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História · Mediterrâneo · Geopolítica

Ceuta — Sete Séculos entre a Cruz e o Crescente

Nos Pilares de Hércules, uma língua de terra africana onde a Europa toca o continente vizinho conta, em pedra e sangue, a história de todos os que dominaram o Estreito de Gibraltar — dos fenícios à Espanha de hoje.

Vista ao nível do mar através do Estreito de Gibraltar: no horizonte, o Jebel Musa, o Pilar de Hércules africano que domina Ceuta.
As Colunas de Hércules, reais. Do lado europeu, o olhar cruza os 14 km do Estreito de Gibraltar e encontra, no horizonte, o Jebel Musa — o pilar africano que se ergue ao lado de Ceuta. Era aqui que, para os antigos, terminava o mundo.
Foto: Ypsilon from Finland / Wikimedia Commons · CC0 (domínio público)

"Onde termina a terra e começa o mar, ali estão as colunas que o herói ergueu para dizer aos homens: até aqui, e não mais além." Sobre os Pilares de Hércules, na tradição greco-romana

Há lugares no mundo cuja importância não vem do que eles são, mas de onde eles estão. Ceuta é um desses lugares. Uma península minúscula fincada na costa da África, a poucos quilômetros da Europa, guardando a porta estreita por onde o Mediterrâneo se encontra com o Atlântico. Quem controla Ceuta controla a passagem — e por isso, ao longo de quase três mil anos, quase todo poder que sonhou dominar o mar quis dominar esta rocha. Fenícios, cartagineses, romanos, bizantinos, árabes, berberes, portugueses e espanhóis passaram por aqui, cada um deixando uma camada. Hoje, Ceuta é uma cidade espanhola em solo africano — e continua sendo, como sempre foi, um dos pontos mais disputados do mundo. Esta é a sua história, desde a fonte mais antiga.

Onde fica Ceuta — o Estreito de Gibraltar

Os dois "Pilares de Hércules": Gibraltar, no lado europeu, e Ceuta, no lado africano. Entre eles, apenas 14 km de mar separam dois continentes. Mapa interativo — arraste e amplie.

Os donos de Ceuta — do início até hoje

Quase três mil anos, uma só vocação: guardar a porta entre o Mediterrâneo e o Atlântico.

séc. VII a.C.FeníciosFundam a Abyla
séc. VI–III a.C.CartagoRede comercial púnica
42 d.C.RomaSeptem Fratres
séc. VVândalosReino germânico
534BizâncioBelisário; Ceuta cristã
711–1415IslãOmíadas, almorávidas, almóadas e marínidas
1415PortugalD. João I; nasce o Império
1668 → hojeEspanhaCidade Autônoma desde 1995

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1 A rocha dos deuses: fenícios e os Pilares de Hércules

A fonte mais antiga sobre Ceuta não é um documento, é a própria geografia. Os gregos e os romanos acreditavam que o mundo conhecido terminava ali, no Estreito, onde Hércules teria rachado uma montanha em duas para separar a Europa da África. As duas metades ficaram conhecidas como os Pilares de Hércules: de um lado o rochedo de Gibraltar; do outro, o monte que domina Ceuta — para uns o Monte Hacho, para outros o vizinho Jebel Musa. Era o fim do mundo, a fronteira do desconhecido, o non plus ultra ("não mais além") que depois a Espanha imperial inverteria em seu lema, plus ultra, "sempre mais além".

A história documentada começa com os grandes navegadores da Antiguidade. Por volta do século VII a.C., marinheiros fenícios — o povo comerciante que fundou colônias por todo o Mediterrâneo — estabeleceram um entreposto na península. Chamaram-no Abyla, palavra que provavelmente designava a "montanha alta" que servia de referência aos barcos que cruzavam o Estreito. Depois dos fenícios vieram os cartagineses, herdeiros de sua rede comercial, e a colônia passou à órbita de Cartago. Sempre a mesma lógica: quem quer negociar entre o Mediterrâneo e o Atlântico precisa de um pé na garganta do mundo.

