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Reportagem · Saúde Pública · Julho de 2026

O Custo do SUS:
Meio Trilhão por Ano, 160 Milhões Dependendo Dele

Quanto o Brasil gasta em saúde pública, quanto isso dá por habitante todo mês, por que os estados mais pobres gastam mais por pessoa, e por que — mesmo custando tanto — a fila tem 66 mil pessoas esperando um órgão e 1,3 milhão esperando cirurgia. Uma conta feita com dados oficiais.

~R$ 540 bi Gasto público em saúde por ano
~R$ 265 Por mês, por quem só tem o SUS
160 mi Dependem só do SUS
1,3 mi Na fila de cirurgia eletiva

AberturaUma conta que parece simples e não é

Perguntar "quanto custa o SUS?" parece pergunta de resposta única. Não é. O dinheiro sai de três lugares diferentes — União, estados e municípios — e o número muda conforme quem você conta como "usuário". Esta reportagem faz a conta do jeito mais honesto possível: o gasto público total de saúde dividido por quem realmente depende do sistema. O resultado incomoda dos dois lados.

O retrato em uma frase

O Brasil gasta hoje na casa de meio trilhão de reais por ano em saúde pública. Isso dá cerca de R$ 265 por mês para cada um dos 160 milhões de brasileiros que não têm plano de saúde e dependem exclusivamente do SUS. É muito dinheiro — e, ao mesmo tempo, é pouco: como fatia do PIB, o Brasil gasta em saúde pública menos da metade do que países europeus com sistema universal. É por isso que a conta é alta e a fila não anda ao mesmo tempo.

2,8 biatendimentos por ano
~4%do PIB em saúde pública (metade da OCDE)
66,5 milna fila de transplante
Para quem tem plano, o SUS é o backup: a vacina, o samu, a vigilância sanitária, o transplante e a rede de urgência que salvam quando o convênio nega ou não cobre. Para 160 milhões de brasileiros, o SUS não é backup nem "uma opção" — é a única coisa que existe. É caro. Mas para quem não tem condição, é isso ou nada.

Capítulo 01Quanto o Brasil gasta em saúde pública

O custo do SUS não é o orçamento do Ministério da Saúde. É a soma do que União, estados e municípios aplicam em Ações e Serviços Públicos de Saúde (ASPS). E são três esferas pagando pedaços diferentes da conta.

~R$ 404 bitotal das 3 esferas em 2022 (SIOPS, dado fechado)
R$ 246 bisó o orçamento federal em 2025
R$ 271 biorçamento federal aprovado para 2026

O último ano com número fechado e auditado das três esferas é 2022: R$ 403,8 bilhões em ASPS, segundo o SIOPS/IPEA (a Conta-Satélite do IBGE, por outra metodologia, aponta R$ 429,4 bilhões de gasto público em saúde no mesmo ano). De lá para cá, o gasto só cresceu: o orçamento federal sozinho saltou de R$ 168 bilhões (2023) para R$ 218 bilhões (2024), R$ 246 bilhões (2025) e R$ 271 bilhões aprovados para 2026 — impulsionado pelo fim do teto de gastos e pela volta do piso constitucional de 15% da receita corrente líquida. Somando as três esferas, especialistas estimam o total de 2025/2026 na faixa de R$ 520 a R$ 550 bilhões por ano. É esse "meio trilhão" que usamos como referência.

Cuidado com o número que você cita. Circulam três valores diferentes e não intercambiáveis: (1) ASPS/SIOPS — o que os entes aplicam por lei (R$ 404 bi em 2022); (2) gasto público da Conta-Satélite do IBGE — consumo público de saúde (R$ 429 bi em 2022); (3) orçamento federal do Ministério da Saúde (R$ 246 bi em 2025) — que é só a União, não o custo total. Dizer "o SUS custa R$ 246 bilhões" é errar por baixo: esquece estados e municípios, que bancam quase 60% da conta.

Quem paga a conta

Ao contrário do que muita gente pensa, a União não banca a maior parte. Em 2022, a repartição da despesa total foi assim:

EsferaParticipação (2022)Tendência histórica
União (governo federal)37,6%Caindo: era 45% em 2012 e 52% em 2002
Municípios34,0%Subindo — cada vez mais no colo das prefeituras
Estados e DF28,4%Estável, muitos abaixo do mínimo legal

A leitura política é direta: ao longo de 20 anos, a União foi transferindo o peso do SUS para estados e municípios. Hoje quem sustenta o dia a dia da saúde — o posto, a UBS, o pronto-socorro municipal — é, em boa medida, a prefeitura da sua cidade.

