Quanto o Brasil gasta em saúde pública, quanto isso dá por habitante todo mês, por que os estados mais pobres gastam mais por pessoa, e por que — mesmo custando tanto — a fila tem 66 mil pessoas esperando um órgão e 1,3 milhão esperando cirurgia. Uma conta feita com dados oficiais.
Perguntar "quanto custa o SUS?" parece pergunta de resposta única. Não é. O dinheiro sai de três lugares diferentes — União, estados e municípios — e o número muda conforme quem você conta como "usuário". Esta reportagem faz a conta do jeito mais honesto possível: o gasto público total de saúde dividido por quem realmente depende do sistema. O resultado incomoda dos dois lados.
O Brasil gasta hoje na casa de meio trilhão de reais por ano em saúde pública. Isso dá cerca de R$ 265 por mês para cada um dos 160 milhões de brasileiros que não têm plano de saúde e dependem exclusivamente do SUS. É muito dinheiro — e, ao mesmo tempo, é pouco: como fatia do PIB, o Brasil gasta em saúde pública menos da metade do que países europeus com sistema universal. É por isso que a conta é alta e a fila não anda ao mesmo tempo.
Para quem tem plano, o SUS é o backup: a vacina, o samu, a vigilância sanitária, o transplante e a rede de urgência que salvam quando o convênio nega ou não cobre. Para 160 milhões de brasileiros, o SUS não é backup nem "uma opção" — é a única coisa que existe. É caro. Mas para quem não tem condição, é isso ou nada.
O custo do SUS não é o orçamento do Ministério da Saúde. É a soma do que União, estados e municípios aplicam em Ações e Serviços Públicos de Saúde (ASPS). E são três esferas pagando pedaços diferentes da conta.
O último ano com número fechado e auditado das três esferas é 2022: R$ 403,8 bilhões em ASPS, segundo o SIOPS/IPEA (a Conta-Satélite do IBGE, por outra metodologia, aponta R$ 429,4 bilhões de gasto público em saúde no mesmo ano). De lá para cá, o gasto só cresceu: o orçamento federal sozinho saltou de R$ 168 bilhões (2023) para R$ 218 bilhões (2024), R$ 246 bilhões (2025) e R$ 271 bilhões aprovados para 2026 — impulsionado pelo fim do teto de gastos e pela volta do piso constitucional de 15% da receita corrente líquida. Somando as três esferas, especialistas estimam o total de 2025/2026 na faixa de R$ 520 a R$ 550 bilhões por ano. É esse "meio trilhão" que usamos como referência.
Ao contrário do que muita gente pensa, a União não banca a maior parte. Em 2022, a repartição da despesa total foi assim:
| Esfera | Participação (2022) | Tendência histórica |
|---|---|---|
| União (governo federal) | 37,6% | Caindo: era 45% em 2012 e 52% em 2002 |
| Municípios | 34,0% | Subindo — cada vez mais no colo das prefeituras |
| Estados e DF | 28,4% | Estável, muitos abaixo do mínimo legal |
A leitura política é direta: ao longo de 20 anos, a União foi transferindo o peso do SUS para estados e municípios. Hoje quem sustenta o dia a dia da saúde — o posto, a UBS, o pronto-socorro municipal — é, em boa medida, a prefeitura da sua cidade.
Aqui está o paradoxo central do SUS. O gasto público em saúde do Brasil é de cerca de 4% do PIB — um dos menores da OCDE, à frente só do México. Países com sistema universal de verdade gastam muito mais dinheiro público:
| País / sistema | Gasto público em saúde (% do PIB) |
|---|---|
| França | ~9% |
| Alemanha (participação pública ~85%) | ~8%+ |
| Reino Unido (NHS, ~83% público) | ~7,6% |
| Brasil (SUS) | ~4% |
O Brasil é praticamente o único país do mundo com sistema universal em que o gasto público é minoritário no total gasto em saúde. Somando público e privado, o país gasta 9,4% do PIB em saúde (R$ 946 bilhões em 2022) — mas o governo banca só ~45% disso. Os outros 55% saem do bolso das famílias e dos planos. Ou seja: o SUS promete cobrir 100% da população com o dinheiro de um sistema que gasta metade do que os europeus gastam. É a raiz de a conta ser alta para o cofre público e, ainda assim, faltar em toda parte.
Agora a conta que o cidadão quer ver: quanto o SUS custa por pessoa, por mês. A resposta depende de uma escolha metodológica decisiva — você divide pela população inteira, ou só por quem realmente depende do SUS?
