da fé:

« Vais virar turco, Diakos? Vais mudar de fé, rezar na mesquita e abandonar a igreja? »

— « Ide embora, vós e a vossa fé, malditos sejais, pagãos! Nasci grego e como grego hei de morrer. »

— Diálogo registrado na tradição grega sobre Diakos, reproduzido por Homer Pavlos (@HomerPavlos)

A recusa custou-lhe uma morte desenhada para durar. O suplício é narrado por Spyridon Trikoupis, por Aristotelis Valaoritis e pelo historiador alemão Georg Gottfried Gervinus, além dos cantos populares de 1821. Reproduz-se aqui como relato de época:

« Acenderam uma fogueira ao lado do estábulo e puseram sobre ela uma grelha de ferro, com um grande caldeirão de cobre cheio de óleo. Ergueram Diakos, ainda amarrado, e o sentaram num velho banco de madeira, com as pernas suspensas. A cada negativa dele, cravavam-lhe pregos nos pés. Depois tomaram o óleo a ferver e o derramaram primeiro sobre os pés descalços. »

« Vendo que ele não reagia, rasgaram-lhe as roupas e passaram a verter o óleo sobre as costas e o peito; ele gemia baixo. Os soldados, com ordem de não matá-lo, furavam com agulhas as bolhas que o óleo fervente levantava na pele. Assim foi por horas, até a manhã seguinte. »

« Arrastaram-no pela cidade para executá-lo em público, por licença de Halil Bey, para que os gregos fossem avisados do destino de quem ousasse revoltar-se. A mãe de Diakos assistiu à tortura do filho. »

« Com Diakos amarrado de costas a uma sela e as pernas forçadas abertas, o carrasco começou a pressionar a ponta afiada de uma estaca de madeira em sua virilha e a cravá-la lentamente, pela extensão do corpo, até emergir junto ao ouvido direito. Trabalhava com cuidado, sob ordem de não matá-lo depressa; a cada golpe, os gritos de Diakos mostravam que ainda estava vivo. Ao terminar, prenderam-lhe o corpo com firmeza à estaca, para que a pele não rasgasse, e o encostaram quase de pé contra uma árvore. »

— A partir de Trikoupis, Valaoritis, Gervinus e dos cantos populares gregos de 1821, reproduzido por Homer Pavlos (@HomerPavlos)

Diante da morte, teria dito os versos que a tradição guardou:

« Vede a hora que a morte escolheu para me levar: agora, quando os ramos florescem e a terra faz brotar a relva. »

— Últimas palavras atribuídas a Athanasios Diakos

Halil Bey mandou, então, acender uma fogueira sob o corpo e girá-lo devagar, para que fosse assado vivo como um animal. Depois de muitas horas de tormento, o chefe grego morreu em 24 de abril de 1821. Quando os gregos souberam de seu martírio, o episódio lhes deu mais raiva e mais força para a luta. Diakos é, até hoje, um dos maiores heróis da história grega.

Pintura de Theophilos Hatzimihail (1931) representando Athanasios Diakos preso entre soldados otomanos, antes do martírio.
Athanasios Diakos preso entre os otomanos, em pintura de Theophilos Hatzimihail (1931). Domínio público.

9 de julho · O arcebispo de Chipre

No mesmo ano, a ilha de Chipre viveu seu próprio expurgo. Temendo que os cristãos cipriotas se armassem, o governador otomano Küçük Mehmed mandou desarmar a população e preparou uma lista de gregos proeminentes a eliminar. No topo dela estava o arcebispo Kyprianos, chefe da Igreja Ortodoxa cipriota, membro desde 1818 da Filikí Etería, a sociedade secreta que preparara a independência.

Retrato do arcebispo Kyprianos de Chipre, enforcado em 1821.
O arcebispo Kyprianos de Chipre. Recusou-se a fugir da ilha, mesmo sabendo o que o esperava.