Imagem de satélite do Estreito de Gibraltar mostrando a Península Ibérica ao norte e o norte da África ao sul.
O Estreito visto do espaço. A fina faixa de mar que separa a Europa (acima) da África (abaixo) e liga o Mediterrâneo ao Atlântico. Nas duas margens desse funil estão os Pilares de Hércules — e, no lado africano, Ceuta.
Imagem: NASA Earth Observatory · domínio público

2 Roma: Septem Fratres, a cidade das sete colinas

Com a derrota de Cartago, o Estreito acabou nas mãos de Roma. Em 42 d.C., sob o imperador Cláudio, a região foi incorporada ao Império e integrada à província da Mauritânia Tingitana (capital em Tingis, a atual Tânger). Os romanos deram à cidade o nome que atravessaria os séculos: Septem Fratres — "Sete Irmãos" —, uma referência às sete colinas que formam a península. Com o tempo, Septem encurtou-se para Septa, e é dessa palavra que nasce o nome atual: Ceuta.

Roma manteve ali uma guarnição e um pequeno porto, o Castellum ad Septem Fratres. Quando o Império do Ocidente ruiu, no século V, a região passou para a órbita dos vândalos, o povo germânico que fundara um reino no norte da África — embora, no extremo ocidental da Tingitana, o controle vândalo tenha sido frouxo e disputado.

Mapa da província romana da Mauritânia Tingitana, no noroeste da África, por volta de 125 d.C.
A Mauritânia Tingitana (c. 125 d.C.). A província romana do noroeste da África, com capital em Tingis (Tânger). É neste território que ficava a Septem Fratres romana — a futura Ceuta —, guardando o Estreito.
Mapa: Milenioscuro / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

3 Bizâncio e a Ceuta cristã: o Conde Juliano

Entre 533 e 534, o grande general Belisário, a serviço do imperador Justiniano de Constantinopla, arrancou o norte da África dos vândalos. Ceuta voltou a ser romana — agora romana do Oriente, bizantina — e cristã: por ordem de Justiniano, a praça de Septem foi fortificada e guarnecida. Tornou-se um posto avançado do Império, uma sentinela cristã diante do Estreito, e assim permaneceu por quase dois séculos, período em que a influência do vizinho reino visigodo da Hispânia também se fez sentir sobre a praça.

É a essa Ceuta cristã que pertence uma das figuras mais célebres — e mais lendárias — de toda a sua história: o Conde Juliano (em árabe, Ilyan), o governador que comandava a cidade no início do século VIII. A tradição, misturando história e lenda, conta que sua filha, Florinda "la Cava", teria sido desonrada pelo rei visigodo Rodrigo, na corte de Toledo. Para se vingar, Juliano teria feito o gesto que mudaria a história da Península Ibérica: abriu a porta da África aos exércitos muçulmanos.

Pintura do rei visigodo Dom Rodrigo arengando suas tropas na Batalha de Guadalete, em 711.
O rei D. Rodrigo na Batalha de Guadalete (711). Óleo de Bernardo Blanco (1871, Museu do Prado). A derrota do último rei visigodo diante dos exércitos vindos da África — pela porta de Ceuta — abriu a Península Ibérica ao Islã.
Bernardo Blanco y Pérez / Museo del Prado · domínio público
Foi de Ceuta que, em 711, o berbere Táric ibn Ziyad partiu com suas tropas para atravessar o Estreito. O rochedo onde desembarcou passou a chamar-se Jabal Táric — "a montanha de Táric" — que a boca do tempo transformou em Gibraltar. A ponte de Ceuta e a conquista da Hispânia

Naquela travessia, o reino visigodo desabou em poucos anos e nascia Al-Andalus, a Espanha muçulmana que duraria quase oitocentos anos. Ceuta, a pequena rocha cristã, fora o trampolim de tudo. Verdadeira ou embelezada pela lenda, a história do Conde Juliano fixou para sempre o papel de Ceuta: a chave entre dois mundos.

4 A tomada muçulmana e os séculos do Islã

A própria Ceuta passou, então, definitivamente para o mundo islâmico. Não foi um domínio único, mas uma sucessão de senhores que reflete toda a história do Ocidente muçulmano medieval. A cidade foi idríssida nos séculos VIII e IX; em 931, o poderoso califa Abderramão III, de Córdoba, tomou-a para o Califado Omíada, fazendo dela uma cabeça de ponte do poder andaluz na África.