Se você pega o gasto público total e divide pelos 212,6 milhões de brasileiros, chega a um número baixo — porque inclui os 53 milhões que têm plano e usam pouco o sistema público:
Mas quem tem plano de saúde usa muito menos o SUS. O justo é tirar essas pessoas da conta. Segundo a ANS, 53,2 milhões de brasileiros tinham plano médico-hospitalar em dezembro de 2025. Sobra a base que realmente vive do SUS:
O contraste é o ponto: quando você desconta quem tem plano, o custo real de cada usuário do SUS pula de R$ 199 para R$ 265 por mês — um terço a mais. E se usarmos a estimativa mais atual do gasto total (R$ 520–550 bilhões em 2025/2026), a conta chega perto de R$ 280 por mês por dependente do SUS. É mais do que muita gente paga num plano popular — só que, aqui, o "cliente" não escolheu, não vê a fatura, e ainda pega fila.
Aqui aparece uma das coisas mais reveladoras dos números do SUS. Os estados que menos produzem riqueza são, muitas vezes, os que mais gastam em saúde por habitante — porque a economia local não sustenta o sistema, quem sustenta é o repasse federal.
A tabela abaixo cruza, para as 27 unidades da federação, a população (IBGE, 2024) e a participação de cada estado no PIB nacional (IBGE, Contas Regionais 2023). Ordenada da maior para a menor economia.
| UF | População (2024) | % do PIB nacional | Gasto/hab./ano (2023) |
|---|---|---|---|
| São Paulo | 45,97 mi | 31,5% | R$ 757 |
| Rio de Janeiro | 17,22 mi | 10,7% | R$ 618 |
| Minas Gerais | 21,32 mi | 8,9% | R$ 661 |
| Paraná | 11,82 mi | 6,1% | R$ 735 |
| Rio Grande do Sul | 11,23 mi | 5,9% | R$ 660 |
| Santa Catarina | 8,06 mi | 4,7% | R$ 917 |
| Bahia | 14,85 mi | 3,9% | R$ 674 |
| Distrito Federal | 2,98 mi | 3,3% | n/d* |
| Goiás | 7,35 mi | 3,1% | R$ 696 |
| Mato Grosso | 3,84 mi | 2,5% | R$ 1.110 |
| Pernambuco | 9,54 mi | 2,5% | R$ 915 |
| Pará | 8,66 mi | 2,3% | R$ 595 |
| Ceará | 9,23 mi | 2,1% | R$ 671 |
| Espírito Santo | 4,10 mi | 1,9% | R$ 1.108 |
| Mato Grosso do Sul | 2,90 mi | 1,7% | R$ 860 |
| Amazonas | 4,28 mi | 1,5% | R$ 1.121 |
| Maranhão | 7,01 mi | 1,4% | R$ 594 |
| Rio Grande do Norte | 3,45 mi | 0,9% | R$ 730 |
| Paraíba | 4,15 mi | 0,9% | R$ 670 |
| Alagoas | 3,22 mi | 0,8% | R$ 774 |
| Piauí | 3,38 mi | 0,7% | R$ 782 |
| Rondônia | 1,75 mi | 0,7% | R$ 1.254 |
| Tocantins | 1,58 mi | 0,6% | R$ 1.741 |
| Sergipe | 2,29 mi | 0,6% | R$ 989 |
| Amapá | 0,80 mi | 0,3% | R$ 2.034 |
| Acre | 0,88 mi | 0,2% | R$ 2.023 |
| Roraima | 0,72 mi | 0,2% | R$ 2.220 |
| Média Brasil | 212,6 mi | 100% | R$ 768 |
São Paulo, Rio e Minas somam 51% de todo o PIB do Brasil. As regiões Norte e Nordeste inteiras, com dezenas de milhões de habitantes, não chegam a 19%. Onde há menos economia, há menos arrecadação estadual e municipal — e menos dinheiro próprio para a saúde.
Justamente os estados de menor PIB (Roraima, Tocantins, Acre, Amapá — todos com 0,6% ou menos) aparecem entre os de maior gasto público em saúde por habitante. Não é a economia local pagando: é a transferência federal do SUS segurando o sistema onde a riqueza não chega.
Com o gasto por habitante ao lado do PIB, o padrão fica gritante. Os campeões de gasto per capita são justamente os estados de menor PIB: Roraima (R$ 2.220), Amapá (R$ 2.034) e Acre (R$ 2.023) — todos com 0,3% ou menos da economia nacional. No fundo da lista estão Maranhão e Pará (~R$ 594), seguidos de perto por gigantes como Minas e Rio de Janeiro. A média do Brasil foi de R$ 768 por habitante em 2023.
