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William Shakespeare · c. 1606  ·  um ensaio de Laudelino

Macbeth

A mais curta e mais sombria das tragédias de Shakespeare — a história de um homem que assassina o sono e é condenado a nunca mais dormir. E, no fim, uma suspeita inquietante: e se essa maldição literária descrevesse, quatro séculos antes, uma doença real?

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≈ 21 min de leitura  ·  ensaio literário  com posfácio clínico

O que este artigo é — e o que não é

A primeira parte é um ensaio literário e histórico sobre Macbeth: suas fontes, seu enredo, seus temas e o mito que o cerca. É terreno firme, apoiado no texto de Shakespeare e na história da Escócia medieval.

A parte final é diferente, e convém avisar desde já. Ela apresenta uma aproximação — feita por médicos e escritores — entre os sintomas do personagem e uma doença neurológica real, a Insônia Familiar Fatal. Não se trata de afirmar que Shakespeare "sabia" de doenças de príon (o conceito só nasceria em 1982), nem de "diagnosticar" um personagem de ficção. É uma coincidência literária notável, apresentada como tal — separando sempre o que é a peça, o que é a medicina e o que é apenas a semelhança entre as duas.

Há uma frase no segundo ato de Macbeth que assombra o resto da peça como um espectro. Logo depois de apunhalar o rei Duncan enquanto ele dormia, o assassino ouve — ou julga ouvir — uma voz que grita pela casa: "Não durmas mais! Macbeth assassinou o sono." A partir dali, nem ele nem a esposa voltam a dormir em paz. Ele delira, vê fantasmas, definha. Ela caminha adormecida esfregando as mãos, tentando lavar um sangue que não existe. É a mais curta das grandes tragédias de Shakespeare, e também a mais insone. Este ensaio percorre a sua história — de onde veio, o que conta, por que sobrevive — e termina numa pergunta que a ciência do século XX tornou possível: e se aquela maldição fosse, sem que ninguém pudesse saber, o retrato de uma doença de verdade?

Parte IA peça mais curta e mais sombria

A Tragédia de Macbeth foi escrita por volta de 1606, na maturidade de Shakespeare, no mesmo período fértil que produziu Rei Lear e Otelo. É, de longe, a mais curta das suas grandes tragédias — pouco mais de duas mil linhas, cerca de metade do tamanho de Hamlet. E é também a mais concentrada: não há subtramas cômicas que aliviem a tensão, quase nenhum respiro. A peça avança como uma queda, do primeiro assassinato até a cabeça decepada do tirano, sem desviar o olhar.

Essa concisão é parte do seu poder. Macbeth é a anatomia de uma única alma se corrompendo em tempo real. Começamos com um herói de guerra coberto de glória e terminamos com um monstro acossado, e o espantoso é que acompanhamos cada degrau da descida por dentro — através dos solilóquios em que Macbeth confessa ao público o que jamais confessaria a outro personagem. É uma peça sobre o que a ambição faz com quem cede a ela.

Parte IO Macbeth de carne e osso

Estudo de Henry Fuseli para as três bruxas de Macbeth, mostrando três perfis alinhados apontando na mesma direção.
As três bruxas, estudo de Henry Fuseli (c. 1783). As "irmãs fatídicas" que abrem a peça — e a semeiam.

Houve um Macbeth real, e ele foi bem diferente do personagem. Mac Bethad mac Findlaích reinou na Escócia de 1040 a 1057 — dezessete anos, um período longo e, pelos padrões da época, razoavelmente estável. Chegou ao trono, sim, matando o antecessor: Duncan I. Mas Duncan não era o rei velho e venerável da peça — era um monarca jovem e não muito bem-sucedido, e morreu em batalha, não assassinado enquanto dormia sob o teto de um anfitrião traiçoeiro.