Com a desintegração do Califado, no século XI, Ceuta chegou a ser um pequeno reino independente (uma taifa), antes de ser absorvida pelos grandes impérios berberes que dominaram sucessivamente o Magrebe e a Espanha: os almorávidas e depois os almóadas. Sob eles, Ceuta viveu seu apogeu como grande porto e centro de cultura — uma cidade rica de mercadores, sábios e livreiros. Foi em Ceuta que nasceu, por volta de 1100, o maior geógrafo do mundo medieval, al-Idrisi — que se formaria depois em Córdoba —, autor do célebre mapa e da geografia produzidos para o rei normando Rogério II da Sicília.

A Tabula Rogeriana, mapa-múndi do geógrafo al-Idrisi, natural de Ceuta.
A Tabula Rogeriana, de al-Idrisi (1154). O mapa-múndi mais avançado de seu tempo (aqui em reconstituição de Konrad Miller, 1929). Seu autor, al-Idrisi, nasceu na Ceuta muçulmana — sinal do apogeu cultural da cidade sob os impérios berberes.
al-Idrisi / Konrad Miller · Wikimedia Commons · domínio público

Depois dos almóadas, a rocha voltou a ser objeto de disputa entre as potências da região: os marínidas de Fez, os háfsidas de Tunes, a dinastia local dos azafidas e os nasridas de Granada disputaram-na ao longo dos séculos XIII e XIV. Por volta de 1309, os marínidas de Fez tomaram a cidade — mas a posse seguiu contestada, e Ceuta ainda oscilaria entre azafidas, nasridas e marínidas até a véspera de 1415. Era essa Ceuta, ainda importante mas já enfraquecida por tantas guerras, que os cristãos do outro lado do Estreito observavam com crescente cobiça.

5 1415: a conquista portuguesa e o início de um império

No verão de 1415, uma imensa frota deixou o porto de Lagos, no Algarve: cerca de 200 navios e dezenas de milhares de homens, comandados pelo próprio rei D. João I de Portugal e seus três filhos mais velhos — os infantes Duarte, Pedro e Henrique, este último que a história consagraria como o Infante D. Henrique, o Navegador. Em 21 de agosto de 1415, após um único dia de combate, Ceuta caiu. Era a primeira conquista europeia em solo africano na era moderna — e o marco fundador do Império Português.

Painel de azulejos retratando o Infante Dom Henrique, o Navegador, durante a conquista de Ceuta em 1415.
O Infante D. Henrique na conquista de Ceuta (1415). Célebre painel de azulejos de Jorge Colaço (início do séc. XX), na Estação de São Bento, no Porto — uma das mais grandiosas representações portuguesas do episódio que abriu a era dos Descobrimentos.
Foto: HombreDHojalata / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Para Portugal, Ceuta não era um fim, era um começo. Dali se abria o caminho para a exploração da costa africana, para a rota do ouro e das especiarias, para as grandes navegações que levariam os portugueses à Índia e ao Brasil. A tomada de Ceuta é, num sentido muito real, o primeiro capítulo da era dos Descobrimentos.

O preço de Ceuta: o Infante Santo

Manter Ceuta custou caro. Em 1437, uma expedição portuguesa tentou tomar também Tânger e fracassou desastrosamente. Para poder retirar seu exército cercado, Portugal prometeu devolver Ceuta aos muçulmanos e deixou como refém o infante D. Fernando, irmão mais novo do rei. As cortes portuguesas recusaram-se a entregar a cidade — e D. Fernando morreu cativo em Fez, em 1443, entrando para a história como o "Infante Santo". Ceuta ficou; mas o episódio mostra o quanto a rocha já valia.

6 Como Ceuta se tornou espanhola (1580–1668)

A passagem de Ceuta para a Espanha não foi uma conquista militar: foi resultado de uma crise dinástica. Em 1578, o rei D. Sebastião morreu sem herdeiros na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África. Sucedeu-lhe o tio-avô, o cardeal D. Henrique, cuja morte em 1580 extinguiu a dinastia de Avis e abriu a disputa pela Coroa — que acabou nas mãos do rei Filipe II de Espanha (reconhecido rei de Portugal em 1580 e coroado nas Cortes de Tomar em 1581). Nascia a União Ibérica: por sessenta anos, Portugal e Espanha tiveram o mesmo rei, e Ceuta, como território português, passou a ser administrada dentro desse conjunto.

