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Dossiê · Urnas eletrônicas & controvérsias globais

Dossiê Smartmatic

Da Venezuela de Chávez ao suborno nas Filipinas, da guerra judicial sobre a eleição americana de 2020 ao único contrato que a empresa realmente teve no Brasil — o que é fato comprovado e o que é boato.

Venezuela EUA Filipinas Brasil
Publicado em 22 de julho de 2026 · Levantamento a partir de fontes primárias e imprensa (DoJ/EUA, TSE, veículos internacionais) · Texto informativo: separa o que está comprovado ou em processo judicial do que já foi desmentido.

A Smartmatic é, ao mesmo tempo, uma das empresas de tecnologia eleitoral mais influentes e mais controversas do mundo. Nascida entre a Flórida e a Venezuela, ela já organizou eleições em quatro continentes, virou alvo de teorias da conspiração nos Estados Unidos — e ganhou na Justiça de quem a acusou — e hoje responde a um processo criminal por corrupção. Este dossiê organiza a história por região e, sobretudo, esclarece o ponto que mais gera confusão no Brasil: o que exatamente a empresa fez — e o que nunca fez — nas eleições brasileiras.

Ficha resumida da empresa Smartmatic Smartmatic (grupo SGO Corporation Ltd.) Fundada em 2000 · Sedes em Londres, Boca Raton (EUA) e subsidiárias globais Fundadores: Antonio Mugica, Roger Piñate e Alfredo Anzola Atuação: urnas, biometria e transmissão de resultados em dezenas de países Situação atual: réu em processo criminal nos EUA (caso Filipinas)
Ficha da empresa. A Smartmatic surgiu no início dos anos 2000 e cresceu a partir de contratos eleitorais na América Latina.

01Venezuela — a origem e o paradoxo

A história começa em 2004. Praticamente desconhecida, a Smartmatic venceu uma concorrência de US$ 91 milhões do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) venezuelano para fabricar as urnas do referendo revogatório contra Hugo Chávez. Ela concorreu associada à Bizta, empresa dos mesmos donos.

O nó original está aí: o governo venezuelano havia injetado cerca de US$ 150 mil na Bizta em troca de 28% de participação e uma cadeira no conselho. O empréstimo só foi quitado um mês antes da eleição de 2004, quando os laços vieram a público. Ou seja, a empresa que operava a eleição tinha, pouco antes, o próprio governo como sócio.

VOTO Modelo AES 3000 Emitia voto impresso conferível pelo eleitor (VVPAT) — auditável.
A ironia técnica. A urna venezuelana de 2004 imprimia um comprovante em papel conferível pelo eleitor (VVPAT) — recurso que críticos da urna brasileira, como o Fórum do Voto Eletrônico, elogiavam como mais auditável. Ter papel, porém, não impediu os escândalos posteriores.

A Smartmatic operou as eleições venezuelanas por 14 anos. O ponto de ruptura veio em agosto de 2017: o próprio presidente-executivo da empresa, Antonio Mugica, declarou publicamente em Londres que os números de comparecimento da eleição da Assembleia Constituinte haviam sido adulterados em pelo menos 1 milhão de votos. Foi a fornecedora denunciando o regime que a contratara.

"Sabemos, sem qualquer dúvida, que os números de participação [na eleição da Constituinte] foram manipulados." — Antonio Mugica, CEO da Smartmatic, Londres, 2 de agosto de 2017

02Estados Unidos — dois capítulos opostos

Sequoia e a investigação do CFIUS (2005–2007)

Com o dinheiro dos contratos venezuelanos (cerca de US$ 120 milhões), a Smartmatic comprou em 2005 a americana Sequoia Voting Systems, que atendia 17 estados e o Distrito de Columbia. O CFIUS — comitê que avalia investimentos estrangeiros por risco à segurança nacional — abriu investigação sobre os laços da empresa com o governo Chávez. Pressionada, a Smartmatic acabou se desfazendo da Sequoia em 2007.