O viajante inglês John Carne, que o conheceu pouco antes, registrou a serenidade do arcebispo diante do próprio fim:

« Minha morte não está longe. Sei que eles só esperam uma oportunidade para me matar. »

— Arcebispo Kyprianos, segundo o relato de John Carne

Em 9 de julho de 1821, Küçük Mehmed fechou os portões de Nicósia e começou as execuções. Kyprianos foi enforcado numa árvore diante do antigo palácio dos Lusignan. No mesmo dia, os três metropolitas da ilha foram decapitados: Chrysanthos de Paphos, Meletios de Kition e Lavrentios de Kyrenia, junto com muitos outros clérigos. Os relatos falam em cerca de 470 a 486 gregos notáveis executados naqueles dias de julho, degolados ou enforcados, segundo a fonte, por não renunciarem à fé. Os restos de Kyprianos e dos três bispos repousam hoje na cripta da igreja de Faneromeni, em Nicósia.

O testemunho alemão

A crueldade daqueles anos não ficou sem testemunhas. Por volta da década de 1820, o editor Friedrich Campe, de Nuremberg, publicou uma estampa colorida intitulada Gräuelscenen aus Griechenland ("Cenas de atrocidade na Grécia"). A legenda descrevia, sem rodeios, uma cena de tortura de crianças cristãs:

Estampa alemã 'Gräuelscenen aus Griechenland', anos 1820: sob uma árvore de onde pendem crianças enforcadas, um turco fuma cachimbo e é servido de xerbete.
Gräuelscenen aus Griechenland, estampa do editor Friedrich Campe, Nuremberg, anos 1820. Domínio público.

« A morte dos homens e o afogamento das mulheres ainda não bastavam a um turco muçulmano sedento de sangue cristão; as pobres crianças inocentes também deviam ser sacrificadas. Mandou agarrar os pequeninos indefesos e enforcá-los sem piedade numa árvore. Comodamente, o monstro fumava o cachimbo embaixo deles, fazia-se servir de xerbete e se deleitava com os gritos de medo e a agonia dos inocentes — pois eram, afinal, apenas crianças cristãs. »

— Legenda da estampa Gräuelscenen aus Griechenland (Friedrich Campe, Nuremberg, anos 1820)

IV · 1822Quios

A ilha próspera

Quios (Chios, em grego) fica no mar Egeu, a pouco mais de sete quilômetros da costa da Anatólia. É quase possível ver a Turquia da praia. Em 1821, era uma das ilhas mais ricas do Império Otomano: vivia do mástique, a resina aromática que só brota ali, e de um comércio marítimo que espalhava mercadores de Quios por todo o Mediterrâneo. A ilha gozava de privilégios fiscais e de uma autonomia que poucas regiões gregas tinham.

Vista do porto de Quios em 1782, gravura de Choiseul-Gouffier: a cidade e as embarcações no porto, quatro décadas antes do massacre.
O porto de Quios em 1782, por Choiseul-Gouffier — a ilha próspera quarenta anos antes do fogo.

Essa prosperidade não a protegeu. Quando a revolta começou, a maioria da população local não quis entrar nela. Tinham muito a perder e pouca vontade de arriscar. A ilha era, aos olhos de Constantinopla, um território dócil e lucrativo. Essa reputação de súdita fiel tornou o castigo ainda mais desproporcional.

A faísca: Samos desembarca

Em março de 1822, cerca de 1.500 gregos armados vindos da vizinha ilha de Samos, sob o comando de Lykourgos Logothetis, desembarcaram em Quios para arrastar a ilha à insurreição. Logothetis agia por conta própria. Contrariava até as instruções de Alexandre Ypsilantis, líder do levante, que mandara adiar qualquer invasão. Alguns ilhéus aderiram; a imensa maioria, não.

Foi o suficiente. A notícia de rebeldes em Quios chegou a Constantinopla como prova de traição de uma ilha que recebera favores. O sultão Mahmud II ordenou uma represália exemplar. No fim de março, uma frota otomana sob o Kapudan Pasha Nasuhzade Ali Pasha, o grão-almirante, aportou na ilha. A ordem de destruição é datada de 31 de março (calendário juliano) / 12 de abril de 1822. Era o início de quatro meses de matança.

Retrato do sultão otomano Mahmud II.
O sultão Mahmud II, que ordenou a represália contra Quios.

O massacre

Cenas dos massacres de Quios, tela de Eugène Delacroix (1824): grupos de gregos feridos e cativos em primeiro plano, a ilha devastada ao fundo.
Eugène Delacroix, Cenas dos massacres de Quios (1824), 4,19 × 3,54 m, Museu do Louvre. Não há herói na tela, só vítimas: cativos, feridos e, à direita, uma mulher amarrada ao cavalo de um soldado otomano.

