O que este artigo é — e o que não é
A primeira parte é um ensaio literário e histórico sobre Macbeth: suas fontes, seu enredo, seus temas e o mito que o cerca. É terreno firme, apoiado no texto de Shakespeare e na história da Escócia medieval.
A parte final é diferente, e convém avisar desde já. Ela apresenta uma aproximação — feita por médicos e escritores — entre os sintomas do personagem e uma doença neurológica real, a Insônia Familiar Fatal. Não se trata de afirmar que Shakespeare "sabia" de doenças de príon (o conceito só nasceria em 1982), nem de "diagnosticar" um personagem de ficção. É uma coincidência literária notável, apresentada como tal — separando sempre o que é a peça, o que é a medicina e o que é apenas a semelhança entre as duas.
Há uma frase no segundo ato de Macbeth que assombra o resto da peça como um espectro. Logo depois de apunhalar o rei Duncan enquanto ele dormia, o assassino ouve — ou julga ouvir — uma voz que grita pela casa: "Não durmas mais! Macbeth assassinou o sono." A partir dali, nem ele nem a esposa voltam a dormir em paz. Ele delira, vê fantasmas, definha. Ela caminha adormecida esfregando as mãos, tentando lavar um sangue que não existe. É a mais curta das grandes tragédias de Shakespeare, e também a mais insone. Este ensaio percorre a sua história — de onde veio, o que conta, por que sobrevive — e termina numa pergunta que a ciência do século XX tornou possível: e se aquela maldição fosse, sem que ninguém pudesse saber, o retrato de uma doença de verdade?
O percurso
- A peça mais curta e mais sombria
- O Macbeth de carne e osso
- Holinshed, o rei Jaime e a pólvora
- A profecia e o punhal
- Ambição, culpa e sangue
- "Macbeth assassinou o sono"
- Lady Macbeth e a mancha que não sai
- A maldição da "peça escocesa"
- O legado: da ópera ao cinema
- Conclusão — a peça sem repouso
- Posfácio clínico: e se ele estivesse doente?
- A família que não conseguia dormir
Parte IA peça mais curta e mais sombria
A Tragédia de Macbeth foi escrita por volta de 1606, na maturidade de Shakespeare, no mesmo período fértil que produziu Rei Lear e Otelo. É, de longe, a mais curta das suas grandes tragédias — pouco mais de duas mil linhas, cerca de metade do tamanho de Hamlet. E é também a mais concentrada: não há subtramas cômicas que aliviem a tensão, quase nenhum respiro. A peça avança como uma queda, do primeiro assassinato até a cabeça decepada do tirano, sem desviar o olhar.
Essa concisão é parte do seu poder. Macbeth é a anatomia de uma única alma se corrompendo em tempo real. Começamos com um herói de guerra coberto de glória e terminamos com um monstro acossado, e o espantoso é que acompanhamos cada degrau da descida por dentro — através dos solilóquios em que Macbeth confessa ao público o que jamais confessaria a outro personagem. É uma peça sobre o que a ambição faz com quem cede a ela.
Parte IO Macbeth de carne e osso
Houve um Macbeth real, e ele foi bem diferente do personagem. Mac Bethad mac Findlaích reinou na Escócia de 1040 a 1057 — dezessete anos, um período longo e, pelos padrões da época, razoavelmente estável. Chegou ao trono, sim, matando o antecessor: Duncan I. Mas Duncan não era o rei velho e venerável da peça — era um monarca jovem e não muito bem-sucedido, e morreu em batalha, não assassinado enquanto dormia sob o teto de um anfitrião traiçoeiro.
O Macbeth histórico chegou a fazer uma peregrinação a Roma, por volta de 1050, onde consta que "espalhou dinheiro como semente" aos pobres — o gesto de um rei que se sentia seguro o bastante no trono para deixar o reino e cruzar a Europa. Foi finalmente derrotado e morto por Malcolm, filho de Duncan, com apoio inglês. A distância entre esse rei e o criminoso trêmulo de Shakespeare é enorme — e ela não é acidental. Foi uma escolha, e uma escolha que tinha destinatário.
Parte IHolinshed, o rei Jaime e a pólvora
Shakespeare não foi buscar a história na Escócia real, mas nas Crônicas de Raphael Holinshed (edição de 1587), o grande repositório de história britânica de que ele se serviu em quase todas as peças históricas. Lá estavam a profecia das bruxas, o assassinato, a usurpação. Mas Shakespeare reorganizou o material com mão firme — e a direção das mudanças aponta toda para o mesmo lugar: o trono da Inglaterra.