O Macbeth histórico chegou a fazer uma peregrinação a Roma, por volta de 1050, onde consta que "espalhou dinheiro como semente" aos pobres — o gesto de um rei que se sentia seguro o bastante no trono para deixar o reino e cruzar a Europa. Foi finalmente derrotado e morto por Malcolm, filho de Duncan, com apoio inglês. A distância entre esse rei e o criminoso trêmulo de Shakespeare é enorme — e ela não é acidental. Foi uma escolha, e uma escolha que tinha destinatário.

Parte IHolinshed, o rei Jaime e a pólvora

Shakespeare não foi buscar a história na Escócia real, mas nas Crônicas de Raphael Holinshed (edição de 1587), o grande repositório de história britânica de que ele se serviu em quase todas as peças históricas. Lá estavam a profecia das bruxas, o assassinato, a usurpação. Mas Shakespeare reorganizou o material com mão firme — e a direção das mudanças aponta toda para o mesmo lugar: o trono da Inglaterra.

Porque em 1606 quem reinava era Jaime I — o mesmo que, como Jaime VI, já era rei da Escócia. E três coisas sobre Jaime explicam quase tudo em Macbeth.

Primeiro, Jaime tinha fascínio pessoal por bruxaria: chegou a escrever um tratado, a Daemonologie (1597), e presidiu julgamentos de feitiçaria. Uma peça repleta de bruxas, profecias e o sobrenatural agindo sobre a política falava diretamente aos interesses do rei. Segundo, Jaime se dizia descendente de Banquo — e é por isso que, na peça, Banquo é transformado num nobre honrado e íntegro (nas crônicas ele era cúmplice do crime), a quem as bruxas prometem uma linhagem de reis. A célebre visão dos oito reis, que Macbeth contempla horrorizado, é uma reverência à dinastia Stuart então no poder. Terceiro, a peça é obcecada pelo horror do regicídio — o assassinato de um rei ungido como o mais absoluto dos crimes, um ato contra a ordem natural que faz a própria natureza convulsionar. Em novembro de 1605, um grupo católico tentara explodir o rei e todo o Parlamento na Conspiração da Pólvora. O terror do rei morto no escuro estava fresco na memória de todos.

Macbeth é, nesse sentido, uma peça profundamente política e circunstancial: um espelho lisonjeiro erguido diante de um rei específico, num momento específico. O que não a diminuiu em nada — porque Shakespeare, partindo dessa encomenda quase cortesã, escreveu algo que fala a qualquer época.

Um rei escocês fascinado por bruxaria, uma conspiração para explodir o Parlamento, uma dinastia a lisonjear: a peça nasce da política de 1606 — e escapa dela para sempre.

Parte IIA profecia e o punhal

Lady Macbeth com os punhais, pintura de Johann Heinrich Füssli, mostrando a personagem em gesto dramático segurando as adagas.
Lady Macbeth com os punhais, de Johann Heinrich Füssli. É ela quem devolve as adagas e sela o crime.

A peça abre num relâmpago: três bruxas, num descampado sob a tempestade, combinam encontrar Macbeth. Ele volta de uma vitória militar — general leal do rei Duncan, coberto de honra — quando as "irmãs fatídicas" lhe barram o caminho e proferem a profecia: ele será barão de Cawdor e, depois, rei. Ao companheiro Banquo prometem algo mais estranho: que não será rei, mas gerará reis.

Minutos depois, quando mensageiros anunciam que Macbeth foi de fato nomeado barão de Cawdor, a primeira parte da profecia se cumpre — e a semente do resto brota. A ideia da coroa se instala como uma febre. Sua esposa, Lady Macbeth, ao receber a notícia por carta, não hesita um instante: teme apenas que o marido seja "cheio demais do leite da bondade humana" para fazer o que é preciso. Quando Duncan, por acaso, vai passar a noite no castelo dos Macbeth, ela vê a ocasião e o empurra ao crime, dobrando-lhe a coragem que falta.