Caro em reais, barato em porcentagem do PIB

Aqui está o paradoxo central do SUS. O gasto público em saúde do Brasil é de cerca de 4% do PIB — um dos menores da OCDE, à frente só do México. Países com sistema universal de verdade gastam muito mais dinheiro público:

País / sistemaGasto público em saúde (% do PIB)
França~9%
Alemanha (participação pública ~85%)~8%+
Reino Unido (NHS, ~83% público)~7,6%
Brasil (SUS)~4%

O paradoxo que explica tudo

O Brasil é praticamente o único país do mundo com sistema universal em que o gasto público é minoritário no total gasto em saúde. Somando público e privado, o país gasta 9,4% do PIB em saúde (R$ 946 bilhões em 2022) — mas o governo banca só ~45% disso. Os outros 55% saem do bolso das famílias e dos planos. Ou seja: o SUS promete cobrir 100% da população com o dinheiro de um sistema que gasta metade do que os europeus gastam. É a raiz de a conta ser alta para o cofre público e, ainda assim, faltar em toda parte.

Capítulo 02A conta por brasileiro — todo mês

Agora a conta que o cidadão quer ver: quanto o SUS custa por pessoa, por mês. A resposta depende de uma escolha metodológica decisiva — você divide pela população inteira, ou só por quem realmente depende do SUS?

Jeito 1: dividir por todo mundo (o número "diluído")

Se você pega o gasto público total e divide pelos 212,6 milhões de brasileiros, chega a um número baixo — porque inclui os 53 milhões que têm plano e usam pouco o sistema público:

Gasto público em saúde (ano, referência)R$ 508 bilhões
População total do Brasil (IBGE, 2024)212,6 milhões
R$ 199 / mês por brasileiro — média diluída (R$ 2.385/ano)

Jeito 2: dividir só por quem depende do SUS (o número real)

Mas quem tem plano de saúde usa muito menos o SUS. O justo é tirar essas pessoas da conta. Segundo a ANS, 53,2 milhões de brasileiros tinham plano médico-hospitalar em dezembro de 2025. Sobra a base que realmente vive do SUS:

População total (IBGE, 2024)212,6 milhões
(−) Têm plano de saúde médico (ANS, dez/2025)53,2 milhões
(=) Dependem exclusivamente do SUS~159,4 milhões
Gasto público em saúde (ano, referência)R$ 508 bilhões
R$ 265 / mês por quem só tem o SUS (R$ 3.175/ano)

O contraste é o ponto: quando você desconta quem tem plano, o custo real de cada usuário do SUS pula de R$ 199 para R$ 265 por mês — um terço a mais. E se usarmos a estimativa mais atual do gasto total (R$ 520–550 bilhões em 2025/2026), a conta chega perto de R$ 280 por mês por dependente do SUS. É mais do que muita gente paga num plano popular — só que, aqui, o "cliente" não escolheu, não vê a fatura, e ainda pega fila.

Por que "quantas pessoas o SUS atendeu" não fecha exato. Não existe dado oficial de CPF por CPF de "usuários únicos" num ano — a mesma pessoa tem dezenas de atendimentos. O que o governo divulga é que 76% da população (~162 milhões) depende diretamente do SUS e que o sistema faz 2,8 bilhões de atendimentos por ano. Por isso a base de ~160 milhões é a mais defensável para a conta per capita — e é a que usamos.

Capítulo 03O mapa do gasto: estado por estado × PIB

Aqui aparece uma das coisas mais reveladoras dos números do SUS. Os estados que menos produzem riqueza são, muitas vezes, os que mais gastam em saúde por habitante — porque a economia local não sustenta o sistema, quem sustenta é o repasse federal.

A tabela abaixo cruza, para as 27 unidades da federação, a população (IBGE, 2024) e a participação de cada estado no PIB nacional (IBGE, Contas Regionais 2023). Ordenada da maior para a menor economia.

