No dia 5 de agosto de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) anunciou o deputado Alfredo Gaspar de Mendonça Neto como candidato a vice-presidente numa chapa formada só por quadros do PL. Menos de 24 horas depois, uma enxurrada de publicações da esquerda tentava reduzir a trajetória de Gaspar a duas palavras: "estuprador" e "corrupto". Este dossiê faz o caminho inverso: reconstrói a vida do homem por inteiro — família, toga, política, CPMI — e então enfrenta as duas acusações de frente, mostrando o que os documentos e a própria protagonista da suposta vítima dizem.
01Origem: um alagoano de Maceió
Alfredo Gaspar de Mendonça Neto nasceu em Maceió, em 13 de agosto de 1970. O "Neto" no fim do nome carrega uma tradição de família: é a terceira geração a levar o nome Alfredo Gaspar de Mendonça. Cresceu e se formou em Alagoas, estado que nunca deixou de ser sua base — profissional, afetiva e, mais tarde, eleitoral.
Formado em Direito, com pós-graduação em Direito Público, Gaspar escolheu cedo o lado da acusação: prestou concurso para o Ministério Público e ali construiu praticamente toda a vida adulta antes da política.
02Vinte e quatro anos de Ministério Público
Gaspar foi promotor de Justiça por 24 anos. Não foi um promotor de gabinete: especializou-se no confronto direto com o crime organizado, a área mais dura e mais perigosa da carreira.
- Coordenou o Gecoc — Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas de Alagoas.
- Foi o primeiro alagoano a presidir o GNCOC, o Grupo Nacional de Combate ao Crime Organizado, que reúne os promotores anticrime de todo o país.
- Chegou ao topo da instituição: foi duas vezes Procurador-Geral de Justiça de Alagoas, o cargo máximo do Ministério Público estadual.
- No Executivo estadual, ocupou a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas, comandando a política de segurança do estado.
03A entrada na política: o mais votado da capital
Em 2022, Gaspar disputou sua primeira eleição e foi eleito deputado federal por Alagoas — o segundo mais votado do estado e o primeiro colocado na capital, Maceió. Tomou posse em 1º de fevereiro de 2023. A votação expressiva de estreia mostrou o tamanho do capital político que ele havia acumulado como promotor: o eleitor premiou justamente a imagem do homem da lei.
04O que ele propôs no Congresso
Fiel à origem, a produção legislativa de Gaspar concentra-se em segurança pública, endurecimento penal e proteção de vítimas. Apresentou dezenas de projetos; entre as pautas que avançaram e o marcaram:
- Tráfico e tornozeleira (PL 2933/2025): impede que traficante flagrado usando tornozeleira eletrônica tenha direito à redução de pena — projeto aprovado em comissão.
- Proteção ao idoso: como relator da CPMI do INSS, propôs alterar o Código Penal para agravar a pena do estelionato quando cometido contra idoso ou envolvendo entidades públicas e beneficentes, tornando a ação penal incondicionada nesses casos.
- Valorização das polícias: foi autor da lei que criou o Dia Nacional do Policial Penal.
- Alagoas: criou a Rota Turística das Cidades Coloniais do estado.
Em 2025, foi ainda escolhido relator de proposta ligada à suspensão da ação penal contra o deputado Alexandre Ramagem — sinal do peso que já tinha na articulação do campo bolsonarista na Câmara.
05A CPMI do INSS: o relator que foi atrás de "Lulinha"
Foi em agosto de 2025 que Gaspar assumiu a relatoria da CPMI do INSS — a comissão mista criada para apurar o escândalo bilionário dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões, cobrados sem consentimento por associações de fachada. O posto o projetou de vez para além de Alagoas.
Durante sete meses de oitivas e cruzamento de dados sigilosos, a relatoria mirou o esquema de consignados sem autorização e a atuação do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS". O trabalho foi marcado por embates duros com governistas — bate-bocas com Paulo Pimenta (PT-RS), a resposta ríspida à Conafer — e por um recado que virou manchete: o pedido para o Senado acionar a Justiça pela prisão preventiva de Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha".
06A chapa: vice de Flávio Bolsonaro
Foi essa projeção — o promotor linha-dura que enfrentou o petismo dentro de uma CPMI — que levou o nome de Gaspar ao topo da chapa presidencial. Depois de semanas de mistério, e do impasse com o PP em torno de Tereza Cristina, o PL decidiu lançar uma chapa "pura", só com quadros do partido. Em 5 de agosto de 2026, em coletiva na sede da legenda em Brasília, Flávio Bolsonaro anunciou Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente. Gaspar, que se preparava para disputar o Senado, abriu mão da candidatura estadual para compor a chapa nacional.
A escolha tem uma lógica de campanha explícita: colocar ao lado de Flávio o homem que, na CPMI, mirou diretamente o entorno do presidente Lula. O anúncio foi, ele próprio, a senha para o que veio a seguir.