Macbeth mata Duncan enquanto o rei dorme — e o faz já dilacerado, alucinando um punhal flutuante que o guia até o quarto. Consumado o ato, desmorona: volta com as mãos ensanguentadas, incapaz de largar as adagas, incapaz de dizer "amém". É Lady Macbeth quem mantém a frieza, devolve as armas e lambuza os guardas de sangue para incriminá-los.

O crime dá certo — e é aí que a tragédia de fato começa. Coroado, Macbeth descobre que o poder não traz repouso, traz medo. Assombrado pela profecia sobre a descendência de Banquo, manda assassiná-lo; o filho, Fleance, escapa. Num banquete diante da corte, Macbeth vê o fantasma de Banquo sentado em seu lugar à mesa — e delira em público, aos olhos de todos. A partir daí vira um tirano sanguinário, executando famílias inteiras, inclusive a mulher e os filhos de Macduff, para se sentir seguro.

De volta às bruxas, recebe novas profecias, ambíguas como todas: que se guarde de Macduff; que "nenhum homem nascido de mulher" poderá feri-lo; e que só será derrotado quando a floresta de Birnam marchar até a colina de Dunsinane. Ele ri: árvores não caminham, e todo homem nasce de mulher. Mas as duas garantias são armadilhas verbais. O exército inimigo se aproxima cortando galhos de Birnam para se camuflar — a floresta "marcha". E Macduff, no duelo final, revela que não nasceu de parto natural, mas foi arrancado antes do tempo do ventre da mãe. As palavras que pareciam blindá-lo o condenam. Macbeth cai; a cabeça do tirano é erguida; a ordem legítima se restaura com Malcolm, filho de Duncan.

Parte IIAmbição, culpa e sangue

No coração da peça está a ambição sem freios — aquilo que o próprio Macbeth chama de "ambição saltitante que salta alto demais e cai do outro lado". Mas o que torna a peça inesgotável não é o crime; é a consciência do criminoso. Macbeth nunca é um vilão frio. Ele sabe, o tempo todo, exatamente o mal que está fazendo — e o faz assim mesmo, arrastado por um desejo que o horroriza. É essa lucidez sobre a própria queda que torna o personagem trágico, e não apenas monstruoso.

Ligado a isso está o problema do destino contra a vontade. As bruxas preveem ou provocam? Elas dizem a Macbeth que ele será rei — mas quem decide assassinar Duncan é ele. A peça deixa a ambiguidade aberta de propósito: talvez a profecia só se cumpra porque Macbeth escolhe cumpri-la. O sobrenatural planta a ideia; a alma humana faz o resto.

E há o sangue, que encharca o texto de ponta a ponta como imagem obsessiva. "Será que todo o oceano do grande Netuno lavaria este sangue da minha mão?", pergunta Macbeth após o crime — e responde a si mesmo que não, que sua mão antes tingiria de vermelho os mares inteiros. O sangue que não se lava é a culpa que não se apaga. Ele volta, transformado, na boca de Lady Macbeth ao fim da peça. E há, atravessando tudo, um motivo mais silencioso e mais sinistro — o sono.

Parte III"Macbeth assassinou o sono"

Lady Macbeth caminhando durante o sono, pintura de Johann Heinrich Füssli, figura pálida de olhos abertos avançando na penumbra.
Lady Macbeth sonâmbula, de Johann Heinrich Füssli (c. 1784). De olhos abertos e mente adormecida, ela revive o crime toda noite.

Poucas peças fazem de um só tema um fio tão persistente. Desde o assassinato de Duncan, Macbeth é obcecada pelo sono — e pela sua perda. No instante em que sai do quarto do rei morto, Macbeth ouve a voz que o amaldiçoa, e a maldição é precisamente esta: nunca mais dormir.

Methought I heard a voice cry "Sleep no more!
Macbeth does murder sleep" — the innocent sleep,
Sleep that knits up the ravell'd sleave of care...

"Pareceu-me ouvir uma voz gritar: 'Não durmas mais!
Macbeth assassina o sono' — o inocente sono,
o sono que descose a manga puída do cuidado...

