No dia 20 de setembro de 1979, um velho arcebispo celebrava a missa em seu apartamento em Nova York. Comemorava sessenta anos de sacerdócio. Estava combalido e morreria poucos meses depois. Vinte anos antes, trinta milhões de pessoas paravam para ouvi-lo toda terça-feira à noite; naquela manhã, a assistência era de cinco pessoas. É a partir dessa cena discreta que se entende por que, em 24 de setembro de 2026, a Igreja o declarou beato. Não pelo sucesso que teve. Pelo que aconteceu quando o sucesso acabou.
O percurso
Parte I · A ascensãoA altura de onde ele veio
Peter John Sheen nasceu em El Paso, Illinois, em 1895, filho de um agricultor católico. O nome pelo qual o mundo o conheceria foi um acidente escolar: matriculado pelo avô materno, ficou registrado com o sobrenome da mãe, Fulton. Ordenou-se padre em 20 de setembro de 1919 — a mesma data em que, sessenta anos depois, celebraria aquela última missa.
Não era um pároco comum. Fez doutorado em filosofia em Lovaina, na Bélgica, e sua tese, God and Intelligence in Modern Philosophy, saiu com uma introdução de G. K. Chesterton. Foi professor por 24 anos na Universidade Católica da América, em Washington. E tinha uma ambição incomum para um acadêmico: queria falar com o homem moderno, não apenas com os alunos. Para isso, expandiu a sala de aula até o rádio.
Em 1930 começou The Catholic Hour, na rede NBC. Ficou no ar por 22 anos e virou um dos programas mais ouvidos dos Estados Unidos. O talento não passou despercebido. O cardeal Spellman, de Nova York, o quis como bispo auxiliar; Pio XII o sagrou em 1951. E com a mitra veio a televisão.
O novo programa se chamava Life Is Worth Living — "Vale a pena viver a vida". No auge, cerca de 30 milhões de pessoas o assistiam. E ele conseguiu uma façanha improvável. O horário que lhe deram, terça à noite, era chamado nos bastidores de "horário do obituário": significava competir, em canais rivais, com Milton Berle — o "Mr. Television" — e com Frank Sinatra. Era o horário em que ninguém sobrevivia.
Sheen sobreviveu. Mais do que isso: em menos de um ano ganhou o Emmy de personalidade mais destacada da televisão — o Oscar da TV. Um bispo católico, de batina, com um quadro-negro e um anjo invisível que "apagava" o que ele escrevia, hipnotizava um país majoritariamente protestante. O programa ficou no ar de 1952 a 1957.
Parte II · A confissãoA confissão: sacerdote sem ser vítima
Escrevendo a autobiografia quando já estava morrendo — Treasure in Clay, "Tesouro em barro", publicada só depois de sua morte —, Sheen dividiu a própria vida em três partes. Copiou de propósito a abertura de Júlio César: a Gália está dividida em três partes. A primeira foi a vocação. A terceira, aquela em que, segundo ele, aprendeu enfim a conhecer e amar Cristo. E a do meio, a fase da fama, do rádio e da televisão, recebeu um nome duro. Ele a chamou de estaurofobia: do grego staurós, cruz, e fobia, medo. A fase do medo da cruz.
A confissão vem lá pela página 350 da autobiografia, quando ele começa a narrar justamente os anos de glória:
"Eu oferecia a Eucaristia dizendo 'isto é o meu corpo, isto é o meu sangue', apontando para o corpo e o sangue de Cristo. Mas estaria eu dizendo o mesmo de mim mesmo?
Eu era sacerdote. Mas era eu uma vítima?"
Fulton Sheen, Treasure in Clay (1980)Ele detalha o que quer dizer com isso, sem se poupar. Gostava de ser chamado de "padre", achava a palavra "monsenhor" doce como mel. Desfrutava do prestígio de professor, do rádio, da TV, dos aplausos após os discursos e banquetes. Seu rosto entrava em milhões de lares; era reconhecido ao cruzar uma porta giratória. Vestia-se muito bem, e tinha uma justificativa pronta para isso: o embaixador de Cristo devia se apresentar como um gentleman. Anos depois, chamou aquela justificativa pelo nome certo — uma racionalização. E andou de Cadillac por mais de 25 anos.
O detalhe do Cadillac tem uma história curiosa, e ela desarma a caricatura do bispo vaidoso. Sheen não comprava o carro. Um dono de concessionária, a quem dera um bom conselho de negócios sem saber quem era, passou a lhe presentear um Cadillac zero por ano, em gratidão. Ainda assim, ao olhar para trás, Sheen não usou o episódio como desculpa. Usou como acusação contra si mesmo. E foi mais longe: reconheceu que quase nunca jejuara na vida. Chegou a preparar um sermão sobre o jejum, mas nunca o pregou — para não ser hipócrita.