Em 1640, Portugal restaurou sua independência e aclamou o Duque de Bragança como D. João IV. Ceuta, porém, foi a única praça portuguesa que recusou seguir a Restauração e permaneceu fiel à Coroa espanhola — em boa parte porque seus interesses, sua guarnição e seu comércio já estavam voltados para a Andaluzia, do outro lado do Estreito. Quando, no Tratado de Lisboa de 1668, Espanha e Portugal finalmente fizeram as pazes, o rei D. Afonso VI de Portugal reconheceu formalmente a cessão de Ceuta a Carlos II de Espanha. Desde então — e este é o argumento central de Madri até hoje — Ceuta é espanhola há mais tempo do que o próprio Marrocos existe como Estado independente.

Gravura quinhentista mostrando as cidades norte-africanas Tânger, Ceuta (Septa) e Arzila.
Ceuta (Septa) em gravura do século XVI. Prancha de Frans Hogenberg reunindo as praças norte-africanas — entre elas Tânger e a Septa —, como as viam os europeus na época da União Ibérica, quando Ceuta passava de mãos portuguesas para espanholas.
Frans Hogenberg (séc. XVI) · Wikimedia Commons · domínio público

O cerco mais longo da história

Espanhola, Ceuta virou alvo dos sultões marroquinos. O mais obstinado, Mulay Ismail, submeteu a cidade a um cerco que durou de 1694 a 1727 — mais de trinta anos, um dos assédios mais longos de que se tem registro. Ceuta resistiu a tudo e não caiu. A muralha e as fortificações que ainda hoje marcam a cidade são herança desses séculos em que ela viveu como praça de guerra permanente.

7 Da Espanha imperial ao século XX

Nos séculos seguintes, Ceuta acompanhou o destino da Espanha. Serviu como praça-forte, como presídio e como base militar. Quando a Espanha estabeleceu seu Protetorado sobre o norte de Marrocos (1912–1956), Ceuta tornou-se uma das principais portas de entrada — e foi de território marroquino, em 1936, que partiu o levante militar que deu início à Guerra Civil Espanhola.

Em 1956, Marrocos conquistou sua independência. A partir desse momento, o novo Estado passou a reivindicar Ceuta e a vizinha Melilla como territórios que deveriam lhe ser devolvidos — tese que a Espanha sempre recusou, alegando que ambas as cidades já eram espanholas séculos antes de Marrocos nascer. A tensão nunca desapareceu: em 2002, um punhado de gendarmes marroquinos ocupou o ilhéu desabitado de Perejil, a poucos metros de Ceuta, provocando uma breve crise resolvida por uma operação militar espanhola.

Vista aérea do Estreito de Gibraltar com o pequeno ilhéu de Perejil junto à costa africana.
O ilhéu de Perejil. A minúscula ilha desabitada a poucos metros da costa, junto a Ceuta, foi palco em 2002 de um breve incidente militar entre Espanha e Marrocos — lembrete de que a disputa nunca ficou só no papel.
Foto: Adam Cli / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

"Espanhola em solo africano; africana em cidadania europeia. Ceuta é a costura entre dois mundos — e as costuras, por natureza, doem."

8 A Ceuta de hoje: uma Cidade Autônoma na fronteira da Europa

Desde a Constituição espanhola de 1978, Ceuta buscava definir seu lugar dentro da Espanha democrática. A solução veio em 1995, com a Lei Orgânica 1/1995, que lhe concedeu o Estatuto de Autonomia. Ceuta tornou-se uma Cidade Autônoma (Ciudad Autónoma) — uma figura intermediária, singular no direito espanhol: mais do que um simples município, menos do que uma Comunidade Autônoma como a Andaluzia ou a Catalunha.