Macbeth, Ato II, cena 2

Repare no que Shakespeare faz do sono nesses versos: não é mera pausa, é cura. O sono que "descose a manga puída do cuidado", "o bálsamo das mentes feridas", "o prato principal no banquete da vida". Ao matar Duncan durante o sono — o momento de maior desamparo e inocência de um ser humano —, Macbeth mata simbolicamente o próprio princípio do repouso e da restauração. E a punição encaixa no crime como uma luva: ele perde para sempre a coisa que profanou.

A partir daí, os dois criminosos vivem privados de dormir. Macbeth inveja abertamente até os mortos que assassinou — Duncan, pelo menos, "dorme bem" em seu túmulo, imune a tudo, enquanto o vivo se debate. A insônia se mistura às alucinações — o punhal no ar antes do crime, o fantasma de Banquo à mesa — e a um terror permanente, um sobressalto a cada ruído. O rei que conquistou tudo não consegue a coisa mais simples que qualquer súdito tem de graça: uma noite de sono.

Parte IIILady Macbeth e a mancha que não sai

A atriz Ellen Terry no papel de Lady Macbeth, retrato de John Singer Sargent de 1889, vestido esverdeado erguendo a coroa acima da cabeça.
Ellen Terry como Lady Macbeth, por John Singer Sargent (1889). O retrato mais célebre da personagem no palco.

Se no início Lady Macbeth é a mais forte do casal — a que não vacila, a que despreza a fraqueza do marido —, é ela quem desmorona primeiro. E o modo como Shakespeare a faz ruir é uma das cenas mais geniais do teatro: o sonambulismo.

No quinto ato, uma dama de companhia e um médico observam, às escondidas, a rainha caminhar durante a noite de olhos abertos, mas adormecida. Ela esfrega as mãos sem parar, tentando lavar um sangue que só ela vê, e murmura os segredos do casal: "Fora, mancha maldita! Fora, eu digo!"; "quem diria que o velho tinha tanto sangue?". O crime que a mente vígil reprime volta todas as noites pela porta do sono. O médico, impotente, dá o veredito que vale para os dois Macbeth:

This disease is beyond my practice...
Unnatural deeds do breed unnatural troubles;
infected minds to their deaf pillows will discharge their secrets.
More needs she the divine than the physician.

Esta doença está além da minha arte...
Atos contra a natureza geram perturbações contra a natureza;
mentes infectadas confessam seus segredos aos travesseiros surdos.
Ela precisa mais do sacerdote que do médico.

Macbeth, Ato V, cena 1

É notável que Shakespeare chame aquilo de "doença" (disease) — e que ponha um médico em cena, observando sintomas que confessa não saber tratar. A perturbação do sono é apresentada, literalmente, como um mal que está "além da prática" da medicina da época. Guarde essa palavra. Pouco depois, sem que a peça diga como, Lady Macbeth morre — provavelmente por suicídio. E é a notícia da sua morte que arranca de Macbeth o mais desolado dos solilóquios, o do "amanhã, e amanhã, e amanhã", em que a vida inteira se reduz a "uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada".

Parte IVA maldição da "peça escocesa"

Nenhuma obra do teatro carrega tanta superstição. Entre atores, é tabu pronunciar o nome "Macbeth" dentro de um teatro — diz-se que traz desgraça, acidentes, fracassos de bilheteria, até mortes. Por isso a chamam por eufemismos: "a peça escocesa", ou "a tragédia escocesa". Quem escapa e diz o nome proibido deve, segundo o ritual, sair da sala, girar três vezes, cuspir e pedir para voltar a entrar.

A lenda tem explicações prosaicas — Macbeth é uma peça de muitos duelos de espada, escuridão em cena e efeitos, terreno fértil para acidentes reais; e, sendo um sucesso garantido, era montada com frequência por companhias em dificuldade, o que ligava seu nome a teatros à beira da falência. Mas a superstição também combina perfeitamente com a matéria da peça: bruxaria, profecias, sangue e maldição. Não surpreende que a obra sobre um feitiço tenha, ela própria, virado objeto de um.