A eleição de 2020: aqui, a Smartmatic é a vencedora na Justiça

Ao contrário do que a narrativa popular sugere, as acusações de que a Smartmatic teria "fraudado" a eleição de 2020 contra Donald Trump foram derrubadas nos tribunais. Em 2020 a empresa operou em um único condado — Los Angeles — onde nenhuma fraude sequer foi alegada. A Smartmatic processou os veículos que difundiram a alegação e venceu ou está vencendo:

Newsmax
US$ 40 mi
✔ Acordo pago (set/2024)
OAN
Confidencial
✔ Acordo (abr/2024)
Fox News
US$ 2,7 bi
⚖ Ação em andamento
Placar judicial nos EUA. A Newsmax pagou US$ 40 milhões; a OAN fechou acordo de valor sigiloso; e o processo de US$ 2,7 bilhões contra a Fox News segue — a corte de apelação de Nova York rejeitou o pedido da emissora de arquivar a causa. (Para referência: a Dominion, outra empresa, obteve US$ 787 milhões da Fox em 2023, em caso separado.)

03Filipinas — o caso criminal (o mais grave e atual)

Se nos EUA a Smartmatic é vítima de difamação, nas Filipinas ela é ré por corrupção. Segundo o Departamento de Justiça americano, entre 2015 e 2018 executivos da empresa pagaram propina para garantir contratos milionários nas eleições filipinas de 2016.

Condado de Los Angeles contrato ~US$ 300 mi "Caixa 2" via superfaturamento por urna J. A. Bautista presidente da COMELEC desvia ≥ US$ 1 mi Contratos US$ 182 mi Como o esquema funcionava
O fluxo do dinheiro. Procuradores afirmam que o superfaturamento (inclusive do contrato de Los Angeles) alimentava um "caixa 2" usado para pagar propina ao chefe da Justiça Eleitoral filipina, garantindo contratos de US$ 182 milhões para as eleições de 2016.
US$ 1 mi+
em propina paga ao presidente da COMELEC
US$ 182 mi
em contratos obtidos para a eleição de 2016
Banida
Smartmatic proibida em futuras eleições filipinas

Os acusados incluem Roger Piñate (venezuelano, cofundador e presidente da empresa, morador de Boca Raton/FL), Jorge Miguel Vásquez (cidadão americano) e outros. Para ocultar os pagamentos, usaram linguagem codificada, contratos fraudulentos e "empréstimos" de fachada, movimentando o dinheiro por bancos na Ásia, Europa e EUA.

Maio de 2016
Eleições gerais filipinas realizadas com equipamentos da Smartmatic.
8 de agosto de 2024
DoJ indicia os executivos e o ex-presidente da COMELEC, Juan Andrés Bautista, no Distrito Sul da Flórida.
16 de outubro de 2025
Indiciamento substitutivo passa a acusar a própria empresa (SGO Corporation Ltd.) por conspiração para violar o FCPA e lavagem de dinheiro.

04A dimensão política — e o que ainda está em aberto (2025-2026)

Até aqui, tudo neste dossiê é fato consolidado ou processo judicial em curso. Mas, nos últimos meses, a história da Smartmatic ganhou uma camada política e ainda inconclusa — que preferimos manter claramente separada do corpo principal. Registramos o que está sendo levantado, quem levanta e por que ainda não é possível cravar conclusões.

A acusação sob o Departamento de Justiça de Trump

O indiciamento da própria empresa (SGO/Smartmatic) no caso das Filipinas foi apresentado em outubro de 2025, já sob o DoJ do governo Trump. Em março de 2026, a Smartmatic pediu o arquivamento alegando "processo vingativo": sustenta que cooperava com o DoJ desde 2021 (entregou milhões de páginas de documentos), que o julgamento dos executivos já tinha data marcada, e que a acusação contra a empresa só surgiu depois que Trump voltou à Casa Branca — movida, segundo a defesa, pela convicção do presidente de que a Smartmatic ajudou a "fraudar" a eleição de 2020.

Há, portanto, duas leituras em disputa — nenhuma decidida em tribunal: de um lado, uma acusação criminal real de suborno; de outro, a alegação da empresa de que a acusação foi instrumentalizada politicamente. A CNN observou ainda que o caso de corrupção pode enfraquecer os processos de difamação que a Smartmatic move contra a Fox News e Rudy Giuliani.

Agosto de 2025
Mike Benz depõe no Congresso brasileiro sobre o financiamento da USAID no Brasil.
Outubro de 2025
DoJ (governo Trump) inclui a empresa SGO/Smartmatic no indiciamento das Filipinas.
Março de 2026
Smartmatic pede arquivamento alegando "perseguição" e "campanha de retribuição".

