Em um conflito, costumam ser lembrados os vivos e os mortos. Os prisioneiros — esquecidos. Esta é a história dos primeiros prisioneiros de guerra do Brasil: nove homens capturados antes mesmo de a guerra ser declarada, arrastados por quase cinco anos pelos pântanos do Paraguai, de cárcere em cárcere, e dos quais apenas dois voltaram para casa — para que o nome dos outros sete não se perdesse.
"Minha pena não dispõe de cores para pintar esses brasileiros, na miséria em que os vi ultimamente. (...) É bem natural que já não existam." — Major Cunha Mattos, oficial brasileiro que partilhou parte do cativeiro, em relatório de 1869 — ao descrever Coelho de Almeida e Pereira Arouca, "debaixo do vergalho, sem comer, sem dormir, sarnentos, magros, como a própria magreza"
Cunha Mattos errou na profecia. Os dois viveram. E porque viveram, sabemos de tudo o que se segue.
Duas memórias, escritas com quarenta anos de distância
Quase tudo o que se conta aqui vem de dois homens que estiveram lá. O escrivão João Coelho de Almeida, o "mais antigo" dos sobreviventes, redigiu logo em 1869 um relatório oficial à Marinha — seco, preciso, com datas e nomes. Quarenta anos depois, as lembranças do piloto baiano João Clião Pereira Arouca deram origem ao livro que o jovem conterrâneo José Gabriel de Lemos Brito publicou em 1907 — vívido, literário, povoado de detalhes que só quem sofreu poderia inventar. Os dois relatos convergem, divergem e se completam. Foram analisados em conjunto, pela primeira vez, pelo historiador militar Francisco José Corrêa-Martins (revista Navigator, nº 31, 2020), base principal desta reportagem.
1 O navio que levava um presidente a Cuiabá
O Marquês de Olinda não era um navio de guerra. Construído no fim dos anos 1850 no Estabelecimento de Fundição e Estaleiros da Ponta d'Areia, em Niterói, tinha 189 toneladas, casco de pouco calado e propulsão mista — rodas de pás laterais e mastros. Pertencia à Companhia de Navegação do Alto Paraguay e cumpria, oito vezes por ano, a longuíssima rota fluvial que ligava Montevidéu a Corumbá, subindo os rios Paraná e Paraguai por mais de três mil quilômetros. Era um paquete de passageiros e correio.
Aquela seria a oitava e última viagem prevista em contrato. No comando ia o primeiro-tenente reformado da Armada Manoel Luiz da Silva Souto. E, entre os passageiros, seguia gente que mudaria de vida ao chegar ao Mato Grosso — sem imaginar que jamais chegaria.
O mais importante deles era o coronel Frederico Carneiro de Campos, do Corpo de Engenheiros: baiano de Salvador, com mais de quarenta anos de serviço, ex-presidente da Província da Paraíba e deputado pelo Rio de Janeiro, ia tomar posse como presidente e comandante de armas da Província do Mato Grosso. Com ele, mais um oficial do Exército e cinco da Armada, todos nomeados para funções em Cuiabá, além de um funcionário da Alfândega que voltava para casa. Nove brasileiros ao todo — sem saber, os atores forçados de um drama que não escolheram.
O navio partiu de Montevidéu em 3 de novembro de 1864, tocou Buenos Aires e começou a remontar o Paraná. Nos portos argentinos de Rosário, Paraná e Corrientes, repetia-se o mesmo aviso: "– Cuidado com os paraguayos!" Ninguém a bordo levou a sério. Na manhã de 11 de novembro, ancorado na baía de Assunção, o coronel Carneiro de Campos ainda almoçou tranquilamente com o ministro brasileiro enquanto se carregava carvão. Às 13h45, o Marquês de Olinda levantou ferros e retomou a marcha para Corumbá.
2 A cilada no rio — 12 de novembro de 1864
Por volta das 06h30 do dia 12, rio acima, viu-se ao sul uma coluna de fumaça que crescia. Logo se reconheceu o vapor de guerra paraguaio Tacuari. Ele disparou um tiro de pólvora seca, cortou a proa do navio brasileiro e mandou parar. Era na altura de Curuzu Chica, cerca de 200 km ao norte de Assunção. Um escaler trouxe um ofício: regresso imediato à capital paraguaia e, em caso de resistência, o navio seria posto sob fogo.
