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Carlo M. Cipolla · 1922–2000 · por Laudelino de Oliveira Lima

As Leis Fundamentais da Estupidez Humana

Um historiador econômico de rigor acadêmico resolveu aplicar gráficos, curvas e "leis" ao mais escorregadio dos objetos: a tolice humana. Por baixo da piada, uma tese séria sobre o maior custo oculto de qualquer sociedade.

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≈ 11 min de leitura  ·  ensaio  sobre um livro

Existe um livro curto que trata a estupidez como um economista trata o preço do trigo. Com método, com gráficos, com leis numeradas. O autor não era um humorista. Era um dos maiores historiadores econômicos do século, professor em Berkeley e em Pavia, acostumado a medir populações, moedas e pestes. Num certo momento, voltou esse mesmo instrumental para a tolice humana. O resultado é uma pequena obra-prima que arranca o riso na primeira página e deixa um incômodo na última. Este texto apresenta o livro, conta quem foi o homem que o escreveu, por que ele o escreveu e o que, afinal, ele descobriu.

Capítulo IO livro, em poucas palavras

Capa do livro As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, de Carlo M. Cipolla, com a palavra ESTUPIDEZ impressa de cabeça para baixo
As Leis Fundamentais
da Estupidez Humana
Carlo M. Cipolla
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As Leis Fundamentais da Estupidez Humana é um ensaio breve, de leitura rápida, com um argumento central muito simples. A estupidez não é falta de inteligência nem falta de estudo. É um tipo de comportamento com uma assinatura própria: causar prejuízo aos outros sem obter nenhum ganho para si. Cipolla trata esse comportamento como um fenômeno mensurável, com regularidades que ele resume em cinco leis.

Repare já na capa da edição brasileira. A palavra "estupidez" aparece impressa de cabeça para baixo. É a primeira piada do livro, e também o seu aviso. O assunto é sério, o tom é leve, e o leitor vai rir de si mesmo antes de rir dos outros. A edição em português foi publicada pela Editora Cultura, com prefácio de Nassim Nicholas Taleb, o autor de A Lógica do Cisne Negro.

Capítulo IIQuem foi Carlo M. Cipolla

Retrato em preto e branco de Carlo M. Cipolla, historiador econômico italiano
Carlo M. Cipolla (1922–2000), historiador econômico italiano, professor em Berkeley e em Pavia. Foto: Open Library, via Wikipédia.

Carlo Maria Cipolla nasceu em Pavia, no norte da Itália, em 15 de agosto de 1922, e morreu na mesma cidade em 5 de setembro de 2000. Formou-se em 1944 pela Universidade de Pavia e completou os estudos em Paris e na London School of Economics. Em 1953 foi para os Estados Unidos como bolsista Fulbright. Em 1959 tornou-se professor titular de história econômica na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde lecionou por décadas, sem nunca romper os laços com a universidade de sua cidade natal.

A obra acadêmica dele é vasta e levada a sério no mundo todo. Cipolla estudou a moeda, o comércio medieval, a demografia, a peste e a tecnologia. Entre os livros mais conhecidos estão Canhões e Velas na Primeira Fase da Expansão Europeia (1965), Relógios e Cultura (1967) e Antes da Revolução Industrial (1969). Era um historiador de método quantitativo, que gostava de contar, medir e comparar. Foi eleito para a Academia Americana de Artes e Ciências e para a Sociedade Filosófica Americana. Nada nesse currículo anuncia um autor de humor. E é justamente aí que está a graça.

Capítulo IIIO contexto: uma piada entre eruditos

Ex libris de Carlo M. Cipolla, selo pessoal usado em seus livros
Ex libris de Cipolla. O selo pessoal com que marcava os próprios livros. Fonte: Wikimedia Commons.

O ensaio sobre a estupidez não nasceu como um livro. Nasceu como uma brincadeira de professor. Cipolla escreveu o texto em inglês, não em italiano, e o fez circular em edições privadas, numeradas, destinadas apenas a amigos e colegas. A do ensaio da estupidez saiu em 1976, com o selo imaginário "The Mad Millers", uma tiragem fechada que não ia às livrarias. Antes dela, em 1973, ele já havia feito o mesmo com outro texto bem-humorado, sobre o papel das especiarias na economia da Idade Média.

Só em 1988 os dois ensaios chegaram ao grande público, agora em italiano, reunidos num volume único pela editora il Mulino. O título do livro é uma indicação de andamento musical: Allegro ma non troppo, "alegre, mas não demais". É uma descrição exata do tom. Daí em diante a fama só cresceu, e o texto virou um clássico de boca em boca, traduzido para dezenas de idiomas. A edição ilustrada em inglês, já no século XXI, consolidou o livro como best-seller internacional, muito depois da morte do autor.

Um detalhe que diz muito

Cipolla não publicou isto para ganhar leitores. Publicou para fazer rir um círculo pequeno de gente culta. O livro só se tornou público doze anos depois daquela edição privada de 1976. Essa origem explica o tom: não há deboche fácil nem intenção de ofender ninguém. Há um estudioso brincando com as ferramentas do próprio ofício.