Porque em 1606 quem reinava era Jaime I — o mesmo que, como Jaime VI, já era rei da Escócia. E três coisas sobre Jaime explicam quase tudo em Macbeth.
Primeiro, Jaime tinha fascínio pessoal por bruxaria: chegou a escrever um tratado, a Daemonologie (1597), e presidiu julgamentos de feitiçaria. Uma peça repleta de bruxas, profecias e o sobrenatural agindo sobre a política falava diretamente aos interesses do rei. Segundo, Jaime se dizia descendente de Banquo — e é por isso que, na peça, Banquo é transformado num nobre honrado e íntegro (nas crônicas ele era cúmplice do crime), a quem as bruxas prometem uma linhagem de reis. A célebre visão dos oito reis, que Macbeth contempla horrorizado, é uma reverência à dinastia Stuart então no poder. Terceiro, a peça é obcecada pelo horror do regicídio — o assassinato de um rei ungido como o mais absoluto dos crimes, um ato contra a ordem natural que faz a própria natureza convulsionar. Em novembro de 1605, um grupo católico tentara explodir o rei e todo o Parlamento na Conspiração da Pólvora. O terror do rei morto no escuro estava fresco na memória de todos.
Macbeth é, nesse sentido, uma peça profundamente política e circunstancial: um espelho lisonjeiro erguido diante de um rei específico, num momento específico. O que não a diminuiu em nada — porque Shakespeare, partindo dessa encomenda quase cortesã, escreveu algo que fala a qualquer época.
Parte IIA profecia e o punhal
A peça abre num relâmpago: três bruxas, num descampado sob a tempestade, combinam encontrar Macbeth. Ele volta de uma vitória militar — general leal do rei Duncan, coberto de honra — quando as "irmãs fatídicas" lhe barram o caminho e proferem a profecia: ele será barão de Cawdor e, depois, rei. Ao companheiro Banquo prometem algo mais estranho: que não será rei, mas gerará reis.
Minutos depois, quando mensageiros anunciam que Macbeth foi de fato nomeado barão de Cawdor, a primeira parte da profecia se cumpre — e a semente do resto brota. A ideia da coroa se instala como uma febre. Sua esposa, Lady Macbeth, ao receber a notícia por carta, não hesita um instante: teme apenas que o marido seja "cheio demais do leite da bondade humana" para fazer o que é preciso. Quando Duncan, por acaso, vai passar a noite no castelo dos Macbeth, ela vê a ocasião e o empurra ao crime, dobrando-lhe a coragem que falta.
Macbeth mata Duncan enquanto o rei dorme — e o faz já dilacerado, alucinando um punhal flutuante que o guia até o quarto. Consumado o ato, desmorona: volta com as mãos ensanguentadas, incapaz de largar as adagas, incapaz de dizer "amém". É Lady Macbeth quem mantém a frieza, devolve as armas e lambuza os guardas de sangue para incriminá-los.
O crime dá certo — e é aí que a tragédia de fato começa. Coroado, Macbeth descobre que o poder não traz repouso, traz medo. Assombrado pela profecia sobre a descendência de Banquo, manda assassiná-lo; o filho, Fleance, escapa. Num banquete diante da corte, Macbeth vê o fantasma de Banquo sentado em seu lugar à mesa — e delira em público, aos olhos de todos. A partir daí vira um tirano sanguinário, executando famílias inteiras, inclusive a mulher e os filhos de Macduff, para se sentir seguro.
De volta às bruxas, recebe novas profecias, ambíguas como todas: que se guarde de Macduff; que "nenhum homem nascido de mulher" poderá feri-lo; e que só será derrotado quando a floresta de Birnam marchar até a colina de Dunsinane. Ele ri: árvores não caminham, e todo homem nasce de mulher. Mas as duas garantias são armadilhas verbais. O exército inimigo se aproxima cortando galhos de Birnam para se camuflar — a floresta "marcha". E Macduff, no duelo final, revela que não nasceu de parto natural, mas foi arrancado antes do tempo do ventre da mãe. As palavras que pareciam blindá-lo o condenam. Macbeth cai; a cabeça do tirano é erguida; a ordem legítima se restaura com Malcolm, filho de Duncan.