O comandante Souto reuniu os passageiros. A resistência era impossível — um paquete desarmado diante de uma canhoneira. Decidiram lavrar um protesto formal e enviá-lo. A resposta veio cortante:
"Não temos ordem de receber papeis! O capitão que cumpra as ordens do governo paraguayo!"
O Marquês de Olinda virou de bordo e desceu o rio escoltado pelo Tacuari, cuja amurada estava "repleta de marinheiros e soldados", de onde, lembraria Arouca, "partiram sarcasmos e insultos". Chegaram a Assunção na noite do dia 12. Escaleres armados cercaram o navio, impedindo qualquer contato com a terra. No dia seguinte, sentinelas paraguaias tomaram conta de tudo. A guerra havia começado — e os homens a bordo ainda não sabiam.
3 Por que López deu a ordem
Meses antes, em 30 de agosto de 1864, o Paraguai advertira o Brasil: qualquer ocupação do território uruguaio seria considerada uma ruptura do equilíbrio do Prata. Quando, em 16 de outubro, tropas imperiais entraram no Uruguai, o ditador Francisco Solano López entendeu que tinha o pretexto que esperava.
Os relatos dos estrangeiros a serviço do Paraguai mostram um López hesitante. O engenheiro inglês George Thompson contou que ele duvidou muito "se devia romper a paz ou não". O farmacêutico George Masterman foi mais longe: como a guerra ainda não fora declarada, tomar o navio "seria, naturalmente, apenas um ato de pirataria". O que decidiu a questão foi a cobiça e a desconfiança: o cônsul norte-americano Washburn registrou que um comerciante uruguaio amigo de López, Juan José Soto, lhe escrevera dizendo que o vapor brasileiro viria acompanhado da fragata Amazonas, carregando armas, carga valiosa e dinheiro — e "aconselhava-o, por todos os meios, a apresar os vapores".
"Se não tivermos uma guerra agora com o Brasil, teremos uma em um momento menos conveniente para nós." — Francisco Solano López, segundo o engenheiro George Thompson (1869)
Na tarde de 11 de novembro, López despachou a ordem de captura. O Tacuari, o navio mais rápido disponível, saiu na caça às 18h30. Dias depois, uma carta do próprio López revelaria a verdade incômoda: o Marquês de Olinda "no tiene armas" — não levava armas nenhuma. Levava, sim, quatrocentos contos de réis em papel-moeda e oito contos em ouro, destinados ao governo de Mato Grosso, prontamente confiscados. O pretexto da guerra foi um carregamento de armas que não existia.
4 Dois pesos, duas guerras
Vale registrar o contraste, porque ele atravessa toda esta história. No Brasil, as ordens de Dom Pedro II sobre o "bom tratamento" aos prisioneiros paraguaios eram publicadas nas ordens do dia e nos jornais; ameaçava-se punir "do modo mais rigoroso" qualquer oficial que injuriasse ou deixasse "de respeitar a infelicidade e a vida dos seus prisioneiros". O tratamento foi tão brando que os próprios prisioneiros paraguaios pediam para ficar. O general paraguaio Resquin reconheceu, por escrito, a "generosa nação" que pagava soldo a todos os cativos, conforme o posto.
Do outro lado, como se verá, os nove brasileiros conheceriam a fome, o grilhão, o couro mastigado e o pelotão de fuzilamento. A mesma guerra, dois mundos morais.
5 A calmaria — Quartel da Ribeira e San Joaquín
Em 13 de dezembro de 1864, declarado o navio "boa presa" por uma comissão cujo veredito já estava decidido de antemão, arriou-se o pavilhão brasileiro e os oficiais foram levados ao Quartel da Ribeira, em Assunção. No último dia do ano, a tripulação comum foi solta — Almeida os viu "embarcar numa escuna ir aguas abaixo", rumo à liberdade. Ficaram apenas os oficiais, agora prisioneiros de guerra.
Em janeiro de 1865, transferiram-nos para a capela de San Joaquín, no interior. Os paraguaios ofereceram-lhes meio soldo; os brasileiros recusaram, porque a constituição imperial os proibia de receber dinheiro de governo estrangeiro. Foram meses quase tranquilos — tão tranquilos que Almeida e Arouca mal os mencionam. Mas há um detalhe que prenuncia o que vinha: o oficial paraguaio que os tratara bem em San Joaquín, anotou Almeida, "mais tarde teve de ser sacrificado por nos tratar bem". Era apenas a calmaria antes da tempestade.