O que se seguiu foi documentado por diplomatas estrangeiros na ilha, por registros de embarque de escravos e pela historiografia posterior. Casas foram incendiadas; aldeias inteiras, arrasadas. Homens em idade de pegar em armas foram mortos; mulheres e crianças, em sua maioria, vendidas como escravos nos mercados da Anatólia e de Constantinopla. Quem não morreu nem foi escravizado fugiu para outras ilhas e para o continente.

Os números variam entre os historiadores, e por isso devem vir em faixas. De uma população de 100 a 120 mil habitantes, as estimativas apontam de 25 a 50 mil mortos e de 45 a 52 mil escravizados, com outros 10 a 20 mil fugindo como refugiados. David Brewer calcula 25 mil mortos e 45 mil escravizados; Thomas Gordon fala em 45 mil escravizados; o historiador Christopher Long aponta, por registros alfandegários, cerca de 41 mil habitantes da ilha exportados como escravos. Ao fim, cerca de quatro quintos da população da ilha estavam mortos, escravizados ou exilados. Quios ficou praticamente vazia.

100–120 mil
Habitantes antes do massacre
25–50 mil
Mortos (faixa entre historiadores)
45–52 mil
Escravizados
~⅘
Da ilha: morta, escravizada ou exilada

O fio de Homer Pavlos cita o comandante otomano Vahid Pasha (governador militar da ilha) ordenando a decapitação dos prisioneiros restantes e o envio das cabeças ao sultão como "troféus da vitória". A cena vem da tradição grega sobre o episódio e dos relatos reunidos no século XIX; registra-se aqui como consta da fonte, com a ressalva de que os detalhes mais extremos pertencem a essa tradição testemunhal, não a um documento oficial otomano:

« Depois do massacre, o comandante mandou decapitar os prisioneiros cristãos que restavam. No dia seguinte, enviou as cabeças ao sultão, junto com outras cargas de cabeças e de orelhas. Eram os troféus de sua vitória. »

— Relato reproduzido por Homer Pavlos (@HomerPavlos), a partir da tradição grega sobre Quios

O fio e a tradição grega descrevem a matança em detalhes difíceis de ler. Reproduzimos como relato de época, não como registro oficial:

« Moças eram violentadas em plena rua, e recém-casadas diante dos maridos, que em seguida eram degolados. Outras, diante dos próprios pais, aos quais depois mutilavam. Mulheres acima dos quarenta anos foram queimadas vivas. Gestantes tiveram o ventre aberto; crianças pequenas foram arremessadas contra as pedras. »

« Muitos soldados decapitavam os cristãos e depois lambiam as próprias espadas, crendo que assim ganhariam o paraíso. Outros foram pendurados nas árvores da ilha. Corpos e membros cobriam as ruas, e o mar ficou vermelho de sangue. A fumaça das casas em chamas tomou toda a Quios, e o clarão fazia a noite parecer dia. »

« Muitas mulheres de Quios preferiram a morte à desonra e à escravidão: atiraram-se dos penhascos. Algumas foram mortas defendendo os filhos, os irmãos e os maridos. »

— Relato reproduzido por Homer Pavlos (@HomerPavlos), a partir da tradição grega sobre o massacre

Vários historiadores modernos, entre eles Raphael Lemkin (o jurista que cunhou a palavra "genocídio"), classificam o episódio de Quios como um dos primeiros casos de genocídio da era moderna. O que não está em disputa é a escala: uma comunidade inteira destruída em poucos meses.

18 de junho · A vingança de Kanaris

A resposta veio do mar. Na noite de 6 para 7 de junho (juliano) / 18 de junho de 1822, o capitão Konstantinos Kanaris, ao lado de Andreas Pipinos, aproximou um brulote (um navio carregado de material incendiário) da nau capitânia otomana ancorada diante de Quios. A frota celebrava o fim do Bayram; o convés estava cheio. O fogo tomou a Mansur al-Liwa, de 84 canhões.

A queima da nau capitânia otomana por Kanaris, pintura: o navio em chamas no mar à noite, iluminando o céu.
A queima da nau capitânia otomana por Kanaris, diante de Quios, um dos episódios mais celebrados da guerra naval grega.