Capítulo IVPor que um historiador escreveu isto

A pergunta é inevitável. Por que um especialista em moeda e demografia gastaria o seu tempo escrevendo sobre a burrice alheia? A resposta está no método, não no assunto. Cipolla era um economista. O economista olha o mundo em termos de ganhos e perdas, de custos e benefícios, de quem sai ganhando e quem sai perdendo em cada troca. Foi esse olhar que ele aplicou à estupidez.

A ideia central do livro é tratar a tolice como uma categoria econômica. Toda ação humana produz um resultado para quem a pratica e um resultado para os outros. A partir desses dois eixos, é possível classificar qualquer pessoa, em qualquer situação, sem recorrer a xingamento ou a juízo moral. A estupidez deixa de ser um insulto e passa a ser uma posição num gráfico. É uma definição fria, e por isso mesmo poderosa.

Por baixo da piada há uma preocupação séria, e ela é típica de um historiador. Cipolla tinha estudado a fundo sociedades que prosperaram e sociedades que decaíram. A estupidez, para ele, é um dos custos ocultos que pesam sobre qualquer grupo humano. É um imposto que todos pagam e quase ninguém contabiliza. O livro é curto e engraçado, mas o alvo é esse: mostrar quanto a tolice custa, e por que a subestimamos sempre.

Capítulo VAs cinco leis fundamentais

O coração do ensaio são cinco leis. Cipolla as enuncia com a seriedade de quem escreve um tratado, e é essa seriedade que produz o efeito cômico. Vale lê-las na ordem, porque uma prepara a outra.

Lei1

O número é sempre maior do que você imagina

Sempre, e de modo inevitável, cada um de nós subestima a quantidade de indivíduos estúpidos em circulação.

Por mais alta que seja a nossa estimativa, a realidade a supera. A razão é dupla. Encontramos pessoas tolas em momentos e lugares em que menos se espera, e tendemos a confiar demais no próximo. A primeira lei é um aviso de que o fenômeno é maior do que o radar costuma captar.

Lei2

A estupidez não escolhe endereço

A probabilidade de que uma determinada pessoa seja estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa.

Esta é a lei mais desconfortável. A tolice não respeita classe, diploma, cargo ou renda. A proporção de estúpidos entre operários é a mesma de executivos, professores e premiados. Não há grupo imune. A inteligência técnica de alguém nada diz sobre a probabilidade de essa pessoa agir de modo estúpido.

Lei3

A lei de ouro: a definição exata

Uma pessoa estúpida é aquela que causa prejuízo a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem com isso obter nenhuma vantagem para si, podendo até incorrer em perdas.

Cipolla a chama de lei de ouro, porque ela define o termo. Estúpido não é o ignorante nem o desastrado. Estúpido é quem prejudica os outros sem ganhar nada em troca, e às vezes saindo perdendo junto. É o comportamento sem lógica, sem proveito, que deixa todos piores. Guarde esta definição, porque o gráfico inteiro a seguir gira em torno dela.

Lei4

Lidar com tolos sai caro

As pessoas não estúpidas sempre subestimam o poder de dano dos indivíduos estúpidos. Esquecem, a todo momento, que associar-se a eles é sempre um erro caro.

Quem não é estúpido comete um erro recorrente. Acha que vai conseguir usar ou controlar o tolo em seu favor. É uma ilusão. O estúpido não segue cálculo, e por isso o resultado é imprevisível e quase sempre ruim para quem se aproxima. A quarta lei é um conselho prático travestido de teorema.

Lei5

O veredito

A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigoso que existe.

E, como corolário, Cipolla acrescenta que o estúpido é mais perigoso do que o próprio bandido. A afirmação parece exagerada à primeira vista. O capítulo seguinte explica por que ela é, na lógica do livro, exatamente verdadeira.

Capítulo VIO gráfico: quatro tipos de gente

Aqui aparece o instrumento favorito do economista. Cipolla desenha dois eixos. No eixo horizontal, o ganho ou a perda que uma pessoa produz para si mesma. No eixo vertical, o ganho ou a perda que ela produz para os outros. Com apenas essas duas medidas, toda a humanidade cabe em quatro quadrantes.

Ganho para si → ← Perda para si Ganho para os outros ↑ ↓ Perda para os outros Inteligente Ganha e faz os outros ganharem Incauto Perde, mas beneficia os outros Bandido Ganha prejudicando os outros Estúpido Perde e faz todos perderem

Os quatro tipos de Cipolla, segundo o que cada pessoa produz para si e para os outros.

O inteligente age de modo que todos ganham: ele e os demais. O incauto, ou ingênuo, beneficia os outros e sai prejudicado, como quem é explorado. O bandido ganha às custas do prejuízo alheio, tira de alguém para si. E o estúpido ocupa o pior canto do gráfico: faz os outros perderem e perde também. É o único tipo cujo saldo é negativo dos dois lados. Não produz nada, nem para si.