Parte IVO legado: da ópera ao cinema

Poucas histórias foram tão reencenadas. Giuseppe Verdi fez dela uma ópera (Macbeth, 1847), uma das primeiras a levar Shakespeare a sério na música italiana. O cinema a devorou: Orson Welles (1948) a filmou como um pesadelo expressionista; Akira Kurosawa, em Trono Manchado de Sangue (1957), transplantou-a para o Japão feudal com uma das cenas finais mais assombrosas já rodadas; Roman Polanski (1971) a fez sombria e sangrenta; e, mais recentemente, Justin Kurzel (2015) e Joel Coen (2021) devolveram-lhe o clima de pesadelo geométrico.

A razão dessa sobrevivência é simples: Macbeth fala de algo que não envelhece. A tentação do poder, o preço da consciência, o modo como um único ato irreversível reorganiza toda uma vida ao seu redor. E fala disso na forma mais econômica possível — daí ser tão montada, tão citada, tão presente até em quem nunca a leu. "Cheia de som e fúria" e "amanhã, e amanhã, e amanhã" entraram na língua. A peça escapou do palco e virou parte de como pensamos a ambição e a culpa.

Conclusão — a peça sem repouso

Macbeth é, no fundo, a tragédia mais claustrofóbica de Shakespeare. Não há para onde fugir, nem dentro dela nem dentro do protagonista. Um homem ouve uma profecia, cede a um desejo, comete um crime — e descobre que o crime não termina no ato: ele se prolonga, exige outros crimes, envenena cada hora que resta. O que Macbeth ganha é uma coroa; o que perde é o sono, a paz, a esposa, o sentido, e por fim a própria vida.

E a peça amarra tudo isso a uma imagem só, que vale por toda a obra: o sono assassinado. Matar o rei durante o sono é matar a inocência e o repouso; e o castigo, medida por medida, é a insônia perpétua, povoada de fantasmas. O casal que profanou o sono alheio é condenado a nunca mais encontrar o próprio. Lady Macbeth revive o crime toda noite, caminhando adormecida; Macbeth arrasta uma vigília sem fim, invejando os mortos que dormem. A tragédia começa com um assassinato e termina, dos dois lados, com pessoas que perderam a capacidade de descansar.

É aqui que a peça, sem querer, encosta numa outra história — uma história que Shakespeare não podia conhecer, porque só seria contada quatrocentos anos depois, não por dramaturgos, mas por médicos.

Posfácio — onde a literatura encosta na medicina

Parte VE se Macbeth estivesse doente?

Leia de novo a lista de sintomas que a peça atribui ao casal, mas agora com olhos de neurologista, e não de crítico literário. Perda progressiva e irreversível do sono. Alucinações vívidas — um punhal no ar, um morto à mesa. Terror constante, sobressaltos, suor. Um declínio mental em que a razão vai se desfazendo. E um médico em cena que examina a paciente, reconhece uma "doença" e admite, perplexo, que ela está "além da sua prática". Some tudo, e o que se desenha não é apenas uma metáfora poética. É, de forma perturbadora, o quadro clínico de uma doença real.

Essa doença chama-se Insônia Familiar Fatal (IFF, ou Fatal Familial Insomnia). É raríssima, hereditária e incurável — e pertence a uma família de males dos mais estranhos que a medicina conhece: as doenças de príon.

O que é uma doença de príon

Um príon não é um vírus nem uma bactéria. É simplesmente uma proteína dobrada de forma errada. Todos nós temos, no cérebro, uma proteína normal chamada PrP. Num príon, essa proteína assume um formato defeituoso — e o mais assustador é que ela é contagiosa em nível molecular: a proteína deformada força as proteínas normais vizinhas a se deformarem também, numa reação em cadeia. Sem DNA, sem RNA, sem nada que a medicina saiba como atacar, ela se propaga pelo tecido nervoso, deixando o cérebro esburacado como uma esponja. Daí o nome técnico do grupo: encefalopatias espongiformes.