É dele a chave para tudo o que viria depois:
"Como eu não pegava a cruz, o Senhor a colocou sobre os meus ombros, como fez com Simão de Cirene — que mais tarde a amou."
Fulton Sheen, Treasure in ClayParte II · O contrapontoA Hora Santa de sessenta anos
Antes de contar a queda, é preciso registrar um fato que impede qualquer leitura fácil desse homem. Ainda seminarista, a um ano da ordenação, Sheen tomou uma decisão e a manteve pelo resto da vida: passar uma hora por dia, todos os dias, de joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Chamava a isso de Holy Hour, a Hora Santa. Cumpriu-a por sessenta anos.
As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é isso que torna a sua história útil. O mesmo homem que confessa ter sido "sacerdote sem ser vítima" rezou uma hora por dia, sem falhar, durante seis décadas. Aquela oração o mantinha na graça e o fazia crescer. Mas, sozinha, ainda não bastava para levá-lo pela porta estreita. Faltava a cruz. E a cruz chegaria pelas mãos de outros.
Parte III · A quedaO leite em pó que derrubou tudo
Como bispo auxiliar, Sheen era também o responsável nacional pela Propagação da Fé nos Estados Unidos. Arrecadava, com sua fama, milhões de dólares por ano para as missões na África e na Ásia — e destinava a elas boa parte do que ganhava com a televisão. Era, ao mesmo tempo, o rosto e o cofre da caridade católica americana.
Foi um cofre que provocou a ruína. Em 1957, o governo doou uma grande quantidade de leite em pó à Arquidiocese de Nova York. O cardeal Spellman repassou o leite à Propagação da Fé — e, em seguida, cobrou de Sheen o pagamento por ele. Queria fazer caixa com um alimento que recebera de graça. Sheen se recusou: aquele dinheiro era das missões. A disputa foi parar em Roma, diante de Pio XII. E o Papa deu razão a Sheen.
Ganhar daquele modo, porém, saiu caro. Spellman não era homem de perder calado. O que ele disse ao bispo derrotado ficou registrado pelo biógrafo Thomas Reeves:
"Eu vou me acertar com você. Pode levar seis meses ou dez anos. Mas todo mundo vai saber quem você é."
Cardeal Spellman a Fulton Sheen, conforme Thomas Reeves, America's BishopNão levou dez anos. Levou seis meses. No fim de 1957, Sheen perdeu o programa de televisão. A audiência já vinha caindo, é verdade, mas não foi essa a causa. Perdeu também o púlpito da catedral de São Patrício, onde por anos pregara o Sermão das Sete Palavras na Sexta-feira Santa e lotava as naves. O clero de Nova York foi orientado a não procurá-lo. Aos 62 anos, ainda relativamente jovem — morreria aos 84 —, o comunicador mais famoso da Igreja americana ficou sem microfone.
Foi ali, e não diante das câmeras, que começou a terceira fase de sua vida. Tudo o que se vê dele em rádio e TV pertence às duas primeiras. A santidade veio depois, fora do ar.
Parte III · A quedaRochester: o fracasso
Em 1966, passado o Concílio Vaticano II — do qual participou, e onde chegou a trabalhar ao lado de um perito chamado Joseph Ratzinger —, Paulo VI o nomeou bispo de Rochester, cidade sem grande relevo no interior do estado de Nova York. Sheen chegou disposto a aplicar as reformas do Concílio. E errou.
Convém separar as coisas: santo não é quem não erra, é quem não peca. Sheen tomou decisões democráticas — deixou o clero eleger o vigário-geral, por exemplo —, mas era impulsivo. O caso que o afundou envolveu, de novo, a caridade. Havia gente sem teto em Rochester. Havia também uma paróquia subutilizada, Santa Brígida, com casa e salão fechados. Sheen pediu permissão a Roma para doar o terreno ao governo, que ali construiria moradia popular.
A ideia era generosa. A execução, desastrosa. Ele anunciou a doação sem avisar ninguém, numa Quarta-feira de Cinzas. Os padres reagiram com um abaixo-assinado. Estudantes acamparam com cartazes à porta do bispo. Quando ele foi à paróquia de Santa Brígida, o carro saiu apedrejado. Em cinco dias, recuou. E, aos 74 anos, pediu audiência a Paulo VI e renunciou ao cargo — sem qualquer motivo de saúde. Reconheceu que era um grande evangelizador, mas não sabia governar uma diocese. Ficara dois anos e dez meses em Rochester.