6 A via-crúcis começa — Villeta, Humaitá, Pilar
No fim de 1865 acabou a paz. Uma escolta veio buscá-los e levou-os para o sul, a Villeta, onde, registra Almeida, foram "então tratados com rigor". Dali embarcaram no vapor Iporá rumo a Humaitá — e ao subirem a bordo tiveram os pés amarrados com um grosso cabo, todos, exceto o velho Carneiro de Campos, a quem deram uma cadeira. Sofreram fome e ficaram "expostos ao tempo".
Foi ali que tombou o primeiro. Em 28 de janeiro de 1866, morreu José Vicente Bueno de Sampaio, o funcionário da Alfândega de Cuiabá — provavelmente o mais jovem do grupo. Arouca descreveu o fim, quarenta anos depois, com a memória ainda crua: um "vomito de sangue coalhara, de súbito, sobre as águas do Paraguay (...) verde como os tremedaes da terra maldicta que pisára". Os paraguaios, temendo contágio, desembarcaram o doente. Ninguém sabe se foi tratado.
Em março de 1866 o Iporá os deixou na Vila do Pilar. Em maio, ouviram ao longe o estrondo da Batalha do Tuyuti; às pressas, uma escolta os arrancou dali, abandonando toda a bagagem, rumo a um lugar perdido no interior que chamavam de Boqueron.
7 Boqueron — a sede e a fome
Permaneceram cerca de dez meses em Boqueron, numa pequena propriedade rural deserta, abrigados num velho telheiro de ovelhas. A comida chegava "de 24 em 24 horas" e foi rareando. A água potável sumiu, e, "nas horas torturantes da sede", beberam "o verde liquido do pântano, colando os lábios ao limo asqueroso das poças do banhado".
O corpo cedeu. E morreu o segundo: o fiel Antônio Joaquim de Paula Reis, "vitimado por febres perniciosas", reduzido — nas palavras de Arouca — a uma "ossaria encarquilhada", os olhos "fundos, sem brilhos", até que, "as mãos crispadas, vidrento o olhar, morreu". Os companheiros o enterraram. Restavam sete.
8 Paso Pucú — a ronda da morte
Em março de 1867 os sete foram levados a Paso Pucú, retaguarda da linha de Curupayty. Carneiro de Campos, doente, atrasou-se ao vestir-se; o cabo "desembainhando a espada, fê-lo subir sem lhe dar tempo". Os cavalos magérrimos laceraram as pernas dos prisioneiros, que chegaram com chagas abertas, mal podendo "suster-se nas pernas". Ao verem-nos, soldados zombavam: "Cambahy! Cambahy!"
As celas eram "calabouços" cercados de couro. Os presos eram postos a trabalho forçado e à faxina — inclusive o coronel Carneiro de Campos, obrigado a varrer e a carregar imundície. Os companheiros tentavam "arrancar-lhe das mãos tremulas a vassoura infamante", mas as sentinelas proibiam. E, todo dia, à hora marcada, saíam dos calabouços os condenados do dia:
"Postos em linha, os olhos vendados, nem lhes deixavam articular a prece derradeira; ouvia-se a voz de comando altear-se: – Fogo! Retumbava uma descarga de fuzilaria; os condenados rolavam, estertorando... Os mortos e moribundos eram arremessados no fosso." — Pereira Arouca, em Lemos Brito (1907)
A comida deixou de chegar de vez. "Nenhum alimento lhes chegava ao calabouço; nutriam-se de couro e de hervas bravas" — o couro era o mesmo que forrava as paredes e o chão da prisão. Veio a disenteria. Numa manhã de janeiro de 1868, faminto, Almeida sussurrou a Arouca que havia "uma petisqueira": eram as vísceras de um carneiro morto na véspera, jogadas fora por imprestáveis. Mesmo fétidas, aplacaram a fome por três dias.
As cinco mortes em 61 dias
Entre 3 de novembro de 1867 e 21 de janeiro de 1868, cinco dos sete morreram — "sucumbido todos por inanição resultante da falta de alimentos", escreveu Almeida. Arouca guardou cada um:
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3 de novembro de 1867Coronel Frederico Carneiro de CamposO presidente que nunca chegou a Cuiabá, sexagenário, morreu ao saber de uma suposta vitória paraguaia. Cumprindo sua última vontade, foi enterrado sem o uniforme. Uma comissão veio depois recolher seu espólio — prata, relógios, livros e ouro — que jamais foi visto de novo.