USAID, Mike Benz e o debate que "pegou fogo"

Quem é Mike Benz? Advogado empresarial em Nova York e ex-redator de discursos (para Trump, Ben Carson e Stephen Miller), Benz foi subsecretário-adjunto de Estado para Comunicações Internacionais e Tecnologia da Informação no primeiro governo Trump — cargo que ocupou por menos de um ano. Desde 2022 dirige a Foundation for Freedom Online e se tornou uma das vozes mais ativas na crítica à USAID e ao que chama de "complexo industrial de censura". É ele quem, hoje, empurra esse tema com mais força.

Em agosto de 2025, Benz depôs no Congresso brasileiro e trouxe números que são verificáveis nos dados oficiais (ForeignAssistance.gov): o orçamento da USAID para o Brasil mais que dobrou durante o governo Bolsonaro — de cerca de US$ 31,9 milhões (2018) para US$ 68,8 milhões (2019), chegando a US$ 87,3 milhões no meio do mandato.

US$ 31,9 mi
USAID no Brasil — 2018 (antes)
US$ 68,8 mi
2019 — mais que o dobro
US$ 87,3 mi
pico no meio do mandato

O dado do gasto é verificável. Já a interpretação — de que esse dinheiro teria financiado opositores e ajudado a derrotar Bolsonaro — é uma alegação de Benz, ainda não comprovada. Ele chega a afirmar que "sem a USAID, Bolsonaro ainda seria presidente" e liga o financiamento à atuação do TSE e do ministro Alexandre de Moraes — pontos de tese, não de sentença.

Soma-se a isso um episódio já documentado: em maio de 2022, a Reuters revelou que o então diretor da CIA, William Burns, dissera a auxiliares de Bolsonaro (o general Augusto Heleno e o então chefe da Abin, Alexandre Ramagem) que o presidente deveria parar de lançar dúvidas sobre o sistema de votação. Críticos leem o episódio como pressão de autoridades americanas sobre o Brasil; o próprio Heleno negou que a conversa tenha ocorrido. É mais uma peça do quebra-cabeça — não uma conclusão.

Cuidado para não confundir: o debate sobre a USAID é sobre financiamento de ONGs, mídia e programas — não sobre a Smartmatic. A única ligação direta e documentada entre USAID e Smartmatic que localizamos é pontual (a compra de scanners eleitorais para a Bósnia). A tese ampla de "USAID/Soros financiando Smartmatic/Dominion" circula em fontes de opinião, sem respaldo em documento oficial até agora.
Por que esta seção fica à parte. As apurações sobre USAID, financiamento estrangeiro e a acusação criminal seguem em andamento e inconclusas. O tema está, de fato, "pegando fogo" — mas o corpo deste dossiê trata apenas do que já está garantido hoje. Se as provas evoluírem e algo se confirmar (ou cair), este dossiê será atualizado para refletir a nova realidade.

05Brasil — o que a empresa realmente fez

Este é o ponto que mais gera desinformação. A Smartmatic nunca fabricou a urna nem programou o software eleitoral brasileiro — isso é feito e gerido pela Justiça Eleitoral. Mas a empresa teve, sim, um contrato de serviços com o TSE. Vale detalhá-lo com precisão.

Contrato Smartmatic × TSE — o único relevante
Instrumento
Pregão / Licitação nº 42/2012 do TSE (concluído em julho de 2012)
Vencedor
Consórcio ESF: ENGETEC Tecnologia S.A. (líder) · Smartmatic Brasil Ltda · Smartmatic International Corp. · FIXTI Soluções em TI Ltda
Valor
R$ 129 milhões · vigência de 12 meses
Eleição
Municipais de outubro de 2012 (5.568 municípios, ~437 mil seções)
Objeto
Recrutar e treinar ~14 mil profissionais de suporte técnico-operacional; carga de baterias, testes, limpeza, lacração, instalação do software da eleição e transmissão dos boletins de urna
Presidente do TSE
Ministra Cármen Lúcia, que assumiu a presidência do TSE em 18/04/2012, sucedendo Ricardo Lewandowski
Ficha do contrato. Era um serviço de logística, manutenção e transmissão — não de votação. O consórcio recebia as mídias e transmitia os boletins pelo sistema do TSE (a parte de "conexão de dados e voz" que o Tribunal menciona).
O que a Smartmatic NÃO fez no Brasil: não fabricou as urnas (em 2020 disputou a licitação de fabricação e perdeu para a Positivo); não desenvolveu nem teve acesso ao código-fonte do software de votação; e não participou da contagem ou totalização dos votos — tudo isso é atribuição interna da Justiça Eleitoral.
Boatos que circularam e não têm respaldo nos registros: que a empresa "operou" as eleições de 2022, que "recebeu dinheiro da USAID" para atuar no pleito, ou que "o FBI prendeu o CEO fornecedor das urnas brasileiras". O TSE, inclusive, reforçou em julho de 2026 que a empresa venezuelana não forneceu urnas ao Brasil.