A beleza do esquema é que ele descreve comportamentos, não pessoas fixas. A mesma pessoa pode ser inteligente numa decisão e estúpida na seguinte. O que a segunda lei garante é que, na média, a fatia de gente que age no quadrante estúpido é constante e maior do que supomos.

Capítulo VIIPor que o estúpido é o mais perigoso

Agora a quinta lei faz sentido. Compare o estúpido com o bandido, que parece a figura mais ameaçadora. O bandido é racional. Ele quer um ganho, e age para obtê-lo. Por ser racional, é previsível. Você consegue antecipar o movimento dele, montar defesa, calcular o risco. Com o bandido existe uma lógica, e onde há lógica há como se proteger.

O estúpido não oferece essa segurança. Ele causa dano sem buscar proveito. Não há motivo a decifrar, não há padrão a prever, não há negociação possível. O prejuízo chega de qualquer direção, a qualquer hora, sem que nada o explique. Contra um inimigo que não quer nada, não há estratégia. É por isso que, na contabilidade de Cipolla, o estúpido supera o bandido em periculosidade. O bandido ao menos transfere riqueza. O estúpido só destrói.

O bandido tira de você para si. O estúpido destrói o seu sem ficar com nada. Por isso é o mais perigoso.

Capítulo VIIIO corolário que não poupa ninguém

Retrato de Nassim Nicholas Taleb, autor do prefácio da edição
Nassim Nicholas Taleb assina o prefácio da edição. Foto: Wikimedia Commons, CC BY-SA.

A consequência mais provocadora do livro vem da segunda lei. Se a proporção de estúpidos é a mesma em todo grupo, então nenhum título protege. A universidade tem a sua cota. O parlamento tem a sua. O conselho de administração tem a sua. O prêmio Nobel tem a sua. O poder e o diploma não reduzem a fração. Apenas dão ao estúpido melhores recursos para causar estrago maior.

É um corolário que desarma a vaidade coletiva. Costumamos acreditar que uma elite selecionada estaria livre do problema. Cipolla diz que não. A estupidez é distribuída de forma democrática, indiferente a mérito, a origem e a cargo. Não é por acaso que Nassim Nicholas Taleb, estudioso do acaso e do risco, assina o prefácio desta edição. A ideia de um fator constante, imune a todas as outras variáveis, dialoga diretamente com o pensamento dele sobre o imprevisível.

Capítulo IXA lição por baixo do riso

O livro é engraçado até o fim, mas deixa uma mensagem concreta. A primeira parte dela é defensiva. Como não dá para eliminar a estupidez, resta reconhecê-la e evitar a aproximação. A quarta lei insiste nisso. Associar-se ao tolo é sempre um mau negócio, mesmo quando parece vantajoso no curto prazo.

A segunda parte é coletiva, e mais grave. Cipolla observa que a fração de estúpidos é sempre a mesma, mas as sociedades diferem no lugar que dão a eles. Uma sociedade saudável consegue manter os estúpidos longe das decisões que afetam a todos. Uma sociedade em declínio faz o contrário. Ela coloca o comportamento estúpido em posição de poder e deixa que o prejuízo se espalhe de cima para baixo. A tolice é constante. O dano que ela produz depende de quanto espaço a sociedade lhe concede.

É esse o aviso que sobra depois da última gargalhada. O humor do livro é a embalagem. O conteúdo é uma peça de pensamento econômico sobre um custo que preferimos não ver. Cipolla pede apenas que o contabilizemos com honestidade, a começar por nós mesmos. Afinal, segundo as próprias leis, ninguém tem garantia de estar sempre no quadrante certo.

Nota sobre fontes e edição

A obra: o ensaio foi impresso pela primeira vez em inglês, em edição privada e numerada, em 1976, sob o selo fictício "The Mad Millers". Veio a público em 1988, em italiano, reunido a outro ensaio no volume Allegro ma non troppo (il Mulino). O enunciado das cinco leis e a classificação em quatro tipos (inteligente, incauto, bandido e estúpido) são do próprio autor. As formulações aqui estão parafraseadas em português, fiéis ao sentido do original.

O autor: Carlo Maria Cipolla (Pavia, 1922–2000), historiador econômico, professor na Universidade da Califórnia em Berkeley e na Universidade de Pavia, membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Sociedade Filosófica Americana.

A edição citada: As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, Editora Cultura, com prefácio de Nassim Nicholas Taleb. A palavra "estupidez" impressa de cabeça para baixo na capa é um recurso gráfico da edição.

O livro

As Leis Fundamentais da Estupidez Humana

Carlo M. Cipolla · prefácio de Nassim Nicholas Taleb · Editora Cultura

Capa de As Leis Fundamentais da Estupidez Humana
Ver na Amazon Também disponível em inglês: The Basic Laws of Human Stupidity.

Por Laudelino de Oliveira Lima

Fonte deste texto:

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