A dupla identidade que dividiu a multidão no Pretório de Pilatos
O fragmento a seguir circula nas redes sociais como "curiosidade bíblica". Cada afirmação foi verificada contra fontes acadêmicas de crítica textual.
Se você abrir traduções bíblicas modernas, verá que o texto diz exatamente "Jesus Barrabás". Historicamente, o teólogo Orígenes (século III) observou que os escribas antigos começaram a apagar o nome "Jesus" antes de "Barrabás" nos manuscritos gregos. Eles achavam uma heresia ou um sacrilégio que um criminoso compartilhasse o mesmo nome sagrado do Salvador.
Em aramaico, "Bar" significa "filho de". No caso de Barrabás, a expressão original provável é Yeshua bar-Abba, "Jesus, filho do Pai". A multidão foi colocada diante de uma escolha entre dois homens com identidades quase idênticas: Jesus, o Bar-Abba (líder político violento) versus Jesus, o Cristo (Filho do Pai Celestial).
— Texto original em circulação
A questão central é: os manuscritos mais antigos do Evangelho de Mateus trazem "Jesus Barrabás" ou apenas "Barrabás"?
Esta é a parte com maior suporte acadêmico do texto circulante. A origem aramaica do nome é consenso entre dicionários bíblicos e estudos de linguística semítica.
Paralelos no próprio Novo Testamento confirmam o padrão bar + nome do pai:
Independentemente do debate textual, a ironia dramática dos dois personagens é reconhecida pela scholarship bíblica como recurso literário/teológico do evangelista Mateus.
Consenso entre dicionários bíblicos, enciclopédias de línguas semíticas e a Wikipedia com citações de fontes primárias. O radical bar = filho é atestado em dezenas de nomes do NT. Abba era provavelmente o nome próprio do pai de Barrabás, com conotação de "pai/papai" em aramaico.
Observação presente em comentários acadêmicos sérios sobre Mateus 27. A ironia teológica (dois personagens com o mesmo nome que significa "filho do pai") é reconhecida como recurso retórico intencional do evangelista — independente de se o nome "Jesus" aparecia ou não nos manuscritos originais.
Verdadeiro para algumas traduções, mas falso como afirmação geral. Veja o quadro:
| Tradução | Inclui "Jesus"? | Observação |
|---|---|---|
| NIV 2011 | ✅ Sim | Mudou na edição de 2011 |
| NRSV | ✅ Sim | Segue o NA27 |
| ESV | ❌ Não | Mantém só "Barrabás" |
| NASB | ❌ Não | Mantém só "Barrabás" |
| NKJV | ❌ Não | Mantém só "Barrabás" |
| NIV 1984 | ❌ Não | Versão anterior |
Esta é a inversão mais problemática do texto. O que Orígenes (c. 185–254 d.C.) realmente escreveu foi:
Ou seja: Orígenes constatou que a maioria dos manuscritos que ele tinha não trazia "Jesus" — e sugeriu que a ausência poderia estar correta. O próprio Orígenes, ao citar Mt 27:17 em seu texto, usou apenas "Barrabás".
A teoria de que escribas removeram o nome por acharem sacrilégio é uma hipótese acadêmica moderna e plausível — mas não é o que Orígenes "observou". O texto inverte o argumento de Orígenes.
A variante "Jesus Barrabás" não foi "recuperada recentemente". Ela é discutida há séculos: Orígenes a menciona no séc. III, e estudiosos como Samuel Prideaux Tregelles já a analisavam no séc. XIX. O debate é antigo — a frase dá uma falsa impressão de descoberta arqueológica recente.
Além disso, nenhum manuscrito grego anterior ao séc. X traz a variante. O apoio mais antigo é uma versão siríaca (séc. V) e o comentário de Orígenes (séc. III) — que, como visto acima, não a valida.
| Afirmação | Veredito |
|---|---|
| Etimologia bar-Abba = "filho do pai" | ✅ Correto |
| Paralelo simbólico dos dois "Jesus, filho do pai" | ✅ Legítimo |
| "Traduções modernas trazem 'Jesus Barrabás'" | ⚠️ Parcial |
| Orígenes flagrou escribas apagando o nome | ❌ Inverte o argumento |
| Arqueologia textual "recuperou" nas últimas décadas | ❌ Exagerado / Enganoso |
A parte historicamente sólida do texto é a etimologia e o paralelo simbólico. A narrativa sobre Orígenes e a "recuperação recente" romantiza e distorce os fatos da crítica textual.