Roraima gasta por habitante quase quatro vezes o que o Pará gasta — e recebe o maior repasse federal por pessoa do país. Não é a economia local pagando essa conta: é a transferência federal do SUS segurando o sistema onde a riqueza não chega. Traduzindo: quanto mais pobre o estado, mais dependente do dinheiro da União para manter o SUS de pé. Um corte de repasse federal, que já banca só ~38% do total nacional, atinge primeiro e mais forte quem tem menos.
Para saber quem depende do SUS, é preciso saber quem tem plano. E o número de brasileiros com plano de saúde conta uma história econômica do país inteiro: sobe quando a renda sobe, despenca na recessão, e voltou a bater recorde.
Beneficiários de planos de saúde médico-hospitalares, em milhões, no fim de cada ano. Repare no pico de 2014, na queda da recessão e na retomada até o recorde de 2025:
A leitura da curva é uma aula de economia: o número cresceu sem parar de 2006 (37 milhões) até o pico de 2014 (50,4 milhões). Aí veio a recessão de 2015–2016 e 3 milhões de pessoas perderam o plano — porque plano de saúde é a primeira coisa que cai quando o desemprego sobe. O fundo foi 2019 (47 milhões). Desde 2020 a recuperação foi consistente, e 2023, 2024 e 2025 bateram recordes sucessivos. Está aumentando — mas devagar: mesmo no recorde, a cobertura é de só ~26% da população. Três em cada quatro brasileiros seguem dependendo exclusivamente do SUS.
A cobertura é profundamente desigual pelo mapa. Ter plano é quase um privilégio do Sudeste:
| UF | Cobertura por planos (2023) |
|---|---|
| São Paulo | 40,8% |
| Rio de Janeiro | 34,9% |
| Distrito Federal | 33,2% |
| Espírito Santo | 33,0% |
| Média nacional | 24,9% |
| Norte e Nordeste (maioria) | abaixo de 15% |
Só cinco estados e o DF ficam acima da média — todos no Sudeste/Sul. No Norte e Nordeste, onde o plano é raro, a dependência do SUS é quase total. É a mesma geografia do PIB: onde falta renda, falta plano, e sobra SUS.
Antes de dizer que "é caro", é justo mostrar o tamanho da máquina. Com ~4% do PIB, o SUS opera o maior sistema público e universal de saúde do planeta — o único do mundo a cobrir mais de 190 milhões de pessoas.
O SUS realiza 87% a 95% de todos os transplantes do país — é o maior programa público de transplantes do mundo, e o Brasil é o segundo país que mais transplanta em volume, atrás só dos EUA. Aplica mais vacinas do que qualquer outro país. Banca a hemodiálise, a quimioterapia, o parto, o SAMU, a vigilância sanitária que libera o alimento no supermercado e o remédio na farmácia. Para efeito de comparação, o gasto federal só com tratamentos especializados (câncer, transplante, diálise) passou de R$ 74 bilhões.
Ser o maior sistema universal com o menor orçamento relativo tem um preço: a máquina roda no limite. Faz 2,8 bilhões de atendimentos, mas com filas que não andam; bate recorde de cirurgias, e a fila de espera cresce mais rápido do que a capacidade de zerá-la. É essa tensão — muita produção, financiamento apertado — que aparece nos dois próximos capítulos.
Quando um hospital privado ou filantrópico atende pelo SUS, ele recebe segundo a "Tabela SUS" (o SIGTAP). O problema: boa parte desses valores está congelada há mais de duas décadas. É por isso que meio SUS é feito por hospitais que vivem à beira da falência.
A Tabela SUS define quanto o sistema paga por cada procedimento. Muitos valores não são reajustados desde os anos 2000. Segundo o Conselho Federal de Medicina, 84% dos procedimentos que preveem pagamento ao profissional não tiveram reajuste na década de 2012–2022. O resultado são valores que beiram o surreal quando comparados ao custo real ou ao que um plano paga:
| Procedimento | Tabela SUS paga | Custo real / plano |
|---|---|---|
| Consulta médica | R$ 10,00 | R$ 76 (plano) |
| Raio-X de tórax | menos de R$ 7 | ~R$ 36 |
| Cirurgia de vesícula | R$ 447 | ~R$ 2.000 |
| Retirada de cateter | R$ 5,34 | R$ 928 (referência CBHPM) |
| Retirada de linfonodo | R$ 19,45 | R$ 3.280 (referência CBHPM) |
| Parto normal (honorário) | R$ 175,80 | R$ 3.132 (referência CBHPM) |
| Tratamento de AVC (internação até 7 dias) | R$ 9,20 | — |
Atenção: os valores mais baixos (R$ 10, R$ 5,34) referem-se ao honorário do médico isolado; o procedimento completo soma serviços hospitalares. Ainda assim, a defasagem chega a passar de 1.000% em relação à tabela de referência da categoria médica.