População e identidade: a cidade das quatro culturas

Ceuta tem hoje cerca de 84 mil habitantes (em torno de 83,5 mil no censo de 2025), espremidos em menos de 20 km². É uma das sociedades mais mescladas da Europa: costuma orgulhar-se de ser a "cidade das quatro culturas" — cristã, muçulmana, hebraica e hindu. A comunidade de origem e cultura muçulmana, ligada por parentesco e língua ao vizinho Marrocos, é muito significativa (perto de metade da população), o que faz da convivência entre as comunidades um tema permanente da vida local.

As Muralhas Reais de Ceuta e o Foso de San Felipe, fortificação com fosso navegável.
As Muralhas Reais de Ceuta. O Foso de San Felipe e os baluartes que ainda guardam a cidade — tido como o único fosso navegável de Espanha, herança dos séculos em que Ceuta viveu como praça de guerra permanente.
Foto: Marek / Wikimedia Commons · CC BY 3.0

Independência política: até onde vai a autonomia

Aqui está o ponto que costuma gerar confusão: Ceuta não é independente e nem pretende ser. É parte integral do Reino da Espanha. Sua "independência" é apenas autonomia administrativa, e limitada:

Direitos: o que os ceutenses têm

Deveres e peculiaridades: o preço da posição

9 A ferida aberta: fronteira, migração e a reivindicação marroquina

Por ser a única fronteira terrestre entre a União Europeia e a África (junto com Melilla), Ceuta virou o ponto mais sensível do mapa europeu. Tornou-se cenário recorrente de crises migratórias: milhares de pessoas tentam entrar saltando a cerca ou cruzando a nado. A mais dramática ocorreu em maio de 2021, quando cerca de 8 a 10 mil pessoas entraram em poucos dias, depois que o Marrocos afrouxou deliberadamente sua vigilância — em plena crise diplomática com Madri por causa da hospitalização, na Espanha, de um líder da Frente Polisário. Foi a demonstração mais crua de que o Marrocos pode usar a fronteira de Ceuta como instrumento de pressão política. Novos episódios de forte afluxo voltaram a ocorrer nos anos seguintes, mantendo o tema no centro do debate europeu.

A cerca metálica que marca a fronteira entre Ceuta e o Marrocos.
A cerca da fronteira Ceuta–Marrocos. Vários metros de altura de aço e arame separam a União Europeia da África. É aqui, e na vizinha Melilla, que se concentra a maior pressão migratória sobre o continente europeu.
Foto: Xemenendura / Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

No fundo de tudo está a reivindicação territorial de Marrocos, que considera Ceuta e Melilla "cidades ocupadas", resquícios coloniais que deveriam retornar à soberania marroquina — e costuma comparar a situação à de Gibraltar, o território que a própria Espanha reivindica do Reino Unido. Madri rejeita a comparação com dois argumentos: primeiro, que Ceuta é espanhola desde 1668, muito antes de existir o Marrocos moderno; segundo, que a esmagadora maioria dos ceutenses quer continuar espanhola. A ONU, por sua vez, não inclui Ceuta em sua lista de territórios a descolonizar. O impasse, portanto, permanece — e cada incidente na fronteira, como o que se viu nos últimos dias, reacende uma disputa que já dura séculos.

10 Linha do tempo

Bandeira de Ceuta: entrelaçado (girão) preto e branco com o escudo da cidade ao centro. Ceuta Espanha, desde 1668
Bandeira da cidade de Lisboa: mesmo entrelaçado (girão) preto e branco. Lisboa Portugal
A mesma bandeira, duas cidades. O entrelaçado (girão) preto e branco de Ceuta é, na origem, o próprio pendão da cidade de Lisboa: durante o domínio português (1415–1668), Ceuta adotou o estandarte da capital do reino. Quando, após a Restauração de 1640, a cidade optou por permanecer com a Espanha, foi-lhe permitido conservar a sua bandeira original — a de Lisboa — em vez de adotar insígnias castelhanas. Por isso, até hoje, uma cidade espanhola em solo africano hasteia o antigo pendão da capital portuguesa.
Bandeira de Ceuta: Ulaidh · CC BY-SA 4.0 — Bandeira de Lisboa: Sérgio Horta/GumSkyloard · domínio público — Wikimedia Commons