Parte IV · A purificaçãoAs pedras de Semei
Sheen tinha um nome para o que viveu dos 62 aos 74 anos: sofrimento impuro. Impuro não por ser pecaminoso, mas por ter rosto humano — o sofrimento que vem das pessoas. E tinha uma imagem para explicá-lo. Um cão apanha de uma bengala e morde a bengala; não entende que a mão é que a move. A bengala eram Spellman, os padres de Rochester, os que atiravam pedras. A mão, dizia ele, era Deus.
Para dar forma a isso, recorria a um episódio bíblico. Quando o rei Davi fugia de Jerusalém, perseguido pelo próprio filho, um homem chamado Semei o seguia atirando pedras e maldições. Um general se ofereceu para matar o insolente. Davi o impediu com uma resposta que Sheen amava: se o Senhor mandou que ele me amaldiçoasse, quem sou eu para impedir?
Não era retórica de autobiografia. Sheen já contava essa história em 1962, numa audiência com João XXIII, em pleno Concílio — ou seja, logo depois do golpe de Spellman, ele já lia a perseguição como obra da mão de Deus. Foi a Hora Santa que o preparou para isso. Oração e sofrimento, décadas de uma e alguns anos do outro, foram esculpindo o santo. E ele não se colocava só como vítima:
"Tenho certeza de que foi Deus quem mandou certas pessoas atirarem pedras em mim. Mas também tenho certeza de que eu atirei pedras nos outros."
Fulton Sheen, Treasure in ClayParte IV · A purificaçãoO peito aberto
Depois do sofrimento com rosto humano veio o que ele chamava de sofrimento puro: o que vinha direto de Deus, sem intermediários. Foi a doença. Em julho de 1977, aos 82 anos, Sheen passou por uma cirurgia de coração a peito aberto — era, à época, a pessoa mais velha a se submeter a ela. Ficou quatro meses internado no hospital Lenox Hill, em Nova York, e recebeu tanto sangue em transfusões que se calculou algo perto de trinta litros.
No auge da fraqueza, não conseguia terminar de cor nem um Pai-Nosso nem uma Ave-Maria. Uma médica, achando que ele delirava em desespero, mandou-lhe um padre psicanalista freudiano para conversar. A ironia era amarga: Sheen lera Freud inteiro e o combatera a vida toda, e agora, agonizando, tinha de suportar o interrogatório de um freudiano à beira do leito.
Foi ali, sem forças, que ele produziu um de seus gestos mais lembrados. Na UTI, ouviu que o paciente do leito ao lado estava morrendo. Sem conseguir levantar o braço, deu a absolvição apenas com um dedo. A viúva, judia, soube do gesto e depois lhe deu uma medalha, em gratidão. Restabelecido o suficiente, montaram um pequeno altar sobre a cama para que ele pudesse voltar a celebrar missa. Numa dessas homilias, disse que o Senhor haveria de nos reconhecer pelas nossas feridas — as chagas obtidas nesta vida por amor a Ele. E esperava que reconhecesse, em seu peito aberto pela cirurgia, uma imagem da lança que perfurou o lado de Cristo.
Parte V · A configuraçãoO segundo olhar
Poucos sabem que o nome de batismo de Sheen era Pedro. Ele fez disso a chave de leitura da própria vida, apoiada em dois olhares de Cristo sobre o apóstolo. O primeiro olhar, à beira do lago, foi a vocação. O segundo, no pátio do sumo sacerdote, depois da negação, foi a misericórdia — o olhar que reergueu Pedro no fundo do poço. Sheen se identificava com esse segundo olhar. Ele dizia: Pedro, eu ainda te amo, mesmo no meio da fraqueza e da incapacidade de rezar.
Havia ainda a lição do silêncio. Cristo respondeu sete vezes como sacerdote e se calou sete vezes como vítima. Sheen quis calar-se do mesmo modo. Em toda a sua autobiografia, não há uma única palavra de queixa contra Spellman, o homem que o derrubou; as poucas vezes em que o cita, é em tom elogioso. A vingança prometida pelo cardeal foi respondida com silêncio.