Os hospitais filantrópicos (Santas Casas) fazem 50% da média complexidade e 70% da alta complexidade do SUS — quase metade de todas as cirurgias e internações. E estão quebrando por causa da tabela: a dívida do setor saltou de R$ 1,5 bilhão (2005) para R$ 21 bilhões. Desde 2015, 315 hospitais filantrópicos fecharam, e 83% das Santas Casas vivem crise financeira que já prejudica o atendimento. A cada R$ 100 de custo, muitas recebem cerca de R$ 65 do SUS.
É onde o custo alto e o financiamento apertado se encontram na pele das pessoas. Somando as principais filas, milhões de brasileiros estão, neste momento, esperando uma consulta, um exame, uma cirurgia — ou um órgão.
Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (ABTO), em setembro de 2024 havia 66.517 pacientes ativos na lista de espera nacional — 13% a mais que no ano anterior. Rim e córnea concentram 97% da fila:
A fila de transplante cresceu de ~50 mil (2022) para 66,5 mil (2024). O tempo médio de espera por um rim é de 1,5 a 1,8 ano; a fila de córnea quase triplicou em dez anos. E, o dado mais duro: cerca de 3 mil brasileiros morrem por ano na fila de transplante — no auge da pandemia, foram mais de 4.200 mortes em 2021, cerca de 9 por dia.
Em 2024, cerca de 1,3 milhão de brasileiros aguardavam cirurgia eletiva no SUS — fila que cresceu 26% em relação a 2023, apesar do recorde de cirurgias realizadas. São Paulo e Minas concentram quase metade. A espera média por uma consulta com especialista chegou a 57 dias — maior do que durante a pandemia — e em casos extremos passa de dois anos. A pandemia deixou um legado pesado: cerca de 1 milhão de cirurgias eletivas foram adiadas ou canceladas em 2020–2021, represamento que o país ainda tenta drenar.
O Programa Nacional de Redução de Filas (2023) investiu R$ 600 milhões em 2023 e R$ 1,2 bilhão em 2024, e bateu recordes: 648 mil cirurgias em 2023 e mais de 1,25 milhão em 2024. Ainda assim, a fila de espera aumentou 26%. A lição é incômoda: o SUS operou mais que nunca, mas a demanda represada cresce mais rápido que a capacidade de atender. Enxugar gelo com um financiamento de 4% do PIB.
As duas afirmações que parecem se contradizer são, as duas, verdadeiras: o SUS custa caro e o SUS é mal financiado. Entender por que exige aceitar as duas ao mesmo tempo.
Meio trilhão de reais por ano. R$ 265 por mês para cada dependente do sistema — mais do que muitos planos populares. Um custo que sai de todos nós, via imposto, e que muita gente que paga jamais vai usar, porque tem convênio. É dinheiro de verdade, e é bom que se cobre o resultado dele.
4% do PIB é metade do que a França ou o Reino Unido gastam de dinheiro público. O Brasil é o único país com sistema universal em que o Estado banca a menor parte da conta de saúde. A tabela de reembolso está congelada, as Santas Casas devem R$ 21 bilhões, e a fila de cirurgia cresce mesmo com recorde de cirurgias. O sistema promete tudo a todos com o orçamento de quem só pode prometer o básico.
Um SUS mais barato de verdade não é o que corta o orçamento — é o que gasta melhor: menos desperdício, menos judicialização, mais atenção primária que evita a internação cara lá na frente, uma tabela que não empurre metade da rede para a falência. Mas há um ponto que nenhum número dilui, e é onde esta reportagem termina como começou:
Para os 160 milhões de brasileiros que não têm plano, o SUS não é caro nem barato — é a única coisa que existe. É a vacina do filho, o parto, a quimioterapia, o transplante que ninguém mais vai pagar. Cobrar eficiência do SUS é dever de quem paga a conta. Mas fingir que dá para viver sem ele é privilégio de quem nunca precisou. Para quem não tem condição, é isso ou nada — e "nada" não é uma política de saúde.
Todos os números desta reportagem vêm de fontes oficiais ou de entidades do setor. Onde havia estimativa ou defasagem de ano, isso foi sinalizado no texto.