11 Ceuta em um quadro

DadoSituação atual
EstatutoCidade Autônoma da Espanha (Lei Orgânica 1/1995)
LocalizaçãoCosta norte da África, no Estreito de Gibraltar; faz fronteira só com o Marrocos
População≈ 84 mil habitantes (2025), em menos de 20 km²
Identidade"Cidade das quatro culturas": cristã, muçulmana, hebraica e hindu
Independência políticaNenhuma — território integral da Espanha; autonomia apenas administrativa
Representação1 deputado + 2 senadores nas Cortes espanholas
União EuropeiaTerritório da UE, mas fora da união aduaneira/IVA e da fronteira Schengen terrestre
ImpostoIPSI (0,5% a 10%) no lugar do IVA
DisputaReivindicada por Marrocos; recusada pela Espanha; fora da lista de descolonização da ONU

A península de Ceuta, hoje

Menos de 20 km² de território espanhol presos à África por um istmo estreito — com o Mediterrâneo de um lado, o Atlântico do outro e o Marrocos como única fronteira terrestre. Mapa interativo — arraste e amplie.

12 Coda: a rocha que nunca deixou de ser fronteira

Fenícia, romana, bizantina, muçulmana, portuguesa, espanhola. Poucos lugares no mundo trocaram tantas vezes de dono e, mesmo assim, permaneceram tão fiéis a uma única vocação: a de porta. Ceuta nunca foi grande, nunca foi rica pelo que produz — foi importante pelo que guarda. A passagem. O ponto onde a Europa se debruça sobre a África e onde a África encosta na Europa.

Por isso a invasão que se viu nestes dias não é um acidente, é a última página de um livro muito antigo. Há quase três mil anos que homens de todos os impérios olham para essa rocha e pensam a mesma coisa: quem tem Ceuta, tem a porta. Enquanto o mar continuar estreito ali, e enquanto de um lado houver a Europa e do outro a África, a história de Ceuta não terá acabado.

O Estreito de Gibraltar visto de Tarifa, com a costa africana e as montanhas do Rife no horizonte.
Catorze quilômetros de mar. A costa da África vista da ponta sul da Europa: ao fundo, as montanhas do Rife e o Jebel Musa. Entre uma margem e outra, guardando a passagem, está Ceuta — a porta que nunca deixou de ser disputada.
Foto: Łukasz Ciesielski / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O outro enclave: Melilla

Ceuta não está sozinha. A cerca de 400 km a leste, também na costa do Marrocos, fica Melilla, o outro enclave espanhol — com uma história que espelha a de Ceuta, mas com donos diferentes: fundada pelos fenícios como Rusadir (e depois posto cartaginês e romano), passou por vândalos, bizantinos e, a partir do século VIII, pelo mundo muçulmano (dinastias berberes e, no fim da Idade Média, o Reino de Fez); ao contrário de Ceuta — tomada por Portugal em 1415 —, Melilla foi conquistada diretamente pela Espanha em 1497 (por tropas do Ducado de Medina Sidonia a serviço dos Reis Católicos, cinco anos depois da queda de Granada) e desde então nunca deixou de ser espanhola, resistindo a séculos de cercos, servindo de praça-forte no Protetorado (1912–1956) e sendo o lugar de onde partiu o levante militar de julho de 1936 que iniciou a Guerra Civil. Hoje é, como Ceuta, uma Cidade Autônoma (Estatuto de 1995), com cerca de 85 mil habitantes, regime fiscal próprio (IPSI), fronteira reforçada com o Marrocos e no centro da mesma reivindicação territorial marroquina que a Espanha rejeita.

Vista da cidadela histórica de Melilla la Vieja e do porto, o outro enclave espanhol no norte da África.
Melilla, o enclave irmão. A cidadela de Melilla la Vieja debruçada sobre o porto — espanhola sem interrupção desde 1497, e alvo, como Ceuta, da reivindicação de Marrocos.
Foto: Miesbo71 / Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Onde fica Melilla

A cerca de 400 km a leste de Ceuta, também encravada na costa do Marrocos, à beira do Mediterrâneo. Mapa interativo — arraste e amplie.
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