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4 de dezembro de 1867 · 49 anosDr. Antônio Antunes da LuzO médico do grupo. "Esgotados os seus específicos, em vão procuraria salvar-se... E veio a morrer de fome! Deram-lhe por mortalha um couro do calabouço... aquele mesmo couro que ele tantas vezes roera, faminto."
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31 de dezembro de 1867 · 43 anos1º-Tenente Manoel Luiz da Silva SoutoO comandante do navio. Atormentado pela fome, comeu impulsivamente umas pimentas vermelhas que Braga trouxera da faxina. "Vergam-se-lhe as pernas, estertora em convulsões e cai." Estava morto, "o corpo roxeado; as mãos hirtas".
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4 de janeiro de 1868Sota-Piloto José Antônio Rodrigues BragaO jovem piloto baiano delirou. "Dir-se-ia que está a dirigir um navio em meio a um temporal, sob o raivar dos elementos desencadeados... E expira vociferando."
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21 de janeiro de 1868 · 47 anos1º-Tenente Agnelo de Faria Pinto MangabeiraComo se pressentisse a morte, falou a manhã inteira, contou a vida e lembrou que era casado e deixava filhos. Depois deitou-se e dormiu. "Morreu como um cordeiro, sem um gemido, sem dar um ai!"
"Se algum de vocês escapar, conte aos meus que morri pensando neles..." — Últimas palavras de Agnelo de Faria Pinto Mangabeira, 21 de janeiro de 1868
De nove, restavam dois: o escrivão João Coelho de Almeida e o piloto João Clião Pereira Arouca. E o pior ainda estava por vir.
9 Humaitá, quando os encouraçados passam
Em 16 de fevereiro de 1868, abandonaram Paso Pucú rumo à Fortaleza de Humaitá — de novo deixando para trás a bagagem, que nunca mais reencontrariam. Fracos, levaram dois dias para vencer os dez quilômetros. Já estavam trancados e deitados quando a noite explodiu: ruídos de máquinas a vapor, o estrondo de muitas bombas, e uma delas arrebentou a porta da cela, empurrando-a para dentro. Era a esquadra imperial forçando a passagem de Humaitá, vencendo o maior obstáculo fluvial da guerra. O Brasil passava, em ferro e fogo, a poucos metros dos seus prisioneiros — sem saber que eles ali estavam.
Em Humaitá reencontraram outros cativos brasileiros: o cônsul Amaro José dos Santos Barbosa, "agonizando sobre um couro de boi", e o major Cunha Mattos — o mesmo que, mais tarde, escreveria que vê-los vivos era "um facto miraculoso".
10 A hora mais escura — San Fernando e Lomas Valentinas
De Humaitá, a marcha não parou: Timbó, no Chaco; depois San Fernando, três meses; depois as Lomas Valentinas. Era a fase mais sombria da guerra, quando López, paranoico, mandava executar até os próprios — o irmão Benigno, o ex-ministro José Berges, o coronel Paulino Allén. Os guardas tinham ordem de lancear quem não acompanhasse a marcha. Uma das torturas era amarrar os tornozelos com tiras de couro úmido que, ao secar, retesavam-se e rasgavam a carne — Arouca ainda trazia as marcas quando contou sua história. Almeida resumiu o que viu:
"Vi até fuzilar-se uma pobre velha, incepar crianças e açoitar atrozmente muitas mulheres. (...) A mortandade era considerável. Os fuzilamentos não cessavam: todos os dias, ao amanhecer, retiravam dos calabouços grande numero de cadáveres dos que sucumbiam à fome e ás flagelações." — João Coelho de Almeida, relatório de 1869
E foi ali, em 26 de dezembro de 1868, que ouviram seus próprios nomes na lista dos que seriam fuzilados. Almeida recebeu a notícia "com a maior indiferença", agradecendo a Deus o fim do sofrimento; Arouca, "de uma forma muito humana", acalentava ainda "o desejo ardente de fugir". No instante do desfecho, um soldado paraguaio os surpreendeu:
"Usted tivero suerte; carahy Supremo les perdona." — O soldado que lhes anunciou a comutação da pena de morte, 26 de dezembro de 1868
11 Cerro León, Ascurra e o massacre de Piribebuy
Enquanto os aliados tomavam Assunção, os dois eram arrastados para novos cárceres na Cordillera. Em Cerro León foram metidos numa gruta onde, segundo Arouca, cerca de "500 homens, empilhados e agrilhoados, são enterrados vivos nesse tumulo sinistro e pavoroso" — à noite, "havia blasfêmias, ais, gritos, maldições, gemidos". Comeram milho podre caído da boca dos cavalos da cavalaria brasileira que por ali passara.