UFPopulação (2024)% do PIB nacionalGasto/hab./ano (2023)
São Paulo45,97 mi31,5%R$ 757
Rio de Janeiro17,22 mi10,7%R$ 618
Minas Gerais21,32 mi8,9%R$ 661
Paraná11,82 mi6,1%R$ 735
Rio Grande do Sul11,23 mi5,9%R$ 660
Santa Catarina8,06 mi4,7%R$ 917
Bahia14,85 mi3,9%R$ 674
Distrito Federal2,98 mi3,3%n/d*
Goiás7,35 mi3,1%R$ 696
Mato Grosso3,84 mi2,5%R$ 1.110
Pernambuco9,54 mi2,5%R$ 915
Pará8,66 mi2,3%R$ 595
Ceará9,23 mi2,1%R$ 671
Espírito Santo4,10 mi1,9%R$ 1.108
Mato Grosso do Sul2,90 mi1,7%R$ 860
Amazonas4,28 mi1,5%R$ 1.121
Maranhão7,01 mi1,4%R$ 594
Rio Grande do Norte3,45 mi0,9%R$ 730
Paraíba4,15 mi0,9%R$ 670
Alagoas3,22 mi0,8%R$ 774
Piauí3,38 mi0,7%R$ 782
Rondônia1,75 mi0,7%R$ 1.254
Tocantins1,58 mi0,6%R$ 1.741
Sergipe2,29 mi0,6%R$ 989
Amapá0,80 mi0,3%R$ 2.034
Acre0,88 mi0,2%R$ 2.023
Roraima0,72 mi0,2%R$ 2.220
Média Brasil212,6 mi100%R$ 768

A riqueza é concentradíssima

São Paulo, Rio e Minas somam 51% de todo o PIB do Brasil. As regiões Norte e Nordeste inteiras, com dezenas de milhões de habitantes, não chegam a 19%. Onde há menos economia, há menos arrecadação estadual e municipal — e menos dinheiro próprio para a saúde.

O padrão invertido

Justamente os estados de menor PIB (Roraima, Tocantins, Acre, Amapá — todos com 0,6% ou menos) aparecem entre os de maior gasto público em saúde por habitante. Não é a economia local pagando: é a transferência federal do SUS segurando o sistema onde a riqueza não chega.

A leitura da coluna: quem menos produz é quem mais gasta por pessoa

Com o gasto por habitante ao lado do PIB, o padrão fica gritante. Os campeões de gasto per capita são justamente os estados de menor PIB: Roraima (R$ 2.220), Amapá (R$ 2.034) e Acre (R$ 2.023) — todos com 0,3% ou menos da economia nacional. No fundo da lista estão Maranhão e Pará (~R$ 594), seguidos de perto por gigantes como Minas e Rio de Janeiro. A média do Brasil foi de R$ 768 por habitante em 2023.

Roraima gasta por habitante quase quatro vezes o que o Pará gasta — e recebe o maior repasse federal por pessoa do país. Não é a economia local pagando essa conta: é a transferência federal do SUS segurando o sistema onde a riqueza não chega. Traduzindo: quanto mais pobre o estado, mais dependente do dinheiro da União para manter o SUS de pé. Um corte de repasse federal, que já banca só ~38% do total nacional, atinge primeiro e mais forte quem tem menos.

Sobre a coluna "gasto/hab./ano". É a despesa total com saúde por habitante (recursos das três esferas somados — próprios do estado + transferências da União + municípios) em 2023, extraída direto do SIOPS/DATASUS — a mesma métrica para as 26 UFs. *O Distrito Federal aparece como "n/d" por um motivo estrutural: como não possui municípios, ele não entra na série estadual nem na municipal do SIOPS, e por isso não há valor publicado nessa mesma métrica. A população é a estimativa IBGE de 2024 e a participação no PIB é de 2023 (Contas Regionais) — anos próximos, mas distintos.

Capítulo 04Quem não usa o SUS — e se isso está mudando

Para saber quem depende do SUS, é preciso saber quem tem plano. E o número de brasileiros com plano de saúde conta uma história econômica do país inteiro: sobe quando a renda sobe, despenca na recessão, e voltou a bater recorde.

53,2 micom plano médico-hospitalar (dez/2025)
~26%da população — taxa de cobertura
~74%dependem só do SUS (3 em cada 4)

A cobertura de planos ao longo dos anos

Beneficiários de planos de saúde médico-hospitalares, em milhões, no fim de cada ano. Repare no pico de 2014, na queda da recessão e na retomada até o recorde de 2025:

37,2
2006
44,9
2010
50,4
2014
47,7
2016
47,0
2019
49,3
2021
51,1
2023
52,2
2024
53,2
2025
Beneficiários de planos médico-hospitalares (milhões) — Fonte: ANS. Em dourado, o pico de 2014; em vermelho, o fundo do poço de 2019.

A leitura da curva é uma aula de economia: o número cresceu sem parar de 2006 (37 milhões) até o pico de 2014 (50,4 milhões). Aí veio a recessão de 2015–2016 e 3 milhões de pessoas perderam o plano — porque plano de saúde é a primeira coisa que cai quando o desemprego sobe. O fundo foi 2019 (47 milhões). Desde 2020 a recuperação foi consistente, e 2023, 2024 e 2025 bateram recordes sucessivos. Está aumentando — mas devagar: mesmo no recorde, a cobertura é de só ~26% da população. Três em cada quatro brasileiros seguem dependendo exclusivamente do SUS.