Parte IIAmbição, culpa e sangue
No coração da peça está a ambição sem freios — aquilo que o próprio Macbeth chama de "ambição saltitante que salta alto demais e cai do outro lado". Mas o que torna a peça inesgotável não é o crime; é a consciência do criminoso. Macbeth nunca é um vilão frio. Ele sabe, o tempo todo, exatamente o mal que está fazendo — e o faz assim mesmo, arrastado por um desejo que o horroriza. É essa lucidez sobre a própria queda que torna o personagem trágico, e não apenas monstruoso.
Ligado a isso está o problema do destino contra a vontade. As bruxas preveem ou provocam? Elas dizem a Macbeth que ele será rei — mas quem decide assassinar Duncan é ele. A peça deixa a ambiguidade aberta de propósito: talvez a profecia só se cumpra porque Macbeth escolhe cumpri-la. O sobrenatural planta a ideia; a alma humana faz o resto.
E há o sangue, que encharca o texto de ponta a ponta como imagem obsessiva. "Será que todo o oceano do grande Netuno lavaria este sangue da minha mão?", pergunta Macbeth após o crime — e responde a si mesmo que não, que sua mão antes tingiria de vermelho os mares inteiros. O sangue que não se lava é a culpa que não se apaga. Ele volta, transformado, na boca de Lady Macbeth ao fim da peça. E há, atravessando tudo, um motivo mais silencioso e mais sinistro — o sono.
Parte III"Macbeth assassinou o sono"
Poucas peças fazem de um só tema um fio tão persistente. Desde o assassinato de Duncan, Macbeth é obcecada pelo sono — e pela sua perda. No instante em que sai do quarto do rei morto, Macbeth ouve a voz que o amaldiçoa, e a maldição é precisamente esta: nunca mais dormir.
Methought I heard a voice cry "Sleep no more!
Macbeth does murder sleep" — the innocent sleep,
Sleep that knits up the ravell'd sleave of care...
"Pareceu-me ouvir uma voz gritar: 'Não durmas mais!
Macbeth assassina o sono' — o inocente sono,
o sono que descose a manga puída do cuidado...
Repare no que Shakespeare faz do sono nesses versos: não é mera pausa, é cura. O sono que "descose a manga puída do cuidado", "o bálsamo das mentes feridas", "o prato principal no banquete da vida". Ao matar Duncan durante o sono — o momento de maior desamparo e inocência de um ser humano —, Macbeth mata simbolicamente o próprio princípio do repouso e da restauração. E a punição encaixa no crime como uma luva: ele perde para sempre a coisa que profanou.
A partir daí, os dois criminosos vivem privados de dormir. Macbeth inveja abertamente até os mortos que assassinou — Duncan, pelo menos, "dorme bem" em seu túmulo, imune a tudo, enquanto o vivo se debate. A insônia se mistura às alucinações — o punhal no ar antes do crime, o fantasma de Banquo à mesa — e a um terror permanente, um sobressalto a cada ruído. O rei que conquistou tudo não consegue a coisa mais simples que qualquer súdito tem de graça: uma noite de sono.
Parte IIILady Macbeth e a mancha que não sai
Se no início Lady Macbeth é a mais forte do casal — a que não vacila, a que despreza a fraqueza do marido —, é ela quem desmorona primeiro. E o modo como Shakespeare a faz ruir é uma das cenas mais geniais do teatro: o sonambulismo.
No quinto ato, uma dama de companhia e um médico observam, às escondidas, a rainha caminhar durante a noite de olhos abertos, mas adormecida. Ela esfrega as mãos sem parar, tentando lavar um sangue que só ela vê, e murmura os segredos do casal: "Fora, mancha maldita! Fora, eu digo!"; "quem diria que o velho tinha tanto sangue?". O crime que a mente vígil reprime volta todas as noites pela porta do sono. O médico, impotente, dá o veredito que vale para os dois Macbeth:
This disease is beyond my practice...
Unnatural deeds do breed unnatural troubles;
infected minds to their deaf pillows will discharge their secrets.
More needs she the divine than the physician.
Esta doença está além da minha arte...
Atos contra a natureza geram perturbações contra a natureza;
mentes infectadas confessam seus segredos aos travesseiros surdos.
Ela precisa mais do sacerdote que do médico.