Cerca de 2 mil marinheiros otomanos morreram queimados ou afogados. Entre eles, o próprio Nasuhzade Ali Pasha, o grão-almirante que comandara a destruição da ilha. A vingança não desfez o massacre, mas transformou Kanaris em herói nacional e repercutiu por toda a Europa.

Retrato de Konstantinos Kanaris, por Karl Krazeisen.
Konstantinos Kanaris, em retrato de Karl Krazeisen. Mais tarde seria primeiro-ministro da Grécia.
Retrato de Victor Hugo em 1829.
Victor Hugo em 1829, ano em que publicou Les Orientales, com um poema sobre Quios.

V · 1823–1824A Europa reage

Quando os relatos de Quios chegaram ao Ocidente, a indignação virou movimento. O filohelenismo (a simpatia europeia pela causa grega) ganhou corpo. Artistas e poetas transformaram o massacre em imagem.

Em 1824, Eugène Delacroix expôs no Salão de Paris a tela Cenas dos massacres de Quios, a mesma que abre este dossiê. Media mais de quatro metros. A crítica se dividiu: Antoine-Jean Gros a chamou de "o massacre da pintura"; o Estado francês a comprou por seis mil francos. Victor Hugo incluiu em Les Orientales (1829) o poema L'Enfant, sobre uma criança grega nas ruínas de Quios. O americano William Cullen Bryant escreveu The Massacre at Scio. A repercussão artística ampliou o apoio europeu à causa grega.

VI · Abril de 1909Adana, o aviso

Quase um século depois de Quios, e cinco anos antes do grande genocídio, a cidade de Adana, no sul da Anatólia, foi palco de uma matança que anunciou o que viria. Em abril de 1909, no vácuo aberto pela Revolução dos Jovens Turcos, multidões muçulmanas e tropas atacaram o bairro armênio.

O fio de Homer Pavlos fala em 30 mil mortos; a historiografia estima de 15 a 30 mil armênios assassinados nos massacres de Adana. Homens e crianças foram mortos, mulheres violentadas, casas incendiadas.

« Em abril de 1909, turcos muçulmanos massacraram 30 mil armênios em Adana apenas por serem cristãos. Mataram homens e crianças, violentaram mulheres e torturaram pessoas em suas próprias casas. Foi orquestrado pelos turcos muçulmanos, com motivação racial e religiosa, para criar sua pseudonação islâmica. »

— Homer Pavlos (@HomerPavlos), sobre o massacre de Adana
Capa do Le Petit Journal de 2 de maio de 1909, 'Massacres de chrétiens en Turquie', retratando o massacre de Adana.
Le Petit Journal, 2 de maio de 1909: "Massacres de cristãos na Turquia". O massacre de Adana ganhou as capas ilustradas da Europa.

Homer Pavlos encerra o fio com uma observação, de sua lavra, sobre os que sobreviveram:

« Gregos e armênios da Ásia Menor pagaram caro por terem suportado cinco séculos de escravidão e permanecido cristãos ortodoxos. Os pusilânimes se converteram ao islã para poder ficar na Ásia Menor. Nós somos os descendentes dos que sobreviveram a quatrocentos anos de escravidão e tortura. Nunca esqueçam isso. »

— Homer Pavlos (@HomerPavlos)

VII · 1914–1924O genocídio

Na mesma Ásia Menor, repetiu-se, em escala industrial, a destruição das comunidades cristãs. Desta vez não foram só os gregos: foram gregos, armênios e assírios, no que a historiografia chama hoje de genocídio dos cristãos do Império Otomano tardio.

A engrenagem foi política, não espontânea. Depois da constituição de 1908, o Comitê de União e Progresso (os "Jovens Turcos") adotou a bandeira "a Turquia para os turcos". Durante a Primeira Guerra, isso virou deportação em massa; no período kemalista (1919–1922), tornou-se extermínio aberto. Vieram as "marchas da morte": populações inteiras de mulheres, crianças e idosos forçadas a caminhar centenas de quilômetros por montanhas e desertos, sem comida nem água, até morrer de exaustão. Houve também a islamização forçada de crianças órfãs, reunidas em orfanatos, numa repetição do velho sistema dos janízaros.