Para explicar o que Deus fizera com ele, Sheen escolheu uma imagem de Michelangelo. Havia, na praça da catedral de Florença, um enorme bloco de mármore que um escultor começara e abandonara. Ficou largado por décadas, obra inacabada, até que Michelangelo o transformou no Davi. Sheen se via assim: um bloco esquecido por muitos anos, no qual Deus só veio trabalhar de verdade quando chegou a hora da cruz. E lembrava-se de Nossa Senhora: se Deus quis a Imaculada ao pé da cruz, como não quereria ali também um sacerdote?
A cena que abre este texto ganha, então, seu sentido. Em 20 de setembro de 1979, ali estava o homem outrora famosíssimo — sem multidão, sem diocese, sem programa —, celebrando sessenta anos de sacerdócio para cinco pessoas. Mas já configurado a Cristo. E teve seu consolo. Duas semanas depois, em 2 de outubro, João Paulo II visitou Nova York. Na catedral de São Patrício, o próprio Papa perguntou por Sheen, foi até ele e o abraçou. Disse-lhe duas frases que Sheen guardou: que ele havia falado e escrito muito bem sobre Jesus, e que era um filho leal da Igreja.
Sessenta e oito dias depois daquele abraço, Fulton Sheen estava morto. Era 9 de dezembro de 1979, um domingo, no dia seguinte à Imaculada. Naquela noite, por volta das 19h15, ele foi encontrado sem vida diante do Sacrário, na capela onde rezara todos os dias por sessenta anos. Morreu exatamente no lugar de sua Hora Santa.
Parte VI · O reconhecimentoO milagre e a beatificação
A Igreja não beatifica pela fama. Exige a comprovação de um milagre atribuído à intercessão do candidato. No caso de Sheen, o milagre tem nome, data e prontuário médico. Em setembro de 2010, em Illinois, nasceu James Fulton Engstrom sem sinais vitais. O bebê permaneceu 61 minutos sem batimentos cardíacos. Enquanto os médicos tentavam reanimá-lo, a mãe, Bonnie Engstrom, rezava pedindo a intercessão de Fulton Sheen. O coração voltou a bater. Hoje James é um adolescente saudável, sem qualquer sequela — um desfecho que médicos e a comissão do Vaticano classificaram como cientificamente inexplicável.
O caminho até o altar foi longo. Declarado venerável por Bento XVI em 2012, Sheen teve a beatificação anunciada para 2019 e então adiada. Ela finalmente aconteceu em 24 de setembro de 2026, na diocese de Peoria, Illinois — a mesma região onde ele nasceu. Reuniu cerca de 50 mil pessoas. Presidiu a cerimônia, em nome do Papa Leão XIV, o cardeal Luis Antonio Tagle.
O próximo passo, a canonização, dependerá de um segundo milagre reconhecido, ocorrido depois da beatificação. A fundação que cuida de sua causa já examina seis casos possíveis — entre eles curas de câncer e a recuperação de outro recém-nascido em estado crítico.
O que a vida dele ensina
Fica a lição que Sheen tirou da própria história, e que vale mesmo para quem não reza. Ele dizia que muitas vezes um padre abre o sacrário quase esquecido da presença que está ali. Mas insistia que vale a pena permanecer, mesmo sem sentir nada — como um cão fica ao pé do dono, porque sabe que precisa estar ali. Um dia, dizia ele, o Senhor pode ter misericórdia de nós e nos dar a cruz, como deu a Simão de Cirene. A cruz que Simão, no fim, aprendeu a amar.
A fonte
A reflexão do Padre Paulo Ricardo sobre a santidade de Fulton Sheen, feita no dia da beatificação. Este artigo parte dela e a cruza com as biografias e o noticiário.
Nota sobre fontes
A espinha da narrativa vem da reflexão do Padre Paulo Ricardo Como Fulton Sheen se santificou? (2026), apoiada nas duas grandes obras sobre o arcebispo: sua autobiografia Treasure in Clay ("Tesouro em barro", publicada postumamente em 1980) e a biografia de Thomas Reeves, America's Bishop: The Life and Times of Fulton J. Sheen.
As citações em destaque — "eu era sacerdote, mas era eu uma vítima?", a cruz posta como a Simão de Cirene, as pedras de Semei e a ameaça do cardeal Spellman — reproduzem o sentido dos trechos dessas obras, tal como lidos e traduzidos na reflexão. Não são transcrições oficiais de uma edição brasileira.
Os dados da beatificação — data de 24 de setembro de 2026, a diocese de Peoria, o público de cerca de 50 mil pessoas, o cardeal Tagle em nome de Leão XIV e o milagre de James Fulton Engstrom (nascido em 2010, 61 minutos sem batimentos) — seguem a reportagem da Gazeta do Povo e o material da causa de canonização.