Dessa mesma família fazem parte a doença de Creutzfeldt-Jakob, o kuru (que dizimou um povo da Papua-Nova Guiné ligado a rituais de canibalismo) e a versão bovina que ficou famosa como "doença da vaca louca". O conceito de príon foi proposto pelo médico Stanley Prusiner apenas em 1982 — e lhe rendeu o Prêmio Nobel em 1997. Ou seja: nem sequer a ideia de que uma proteína pudesse causar doença existia antes do fim do século XX. Shakespeare estava a quatro séculos de qualquer possibilidade de saber disso.

Por que a Insônia Familiar Fatal parece a maldição de Macbeth

A IFF tem um alvo específico e cruel: o tálamo, a região do cérebro que funciona como o grande centro regulador do sono. Uma mutação num gene (o PRNP) faz a proteína priônica se acumular ali e destruir aos poucos esse relógio interno. O resultado é exatamente aquilo que Shakespeare descreveu: a pessoa vai perdendo a capacidade de dormir, primeiro em parte, depois por completo. E o que vem junto é assombroso de tão parecido com a peça — a insônia total mergulha o doente num estado de sonho acordado, com alucinações; o corpo entra em desregulação (suor, taquicardia, pressão alterada); a mente se deteriora; e não há cura. A morte costuma chegar entre doze e dezoito meses depois dos primeiros sintomas.

A peça e a doença, lado a lado
 Em Macbeth (1606)Na Insônia Familiar Fatal
Sono"Não durmas mais": insônia que não cedePerda progressiva e irreversível do sono
PercepçãoAlucinações — o punhal, o fantasma de BanquoAlucinações e estado de "sonho acordado"
CorpoTerror, sobressaltos, suor, agitaçãoDisautonomia: sudorese, taquicardia, febre
MenteParanoia, delírio, desagregaçãoDemência progressiva
DesfechoRuína e morte de ambosFatal, sem tratamento, em ~12–18 meses

Convém ser honesto sobre o que isso é e o que não é. Não se está afirmando que Shakespeare descreveu clinicamente uma doença de príon — ele não podia. Nem que Macbeth "teve" IFF: é um personagem de ficção, e a peça oferece uma explicação própria, moral e sobrenatural, para a insônia do casal (a culpa, a maldição, o sono profanado). A semelhança é uma coincidência literária, do tipo que faz médicos e escritores sorrirem de espanto. Shakespeare, observador implacável do comportamento humano, descreveu o efeito — o horror concreto de um ser humano que perde o sono e enlouquece — com tal precisão que, sem querer, acertou em cheio o retrato de uma doença que ninguém conheceria por mais quatrocentos anos. A poesia chegou antes da patologia.

E há um detalhe que fecha o círculo: quando o divulgador científico D. T. Max escreveu o livro que tornou a IFF conhecida do grande público, escolheu para epígrafe justamente aquele verso. "Macbeth does murder sleep" — Macbeth assassina o sono. A frase que Shakespeare pôs na boca de um assassino virou o lema de uma doença real. E essa doença tem um rosto: o de uma família italiana.

Parte VA família que não conseguia dormir

A história está contada em The Family That Couldn't Sleep ("A família que não conseguia dormir", 2006), de D. T. Max. É a crônica de uma família veneziana assombrada, por gerações, pela mesma morte impossível: pessoas saudáveis que, num certo ponto da vida adulta, simplesmente começavam a não dormir — e não paravam mais de não dormir, até morrerem exaustas, alucinadas, em poucos meses.

Max rastreou a maldição por séculos. A trilha recua até um médico veneziano morto de uma insônia inexplicável no fim do século XVIII, e segue por descendentes espalhados pelo tempo, cada geração enterrando alguém do mesmo modo, sem que ninguém entendesse o que era. Por muito tempo, a doença foi confundida com outras coisas — loucura, alcoolismo, males do coração — e cercada de vergonha e silêncio, um segredo de família como o dos Macbeth.