É notável que Shakespeare chame aquilo de "doença" (disease) — e que ponha um médico em cena, observando sintomas que confessa não saber tratar. A perturbação do sono é apresentada, literalmente, como um mal que está "além da prática" da medicina da época. Guarde essa palavra. Pouco depois, sem que a peça diga como, Lady Macbeth morre — provavelmente por suicídio. E é a notícia da sua morte que arranca de Macbeth o mais desolado dos solilóquios, o do "amanhã, e amanhã, e amanhã", em que a vida inteira se reduz a "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada".
Parte IVA maldição da "peça escocesa"
Nenhuma obra do teatro carrega tanta superstição. Entre atores, é tabu pronunciar o nome "Macbeth" dentro de um teatro — diz-se que traz desgraça, acidentes, fracassos de bilheteria, até mortes. Por isso a chamam por eufemismos: "a peça escocesa", ou "a tragédia escocesa". Quem escapa e diz o nome proibido deve, segundo o ritual, sair da sala, girar três vezes, cuspir e pedir para voltar a entrar.
A lenda tem explicações prosaicas — Macbeth é uma peça de muitos duelos de espada, escuridão em cena e efeitos, terreno fértil para acidentes reais; e, sendo um sucesso garantido, era montada com frequência por companhias em dificuldade, o que ligava seu nome a teatros à beira da falência. Mas a superstição também combina perfeitamente com a matéria da peça: bruxaria, profecias, sangue e maldição. Não surpreende que a obra sobre um feitiço tenha, ela própria, virado objeto de um.
Parte IVO legado: da ópera ao cinema
Poucas histórias foram tão reencenadas. Giuseppe Verdi fez dela uma ópera (Macbeth, 1847), uma das primeiras a levar Shakespeare a sério na música italiana. O cinema a devorou: Orson Welles (1948) a filmou como um pesadelo expressionista; Akira Kurosawa, em Trono Manchado de Sangue (1957), transplantou-a para o Japão feudal com uma das cenas finais mais assombrosas já rodadas; Roman Polanski (1971) a fez sombria e sangrenta; e, mais recentemente, Justin Kurzel (2015) e Joel Coen (2021) devolveram-lhe o clima de pesadelo geométrico.
A razão dessa sobrevivência é simples: Macbeth fala de algo que não envelhece. A tentação do poder, o preço da consciência, o modo como um único ato irreversível reorganiza toda uma vida ao seu redor. E fala disso na forma mais econômica possível — daí ser tão montada, tão citada, tão presente até em quem nunca a leu. "Cheia de som e fúria" e "amanhã, e amanhã, e amanhã" entraram na língua. A peça escapou do palco e virou parte de como pensamos a ambição e a culpa.
Conclusão — a peça sem repouso
Macbeth é, no fundo, a tragédia mais claustrofóbica de Shakespeare. Não há para onde fugir, nem dentro dela nem dentro do protagonista. Um homem ouve uma profecia, cede a um desejo, comete um crime — e descobre que o crime não termina no ato: ele se prolonga, exige outros crimes, envenena cada hora que resta. O que Macbeth ganha é uma coroa; o que perde é o sono, a paz, a esposa, o sentido, e por fim a própria vida.
E a peça amarra tudo isso a uma imagem só, que vale por toda a obra: o sono assassinado. Matar o rei durante o sono é matar a inocência e o repouso; e o castigo, medida por medida, é a insônia perpétua, povoada de fantasmas. O casal que profanou o sono alheio é condenado a nunca mais encontrar o próprio. Lady Macbeth revive o crime toda noite, caminhando adormecida; Macbeth arrasta uma vigília sem fim, invejando os mortos que dormem. A tragédia começa com um assassinato e termina, dos dois lados, com pessoas que perderam a capacidade de descansar.
É aqui que a peça, sem querer, encosta numa outra história — uma história que Shakespeare não podia conhecer, porque só seria contada quatrocentos anos depois, não por dramaturgos, mas por médicos.
Parte VE se Macbeth estivesse doente?
Leia de novo a lista de sintomas que a peça atribui ao casal, mas agora com olhos de neurologista, e não de crítico literário. Perda progressiva e irreversível do sono. Alucinações vívidas — um punhal no ar, um morto à mesa. Terror constante, sobressaltos, suor. Um declínio mental em que a razão vai se desfazendo. E um médico em cena que examina a paciente, reconhece uma "doença" e admite, perplexo, que ela está "além da sua prática". Some tudo, e o que se desenha não é apenas uma metáfora poética. É, de forma perturbadora, o quadro clínico de uma doença real.