Em Ascurra tiveram, por ironia, o melhor período do cativeiro: postos a plantar feijão e milho para o exército inimigo, puderam ao menos comer. Depois veio Piribebuy, onde ficaram cerca de cinco meses — e onde Arouca presenciou "uma das mais terríveis matanças ordenadas por Solano López", até hoje pouco conhecida.
Em 31 de maio de 1869, cerca de 400 prisioneiros caíram lanceados ou fuzilados. Formaram-nos em linha — havia italianos, portugueses, gente de várias nações. Um oficial, com a lista na mão, perguntava a cada um o nome, o país, a data da prisão, e sentenciava: "– Siga!" ou "– Fique!". Na vez de Almeida e Arouca, a resposta foi a mesma: fique. Quando acabou, entenderam que faziam parte de um grupo de menos de vinte sobreviventes.
12 Esta noite, a liberdade
Com os aliados se aproximando, a escolta arrastou os poucos cativos atrás do exército de López em retirada. Em 16 de agosto de 1869, perto de Campo Grande — a batalha de Acosta Ñu, em que López lançou crianças contra o inimigo para cobrir a própria fuga — Almeida e Arouca passaram de longe. E então, na noite de 18 de agosto de 1869, ao reconhecer a presença de forças brasileiras nas imediações de um arroio, o major paraguaio que os guardava tomou enfim a decisão: deu-lhes a liberdade e partiu com seus homens. Exaustos, os três ex-prisioneiros — os dois brasileiros e um tenente argentino, Vicente Constantino — deitaram-se para dormir e seguir de manhã.
Ao amanhecer, caminharam contornando os cursos d'água, fracos demais para nadar. No meio da tarde, dois cavalarianos da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul os mandaram parar e perguntaram quem eram. A resposta:
"— Prisioneiros de cinco anos, e vossos patrícios.
— Sede bem vindos aos braços de vossos irmãos! Segui; ao voltardes àquela curva, encontrareis um destacamento que vos dará agasalho." — O reencontro, na tarde de 19 de agosto de 1869
Montados na garupa dos cavalarianos, foram levados a Caraguatay e, no dia seguinte, apresentados ao Conde d'Eu. Em 24 de agosto seguiram para Assunção. Ali, Almeida prestou contas ao conselheiro José Maria da Silva Paranhos sobre o destino de Carneiro de Campos e finalizou, em 26 de agosto, o relatório que preservaria tudo isto. Pouco depois, embarcaram no transporte Marcílio Dias rumo ao Rio de Janeiro, onde chegaram em 15 de setembro de 1869 — quase cinco anos depois de terem partido de Montevidéu.
Por que já havia um navio "Marcílio Dias" em 1869?
O nome não é anacronismo. Marcílio Dias era o jovem marinheiro que, na própria Batalha do Riachuelo (11 de junho de 1865), lutou corpo a corpo contra os paraguaios que abordaram a corveta Parnaíba — e morreu dos ferimentos no dia seguinte, aos 27 anos. A Marinha imperial honrou depressa os seus heróis de Riachuelo: apenas quatro anos depois, o transporte que trouxe os sobreviventes para casa já levava o seu nome, conforme registrou a imprensa da época (Diário do Rio de Janeiro, 16 de setembro de 1869). Hoje, Marcílio Dias é o primeiro negro inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Em 29 de outubro de 1869, mandaram rezar uma missa na Igreja de São Francisco de Paula "pelo repouso eterno" das almas dos sete companheiros que ficaram pelo caminho. Depois, retomaram a vida: ambos voltaram à Armada, constituíram família e foram reformados no posto de capitão de mar e guerra graduado. Pereira Arouca morreu em Salvador em 1924, aos 75 anos; Coelho de Almeida, no Rio de Janeiro em 1917, aos 72.
A chamada dos nove
Estes são os primeiros prisioneiros de guerra do Brasil. Sete não voltaram. Que ao menos seus nomes voltem.