Onde estão os planos

A cobertura é profundamente desigual pelo mapa. Ter plano é quase um privilégio do Sudeste:

UFCobertura por planos (2023)
São Paulo40,8%
Rio de Janeiro34,9%
Distrito Federal33,2%
Espírito Santo33,0%
Média nacional24,9%
Norte e Nordeste (maioria)abaixo de 15%

Só cinco estados e o DF ficam acima da média — todos no Sudeste/Sul. No Norte e Nordeste, onde o plano é raro, a dependência do SUS é quase total. É a mesma geografia do PIB: onde falta renda, falta plano, e sobra SUS.

Capítulo 05O que o SUS faz com esse dinheiro

Antes de dizer que "é caro", é justo mostrar o tamanho da máquina. Com ~4% do PIB, o SUS opera o maior sistema público e universal de saúde do planeta — o único do mundo a cobrir mais de 190 milhões de pessoas.

2,8 bilhõesatendimentos por ano
3,5 milhõesprofissionais de saúde
~52 milequipes de Saúde da Família (~70% da população)
13,7 milhõescirurgias eletivas em 2024 (recorde)
1,1 bilhãoexames em 2023
~14 milhõesinternações por ano
953 milhõesconsultas com especialistas (2023)
+300 milhõesdoses de vacina por ano (maior do mundo)
31 miltransplantes em 2025 (recorde)

O SUS realiza 87% a 95% de todos os transplantes do país — é o maior programa público de transplantes do mundo, e o Brasil é o segundo país que mais transplanta em volume, atrás só dos EUA. Aplica mais vacinas do que qualquer outro país. Banca a hemodiálise, a quimioterapia, o parto, o SAMU, a vigilância sanitária que libera o alimento no supermercado e o remédio na farmácia. Para efeito de comparação, o gasto federal só com tratamentos especializados (câncer, transplante, diálise) passou de R$ 74 bilhões.

O outro lado do "maior do mundo"

Ser o maior sistema universal com o menor orçamento relativo tem um preço: a máquina roda no limite. Faz 2,8 bilhões de atendimentos, mas com filas que não andam; bate recorde de cirurgias, e a fila de espera cresce mais rápido do que a capacidade de zerá-la. É essa tensão — muita produção, financiamento apertado — que aparece nos dois próximos capítulos.

Capítulo 06A tabela que não paga a conta

Quando um hospital privado ou filantrópico atende pelo SUS, ele recebe segundo a "Tabela SUS" (o SIGTAP). O problema: boa parte desses valores está congelada há mais de duas décadas. É por isso que meio SUS é feito por hospitais que vivem à beira da falência.

A Tabela SUS define quanto o sistema paga por cada procedimento. Muitos valores não são reajustados desde os anos 2000. Segundo o Conselho Federal de Medicina, 84% dos procedimentos que preveem pagamento ao profissional não tiveram reajuste na década de 2012–2022. O resultado são valores que beiram o surreal quando comparados ao custo real ou ao que um plano paga:

ProcedimentoTabela SUS pagaCusto real / plano
Consulta médicaR$ 10,00R$ 76 (plano)
Raio-X de tóraxmenos de R$ 7~R$ 36
Cirurgia de vesículaR$ 447~R$ 2.000
Retirada de cateterR$ 5,34R$ 928 (referência CBHPM)
Retirada de linfonodoR$ 19,45R$ 3.280 (referência CBHPM)
Parto normal (honorário)R$ 175,80R$ 3.132 (referência CBHPM)
Tratamento de AVC (internação até 7 dias)R$ 9,20

Atenção: os valores mais baixos (R$ 10, R$ 5,34) referem-se ao honorário do médico isolado; o procedimento completo soma serviços hospitalares. Ainda assim, a defasagem chega a passar de 1.000% em relação à tabela de referência da categoria médica.

O rombo das Santas Casas

Os hospitais filantrópicos (Santas Casas) fazem 50% da média complexidade e 70% da alta complexidade do SUS — quase metade de todas as cirurgias e internações. E estão quebrando por causa da tabela: a dívida do setor saltou de R$ 1,5 bilhão (2005) para R$ 21 bilhões. Desde 2015, 315 hospitais filantrópicos fecharam, e 83% das Santas Casas vivem crise financeira que já prejudica o atendimento. A cada R$ 100 de custo, muitas recebem cerca de R$ 65 do SUS.

O que mudou (pouco) recentemente

Capítulo 07As filas: quantos milhões esperam algo do SUS

É onde o custo alto e o financiamento apertado se encontram na pele das pessoas. Somando as principais filas, milhões de brasileiros estão, neste momento, esperando uma consulta, um exame, uma cirurgia — ou um órgão.