E hoje, quem faz o que a Smartmatic fez em 2012?

O contrato de 2012 foi um caso único: a página oficial de "exercitação de urnas" do TSE lista apenas aquele contrato do Consórcio ESF. Depois dele, o modelo mudou — as tarefas foram absorvidas pela Justiça Eleitoral ou fatiadas entre fornecedores específicos. Não existe mais um "consórcio único" nem a Smartmatic em qualquer deles.

Tarefa2012 — contrato único (Consórcio ESF / Smartmatic)Hoje (2022/2024)
Desenvolvimento e lacração do software eleitoralSempre do TSE (nunca terceirizado)TSE — Secretaria de TI; cerimônia pública de assinatura e lacração
Mão de obra de suporte (~14 mil técnicos)Consórcio ESF (com a Smartmatic)TREs, com pessoal próprio/requisitado — sem consórcio nacional
Carga e lacração das urnasAto dos TREs, com apoio operacional do consórcioTREs, sob fiscalização de partidos, OAB, MP e PF
Fabricação da urna, firmware e mídiasFabricante da épocaPositivo Tecnologia (contrato de R$ 138 mi, 2022)
Itens (baterias, lacres, cabines, papel)Dentro do contrato únicoRegistros de preço item a item (fornecedores distintos)
Transmissão dos boletinsOperada pelo consórcio, no sistema do TSEAplicativo do próprio TSE; operadoras só como transporte; SMSat para locais remotos
Infraestrutura de TISERPRO (estatal federal) + 160+ contratos de TI
De um contratão a muitos pedaços. O papel concentrado que a Smartmatic teve em 2012 deixou de existir nesse formato: os atos oficiais (software, carga, lacração) são da Justiça Eleitoral, e o restante virou compra fragmentada por item.

06O mapa das controvérsias

EUA difamação (venceu) Venezuela fraude 2017 Brasil só serviços (2012) Filipinas suborno (réu) Uganda/Zâmbia biometria
Presença global. Verde = operação sem controvérsia comprovada; vermelho = escândalo comprovado ou processo; azul = disputa judicial vencida pela empresa. Fora essas frentes, a Smartmatic prestou serviços de biometria eleitoral na África (Uganda, Zâmbia) via agências da ONU.

07Síntese: o comprovado e o desmentido

O maior erro ao falar da Smartmatic é misturar dois baldes muito diferentes. De um lado, há fatos duros, documentados e até judicializados. De outro, há alegações que a própria Justiça — brasileira e americana — já rejeitou.

✔ Comprovado / na Justiça✘ Desmentido / boato
Origem com o governo Chávez como sócio da Bizta (2004)"Fraudou a eleição de 2020 nos EUA" — a Smartmatic ganhou os processos
O CEO admitiu manipulação de votos na Venezuela (2017)"Forneceu as urnas do Brasil" — falso (TSE); perdeu a licitação de 2020 para a Positivo
Suborno nas Filipinas — indiciamento do DoJ (2024/2025)"Recebeu dinheiro da USAID para atuar em 2022"
Superfaturamento no contrato de Los Angeles"O FBI prendeu o CEO fornecedor das urnas brasileiras"

A ironia que costura toda a história é técnica: a Smartmatic de 2004 era citada — inclusive por críticos brasileiros da urna eletrônica — como exemplo de auditabilidade, porque suas máquinas imprimiam um voto conferível pelo eleitor. Esse elogio, sobre aquele modelo específico, é verdadeiro. Mas a trajetória posterior mostrou que ter voto impresso auditável não vacina uma empresa contra corrupção e conflito de interesses — e que esses dois debates, o da tecnologia e o da idoneidade corporativa, não se confundem.

— Fim do dossiê —

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