07O contra-ataque: as duas acusações da esquerda
No dia seguinte ao anúncio, a máquina de ataque se organizou em torno de dois pontos — um antigo, reciclado da CPMI, e outro construído sobre um assunto técnico de orçamento. Vamos aos dois, com calma.
7.1 — O falso caso de "estupro"
A acusação mais grave nasceu dentro da CPMI, em março de 2026, no calor dos embates. No encerramento dos trabalhos, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) chamaram Gaspar de "estuprador" e levaram à Polícia Federal a versão de que ele teria mantido relação com uma adolescente de 13 anos, dela tendo uma filha. A PF pediu a abertura de inquérito no STF.
É o ponto decisivo e que a imprensa militante evita destacar: a suposta "prova viva" do crime se apresentou publicamente para dizer que o crime nunca existiu. Em vídeo divulgado em 27–28 de março de 2026, a jovem — identificada como Lourilene Pereira da Silva — afirma ser filha biológica do magistrado Maurício Breda, primo do deputado, fruto de um relacionamento breve e consensual, e exibe exame que aponta a paternidade. Ela declara, com todas as letras, que não é produto de nenhum estupro.
Gaspar ainda doou material genético à Polícia Científica de Alagoas, em 23 de abril de 2026, para uso no inquérito — um exame descrito como de "perfil genético único e completo". "A verdade é soberana", resumiu à época.
- Mar/2026 · na CPMI Lindbergh Farias e Soraya Thronicke chamam Gaspar de "estuprador" no encerramento da comissão.
- 27–28 Mar/2026 Gaspar divulga o vídeo de Lourilene, que se diz filha do primo (magistrado Maurício Breda) e nega o estupro.
- 17 Abr/2026 No STF, o ministro Gilmar Mendes manda os três — Gaspar, Lindbergh e Soraya — prestarem esclarecimentos.
- 23 Abr/2026 Gaspar faz o exame de DNA na Polícia Científica de Alagoas: "a verdade é soberana".
- Até hoje Nenhuma prova pública foi apresentada para sustentar a acusação. O inquérito não tem conclusão.
7.2 — As emendas: enviar recurso não é crime
O segundo ataque é mais técnico, e por isso mais fácil de vender para quem não conhece o funcionamento do orçamento. Em abril de 2026, o TCU (Tribunal de Contas da União), sob relatoria do ministro Walton Alencar, abriu auditoria sobre R$ 6,2 milhões em emendas que Gaspar destinou ao município de São José da Laje (AL) — três repasses feitos entre julho e dezembro de 2024, na modalidade transferência especial, a chamada "emenda Pix". O TCU apontou "perda de rastreabilidade" dos valores.
Daí a esquerda saltou direto para a palavra "desvio". Só que entre uma coisa e outra há um abismo — e ele se chama competência. Vamos separar o que é o quê:
Onde está cada responsabilidade? Este é o ponto que dissolve a acusação:
- O deputado federal indica o recurso e o encaminha ao município. Aqui termina o papel dele. Indicar emenda não é crime — é função constitucional do mandato.
- O prefeito e a administração municipal recebem o dinheiro, apresentam o plano de trabalho e executam a aplicação. A gestão do gasto é 100% do Executivo local.
- A fiscalização de como a prefeitura gastou cabe à Câmara Municipal (os vereadores), ao Tribunal de Contas e ao Ministério Público local — não ao deputado que enviou o recurso. Não existe, na lei, dever de o parlamentar "auditar" a prefeitura depois.
Há ainda um detalhe que desmonta a manchete de "desvio". A tal "perda de rastreabilidade" não é uma marca digital deixada por Gaspar: é uma característica do próprio instrumento. O modelo da transferência especial foi desenhado pelo Congresso justamente para ser desburocratizado — e o próprio TCU já reconheceu que cerca de 81% de todas as emendas Pix do país (de todos os partidos, de todos os parlamentares) não eram plenamente rastreáveis do autor ao beneficiário final. É um problema do desenho da regra, não uma evidência de crime individual.
08Em resumo
Alfredo Gaspar é, pela biografia documentada, o oposto da caricatura que dele se tentou fazer em 24 horas: um promotor de carreira que passou a vida acusando criminosos, virou o parlamentar que relatou o maior escândalo previdenciário recente e mirou o entorno do poder. As duas acusações levantadas contra ele, quando abertas, revelam-se frágeis: a de estupro desmentida pela própria suposta vítima e por DNA, sem prova pública; a das emendas apoiada num equívoco proposital sobre de quem é a responsabilidade pela gestão do dinheiro público. O leitor tem, aqui, os elementos para julgar por conta própria — que é, no fim, tudo o que um dossiê honesto deve oferecer.