A fila de transplantes: 66,5 mil pessoas

Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (ABTO), em setembro de 2024 havia 66.517 pacientes ativos na lista de espera nacional — 13% a mais que no ano anterior. Rim e córnea concentram 97% da fila:

Rim
36.642
Córnea
27.645
Fígado
1.384
Coração
361
Pâncreas/Rim
283
Pulmão
190
Pacientes ativos na fila de transplante por órgão — Fonte: ABTO/RBT, setembro de 2024.

A fila de transplante cresceu de ~50 mil (2022) para 66,5 mil (2024). O tempo médio de espera por um rim é de 1,5 a 1,8 ano; a fila de córnea quase triplicou em dez anos. E, o dado mais duro: cerca de 3 mil brasileiros morrem por ano na fila de transplante — no auge da pandemia, foram mais de 4.200 mortes em 2021, cerca de 9 por dia.

A fila de cirurgias, exames e consultas: milhões

1,3 milhãona fila de cirurgia eletiva (2024)
57 diasespera média por consulta especializada
até 2 anosde espera no pior caso

Em 2024, cerca de 1,3 milhão de brasileiros aguardavam cirurgia eletiva no SUS — fila que cresceu 26% em relação a 2023, apesar do recorde de cirurgias realizadas. São Paulo e Minas concentram quase metade. A espera média por uma consulta com especialista chegou a 57 dias — maior do que durante a pandemia — e em casos extremos passa de dois anos. A pandemia deixou um legado pesado: cerca de 1 milhão de cirurgias eletivas foram adiadas ou canceladas em 2020–2021, represamento que o país ainda tenta drenar.

O governo correu — e a fila cresceu mesmo assim

O Programa Nacional de Redução de Filas (2023) investiu R$ 600 milhões em 2023 e R$ 1,2 bilhão em 2024, e bateu recordes: 648 mil cirurgias em 2023 e mais de 1,25 milhão em 2024. Ainda assim, a fila de espera aumentou 26%. A lição é incômoda: o SUS operou mais que nunca, mas a demanda represada cresce mais rápido que a capacidade de atender. Enxugar gelo com um financiamento de 4% do PIB.

Sobre a soma. Não há um número oficial único que some cirurgias + exames + consultas nacionalmente — o próprio Ministério da Saúde reconhece um "apagão de dados", com metade dos estados enviando informação incompleta. O "1,3 milhão" na fila de cirurgia vem dos planos estaduais declarados e é a melhor estimativa disponível, não um censo fechado. O dado de transplantes (66.517), esse sim, é primário e auditado pela ABTO.

FechamentoCaro, subfinanciado e insubstituível

As duas afirmações que parecem se contradizer são, as duas, verdadeiras: o SUS custa caro e o SUS é mal financiado. Entender por que exige aceitar as duas ao mesmo tempo.

Por que é caro

Meio trilhão de reais por ano. R$ 265 por mês para cada dependente do sistema — mais do que muitos planos populares. Um custo que sai de todos nós, via imposto, e que muita gente que paga jamais vai usar, porque tem convênio. É dinheiro de verdade, e é bom que se cobre o resultado dele.

Por que falta

4% do PIB é metade do que a França ou o Reino Unido gastam de dinheiro público. O Brasil é o único país com sistema universal em que o Estado banca a menor parte da conta de saúde. A tabela de reembolso está congelada, as Santas Casas devem R$ 21 bilhões, e a fila de cirurgia cresce mesmo com recorde de cirurgias. O sistema promete tudo a todos com o orçamento de quem só pode prometer o básico.

Um SUS mais barato de verdade não é o que corta o orçamento — é o que gasta melhor: menos desperdício, menos judicialização, mais atenção primária que evita a internação cara lá na frente, uma tabela que não empurre metade da rede para a falência. Mas há um ponto que nenhum número dilui, e é onde esta reportagem termina como começou:

Para os 160 milhões de brasileiros que não têm plano, o SUS não é caro nem barato — é a única coisa que existe. É a vacina do filho, o parto, a quimioterapia, o transplante que ninguém mais vai pagar. Cobrar eficiência do SUS é dever de quem paga a conta. Mas fingir que dá para viver sem ele é privilégio de quem nunca precisou. Para quem não tem condição, é isso ou nada — e "nada" não é uma política de saúde.

TransparênciaFontes dos dados

Todos os números desta reportagem vêm de fontes oficiais ou de entidades do setor. Onde havia estimativa ou defasagem de ano, isso foi sinalizado no texto.

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