Essa doença chama-se Insônia Familiar Fatal (IFF, ou Fatal Familial Insomnia). É raríssima, hereditária e incurável — e pertence a uma família de males dos mais estranhos que a medicina conhece: as doenças de príon.
O que é uma doença de príon
Um príon não é um vírus nem uma bactéria. É simplesmente uma proteína dobrada de forma errada. Todos nós temos, no cérebro, uma proteína normal chamada PrP. Num príon, essa proteína assume um formato defeituoso — e o mais assustador é que ela é contagiosa em nível molecular: a proteína deformada força as proteínas normais vizinhas a se deformarem também, numa reação em cadeia. Sem DNA, sem RNA, sem nada que a medicina saiba como atacar, ela se propaga pelo tecido nervoso, deixando o cérebro esburacado como uma esponja. Daí o nome técnico do grupo: encefalopatias espongiformes.
Dessa mesma família fazem parte a doença de Creutzfeldt-Jakob, o kuru (que dizimou um povo da Papua-Nova Guiné ligado a rituais de canibalismo) e a versão bovina que ficou famosa como "doença da vaca louca". O conceito de príon foi proposto pelo médico Stanley Prusiner apenas em 1982 — e lhe rendeu o Prêmio Nobel em 1997. Ou seja: nem sequer a ideia de que uma proteína pudesse causar doença existia antes do fim do século XX. Shakespeare estava a quatro séculos de qualquer possibilidade de saber disso.
Por que a Insônia Familiar Fatal parece a maldição de Macbeth
A IFF tem um alvo específico e cruel: o tálamo, a região do cérebro que funciona como o grande centro regulador do sono. Uma mutação num gene (o PRNP) faz a proteína priônica se acumular ali e destruir aos poucos esse relógio interno. O resultado é exatamente aquilo que Shakespeare descreveu: a pessoa vai perdendo a capacidade de dormir, primeiro em parte, depois por completo. E o que vem junto é assombroso de tão parecido com a peça — a insônia total mergulha o doente num estado de sonho acordado, com alucinações; o corpo entra em desregulação (suor, taquicardia, pressão alterada); a mente se deteriora; e não há cura. A morte costuma chegar entre doze e dezoito meses depois dos primeiros sintomas.
| Em Macbeth (1606) | Na Insônia Familiar Fatal | |
|---|---|---|
| Sono | "Não durmas mais": insônia que não cede | Perda progressiva e irreversível do sono |
| Percepção | Alucinações — o punhal, o fantasma de Banquo | Alucinações e estado de "sonho acordado" |
| Corpo | Terror, sobressaltos, suor, agitação | Disautonomia: sudorese, taquicardia, febre |
| Mente | Paranoia, delírio, desagregação | Demência progressiva |
| Desfecho | Ruína e morte de ambos | Fatal, sem tratamento, em ~12–18 meses |
Convém ser honesto sobre o que isso é e o que não é. Não se está afirmando que Shakespeare descreveu clinicamente uma doença de príon — ele não podia. Nem que Macbeth "teve" IFF: é um personagem de ficção, e a peça oferece uma explicação própria, moral e sobrenatural, para a insônia do casal (a culpa, a maldição, o sono profanado). A semelhança é uma coincidência literária, do tipo que faz médicos e escritores sorrirem de espanto. Shakespeare, observador implacável do comportamento humano, descreveu o efeito — o horror concreto de um ser humano que perde o sono e enlouquece — com tal precisão que, sem querer, acertou em cheio o retrato de uma doença que ninguém conheceria por mais quatrocentos anos. A poesia chegou antes da patologia.
E há um detalhe que fecha o círculo: quando o divulgador científico D. T. Max escreveu o livro que tornou a IFF conhecida do grande público, escolheu para epígrafe justamente aquele verso. "Macbeth does murder sleep" — Macbeth assassina o sono. A frase que Shakespeare pôs na boca de um assassino virou o lema de uma doença real. E essa doença tem um rosto: o de uma família italiana.