O nó se desatou nos anos 1980, em Bolonha. Um homem da família, que os relatos chamam de Silvano, viu-se tomado pelos sintomas que reconhecia de tios e primos — não conseguia mais dormir, suava, definhava — e teve a lucidez terrível de saber o que o esperava. Ele procurou os neurologistas Elio Lugaresi e Rossella Medori e fez um pedido extraordinário: que, após a sua morte, estudassem o seu cérebro para tentar poupar os que viriam depois. Silvano morreu, como sabia que morreria. E o exame do seu cérebro revelou o alvo: a degeneração seletiva do tálamo.

Em 1986, o quadro foi descrito na literatura médica pela equipe de Lugaresi, batizando a doença: Insônia Familiar Fatal. Anos depois, identificou-se a exata mutação genética por trás dela. Só então aquela família soube que a sua tragédia particular tinha um nome, uma causa e um mecanismo — ainda que não tivesse, e continue não tendo, uma cura. Restou-lhes o dilema mais cruel: com um teste genético disponível, cada descendente passou a poder saber, de antemão, se carrega a sentença — e muitos preferem não saber.

Uma família real viveu, por séculos, a maldição que Shakespeare inventou: gente condenada a não dormir mais.

É aqui que a literatura e a medicina se tocam de um jeito que arrepia. Shakespeare imaginou, em 1606, um homem amaldiçoado a nunca mais dormir, definhando em alucinações até a morte, e transformou isso numa das maiores tragédias já escritas. Quatro séculos depois, descobriu-se que existe, no mundo, uma família à qual coube exatamente esse destino — não por culpa, não por maldição, mas por uma proteína dobrada errado. A frase "Macbeth assassina o sono" era, para o poeta, uma metáfora do peso da consciência. Para os descendentes daquele médico veneziano, tornou-se a descrição literal, clínica e hereditária do modo como iriam morrer.

Talvez seja essa a última grandeza de Macbeth: uma peça sobre a coisa mais humana que existe — o desejo de mais, e o que ele cobra — descreveu, no caminho, um horror que a natureza guardava escondido, e que a ciência levaria quatrocentos anos para nomear. O sono, dizia o médico da peça, é o bálsamo das mentes feridas. Há quem nasça sem poder recebê-lo. E, tanto na tragédia quanto na vida, perder o sono é começar a morrer.

Nota sobre fatos, fontes e interpretação

Fatos da peça: a profecia das bruxas, o assassinato de Duncan durante o sono, a fala "Macbeth does murder sleep", o fantasma de Banquo, o sonambulismo de Lady Macbeth, a cena do médico e as profecias de Birnam e do "não nascido de mulher" estão todos no texto de Shakespeare (c. 1606).

Fatos históricos: o Macbeth real (Mac Bethad mac Findlaích) reinou de 1040 a 1057 e matou Duncan I em batalha; Shakespeare tirou a trama das Crônicas de Holinshed (1587) e a moldou para lisonjear Jaime I, que se dizia descendente de Banquo. A Conspiração da Pólvora é de novembro de 1605.

Fatos médicos: o conceito de príon foi proposto por Stanley Prusiner (1982, Nobel de 1997); a Insônia Familiar Fatal foi descrita na literatura médica pela equipe de Elio Lugaresi em 1986, a partir do caso de "Silvano", com degeneração seletiva do tálamo; a história da família veneziana é contada por D. T. Max em The Family That Couldn't Sleep (2006).

Interpretação: a aproximação entre os sintomas de Macbeth e a IFF é uma analogia literária, não um diagnóstico. A peça oferece uma explicação moral e sobrenatural para a insônia do casal. A semelhança é notável, mas coincidente — Shakespeare descreveu um efeito humano com precisão tal que ele veio a coincidir, séculos depois, com uma doença real.

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