Por onde andaram — os deslocamentos no mapa
Vale agora ver no mapa o que a narrativa contou. São três quadros: primeiro o vaivém dos prisioneiros pelos catorze cárceres; depois a movimentação das forças brasileiras pelo teatro da guerra — com os estados da região à vista; e, por fim, os dois traçados sobrepostos. Em vinho, sempre os prisioneiros; em azul, sempre o Exército. A base cartográfica é real; alguns acampamentos do cativeiro, sem coordenada exata documentada, aparecem em posição aproximada (marcador tracejado).
1 · O cativeiro dos prisioneiros
2 · A movimentação do Exército brasileiro
O Brasil lutou em frentes muito distantes. Ao sul, o grosso do Exército e a Esquadra subiram do Rio Grande do Sul e do Prata, por Corrientes, e foram rio acima até o coração do Paraguai, perseguindo López por cinco anos, de Tuiuti e Humaitá a Assunção e, por fim, a Cerro Corá. Ao norte, na imensa Província do Mato Grosso, uma coluna defendeu o território invadido e protagonizou a trágica Retirada da Laguna. E tudo começara antes, com a intervenção no Uruguai, em 1864. O mapa regional mostra os estados brasileiros da fronteira e por onde as forças se moveram.
3 · Os dois deslocamentos, sobrepostos
Agora os dois traçados no mesmo mapa. O contraste salta aos olhos: enquanto o Exército (azul) avançava com um rumo — sempre na direção de López —, os prisioneiros (vinho) eram levados e trazidos pela mesma região sem destino, à mercê das ordens do inimigo. O percurso dos cativos aparece simplificado; o detalhe está no mapa 1.
Cinco anos lado a lado: a guerra e os nove
Posta lado a lado, a cronologia revela o quanto cada lance da guerra repercutiu sobre os prisioneiros. O estrondo de uma batalha distante decidia se eram movidos; a fuga de López lhes comutava a pena; uma bomba da esquadra imperial arrebentava a porta do seu cárcere. À esquerda, a guerra; à direita, os nove do Marquês de Olinda.
Coda: o fim do navio
O navio teve fim parecido com o dos seus passageiros. Apreendido, foi armado com oito canhões e incorporado à esquadra de López. Na Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1865 — a vitória que selou o domínio brasileiro dos rios —, o Marquês de Olinda foi alvejado, teve a caldeira destruída, encalhou em chamas e afundou. O paquete que carregava um presidente para Cuiabá terminou queimado, virado contra a própria bandeira. Mas a sua história verdadeira não é a do casco: é a dos nove homens que ele levava, e dos dois que voltaram para contá-la.
Fontes e leituras
- Francisco José Corrêa-Martins, "O fim, o início e o meio: o apresamento do Marquês de Olinda e o cativeiro dos primeiros prisioneiros de guerra brasileiros a partir das memórias dos sobreviventes" — Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil, v. 16, nº 31, p. 97-120, 2020. Base principal desta reportagem.
- João Coelho de Almeida, Parte Oficial — Ministério da Marinha, Diário do Rio de Janeiro, nº 259, 22 de setembro de 1869 — o relatório do sobrevivente "mais antigo".
- José Gabriel de Lemos Brito, Guerra do Paraguay: narrativa histórica dos prisioneiros do Vapor Marquez de Olinda. Salvador: Reis & C., 1907 — escrito a partir das memórias de Pereira Arouca.
- Ernesto Augusto da Cunha Mattos, Parte Oficial — Ministério da Guerra, Diário do Rio de Janeiro, nos 119 e 120, 1º e 2 de maio de 1869.
- Efraím Cardozo, Hace cien años: cronicas de la Guerra de 1864-1870, vol. I. Asunción: EMASA, 1967.
- Charles A. Washburn, The History of Paraguay; George Thompson, The War in Paraguay (1869); George F. Masterman, Seven Eventful Years in Paraguay (1869) — testemunhos de estrangeiros a serviço do Paraguai.
- Francisco Doratioto, Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- Wikipédia (PT), Captura do vapor Marquês de Olinda e Marquês de Olinda (vapor) — síntese e imagens.
Nota: trechos entre aspas reproduzem a grafia das fontes do século XIX e início do XX, com a ortografia da época. As datas e identificações seguem a pesquisa de Corrêa-Martins (2020), que corrige imprecisões da bibliografia anterior.