Parte VA família que não conseguia dormir
A história está contada em The Family That Couldn't Sleep ("A família que não conseguia dormir", 2006), de D. T. Max. É a crônica de uma família veneziana assombrada, por gerações, pela mesma morte impossível: pessoas saudáveis que, num certo ponto da vida adulta, simplesmente começavam a não dormir — e não paravam mais de não dormir, até morrerem exaustas, alucinadas, em poucos meses.
Max rastreou a maldição por séculos. A trilha recua até um médico veneziano morto de uma insônia inexplicável no fim do século XVIII, e segue por descendentes espalhados pelo tempo, cada geração enterrando alguém do mesmo modo, sem que ninguém entendesse o que era. Por muito tempo, a doença foi confundida com outras coisas — loucura, alcoolismo, males do coração — e cercada de vergonha e silêncio, um segredo de família como o dos Macbeth.
O nó se desatou nos anos 1980, em Bolonha. Um homem da família, que os relatos chamam de Silvano, viu-se tomado pelos sintomas que reconhecia de tios e primos — não conseguia mais dormir, suava, definhava — e teve a lucidez terrível de saber o que o esperava. Ele procurou os neurologistas Elio Lugaresi e Rossella Medori e fez um pedido extraordinário: que, após a sua morte, estudassem o seu cérebro para tentar poupar os que viriam depois. Silvano morreu, como sabia que morreria. E o exame do seu cérebro revelou o alvo: a degeneração seletiva do tálamo.
Em 1986, o quadro foi descrito na literatura médica pela equipe de Lugaresi, batizando a doença: Insônia Familiar Fatal. Anos depois, identificou-se a exata mutação genética por trás dela. Só então aquela família soube que a sua tragédia particular tinha um nome, uma causa e um mecanismo — ainda que não tivesse, e continue não tendo, uma cura. Restou-lhes o dilema mais cruel: com um teste genético disponível, cada descendente passou a poder saber, de antemão, se carrega a sentença — e muitos preferem não saber.
É aqui que a literatura e a medicina se tocam de um jeito que arrepia. Shakespeare imaginou, em 1606, um homem amaldiçoado a nunca mais dormir, definhando em alucinações até a morte, e transformou isso numa das maiores tragédias já escritas. Quatro séculos depois, descobriu-se que existe, no mundo, uma família à qual coube exatamente esse destino — não por culpa, não por maldição, mas por uma proteína dobrada errado. A frase "Macbeth assassina o sono" era, para o poeta, uma metáfora do peso da consciência. Para os descendentes daquele médico veneziano, tornou-se a descrição literal, clínica e hereditária do modo como iriam morrer.
Talvez seja essa a última grandeza de Macbeth: uma peça sobre a coisa mais humana que existe — o desejo de mais, e o que ele cobra — descreveu, no caminho, um horror que a natureza guardava escondido, e que a ciência levaria quatrocentos anos para nomear. O sono, dizia o médico da peça, é o bálsamo das mentes feridas. Há quem nasça sem poder recebê-lo. E, tanto na tragédia quanto na vida, perder o sono é começar a morrer.
Nota sobre fatos, fontes e interpretação
Fatos da peça: a profecia das bruxas, o assassinato de Duncan durante o sono, a fala "Macbeth does murder sleep", o fantasma de Banquo, o sonambulismo de Lady Macbeth, a cena do médico e as profecias de Birnam e do "não nascido de mulher" estão todos no texto de Shakespeare (c. 1606).
Fatos históricos: o Macbeth real (Mac Bethad mac Findlaích) reinou de 1040 a 1057 e matou Duncan I em batalha; Shakespeare tirou a trama das Crônicas de Holinshed (1587) e a moldou para lisonjear Jaime I, que se dizia descendente de Banquo. A Conspiração da Pólvora é de novembro de 1605.
Fatos médicos: o conceito de príon foi proposto por Stanley Prusiner (1982, Nobel de 1997); a Insônia Familiar Fatal foi descrita na literatura médica pela equipe de Elio Lugaresi em 1986, a partir do caso de "Silvano", com degeneração seletiva do tálamo; a história da família veneziana é contada por D. T. Max em The Family That Couldn't Sleep (2006).
Interpretação: a aproximação entre os sintomas de Macbeth e a IFF é uma analogia literária, não um diagnóstico. A peça oferece uma explicação moral e sobrenatural para a insônia do casal. A semelhança é notável, mas coincidente — Shakespeare descreveu um efeito humano com precisão tal que ele veio a coincidir, séculos depois, com uma doença real.