Armênios conduzidos por soldados otomanos em 1915, uma das marchas da morte do genocídio.
Armênios conduzidos por soldados otomanos, 1915. As "marchas da morte" eram deportações desenhadas para matar.
O grande incêndio de Esmirna em setembro de 1922, com a cidade em chamas vista do mar.
O incêndio de Esmirna (Izmir), setembro de 1922: o clímax da Catástrofe da Ásia Menor.

Daquele horror restaram até imagens. A conta de Lianna reuniu uma rara filmagem de arquivo de crianças armênias conduzidas nas marchas da morte — infâncias roubadas, gerações perdidas:

Filmagem de arquivo de crianças armênias nas marchas da morte, publicada por @lianna_armenian.

A denúncia não veio só das vítimas. Dentro do próprio Senado otomano, em 22 de outubro de 1918, o ex-grão-vizir Damat Ferit Pasha reconheceu o crime:

Fotografia de Damat Ferit Pasha, ex-grão-vizir otomano, em 1919.
Damat Ferit Pasha, ex-grão-vizir, que admitiu o crime no Senado otomano.

« O aniquilamento das populações cristãs é um crime imputável ao Comitê de União e Progresso, cometido sem nenhuma razão. As populações foram forçadas a partir sob ameaça e violência e exterminadas sem piedade. O total de súditos otomanos deportados dessa forma chega a 550 mil almas; temo, porém, que o número real seja ainda maior. »

— Damat Ferit Pasha, ex-grão-vizir, no Senado otomano, 22 de outubro de 1918

Os totais, somando as três comunidades e os anos de 1914 a 1924, são da ordem de 1,5 milhão de armênios, cerca de 900 mil gregos (dos quais ao redor de 353 mil só no Ponto) e centenas de milhares de assírios. Ao todo, algo próximo de 3,5 milhões de cristãos mortos ou expulsos. Foi esse cataclismo que criou a diáspora. E foi dela que uma parte veio parar no Brasil.

~1,5 mi
Armênios
~900 mil
Gregos (1914–1924)
~353 mil
Só na região do Ponto
~3,5 mi
Cristãos no total

VIII · A diásporaO Brasil que acolheu os sobreviventes

Os primeiros armênios chegaram ao Brasil ainda no fim do século XIX. Mas a grande leva veio depois, entre 1924 e 1926, de sobreviventes e fugitivos do genocídio. Instalaram-se sobretudo em São Paulo, no bairro do Bom Retiro, e no Rio de Janeiro. Começaram no comércio e na fabricação de calçados; organizaram-se em torno de suas igrejas e escolas. Hoje, estimam-se de 40 a 100 mil armênios e descendentes no país.

Imigrantes reunidos no pátio da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, início do século XX.
A Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, a porta de entrada por onde passaram os armênios recém-chegados nos anos 1920 — como todos os imigrantes que desembarcavam no porto de Santos.

Os sobreviventes que desembarcaram no Brasil tiveram filhos e netos. Muitos entraram para a cultura brasileira sem que a maioria soubesse de onde vinham.

Os filhos dos que fugiram

A atriz Aracy Balabanian (1940–2023) era filha de Rafael e Ester Balabanian, imigrantes armênios que fugiram do genocídio e se estabeleceram em Campo Grande. Caçula de sete irmãos, ela viveu uma coincidência quase perfeita: imortalizou na TV a matriarca "Dona Armênia", da novela Rainha da Sucata (1990). Uma mãe armênia aguerrida, vivida por quem era, de fato, filha de armênios. ("Balaban" quer dizer "gigante" no armênio antigo; o sufixo "-ian" significa "da família de".)

Fotografia da atriz brasileira Aracy Balabanian, filha de imigrantes armênios.
Aracy Balabanian, filha de imigrantes armênios que fugiram do genocídio. Foto: 26º Prêmio da Música Brasileira (CC BY 2.0).

Da mesma geração de filhos de imigrantes vêm o ator e político Stepan Nercessian (nascido no Rio, em 1953); o compositor e maestro Ricardo Tacuchian; e o engenheiro e político Pedro Pedrossian, três vezes governador de Mato Grosso do Sul.

~300
Famílias no Rio antes de 1915
1924–26
A grande leva, fugindo do genocídio
40–100 mil
Armênios e descendentes hoje
Bom Retiro
Coração da comunidade em São Paulo

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