Em 2025 o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU e, em 2026, continua fora. Mas o que é esse mapa? Ele não conta pessoas com fome uma a uma — é um modelo estatístico. Esta reportagem abre a caixa-preta do número: como a FAO o calcula, tenta reconstruí-lo com dados brasileiros reais, mostra onde o país é forte e onde é fraco, e por que a fome virou uma gangorra que cada troca de governo disputa.
A frase "o Brasil saiu do Mapa da Fome" foi manchete em 2014, sumiu por volta de 2018, voltou como acusação em 2022 e reapareceu como comemoração em 2025. Antes de brigar sobre o que ela significa, vale entender o que ela mede — porque quase ninguém que a repete sabe.
O "Mapa da Fome" é o nome popular de um único indicador da FAO: a Prevalência de Subalimentação (PoU). Ele não é uma contagem de pessoas famintas — nenhum pesquisador bate na porta perguntando se você comeu. É uma estimativa estatística: cruza quantas calorias o país oferece, quão desigual é essa distribuição e qual o mínimo que um corpo precisa. Quando o modelo estima que menos de 2,5% da população consome menos calorias que o mínimo, o país "sai do mapa". Não significa fome zero. Significa cruzar uma linha.
Sair do Mapa da Fome não é o mesmo que acabar com a fome. É o país atingir um patamar estatístico abaixo do qual a FAO deixa até de publicar o número exato. Em 2013, no melhor momento da série, o Brasil já estava fora do mapa — e ainda tinha milhões de pessoas em insegurança alimentar grave. As duas coisas convivem, e é aí que a política entra.
A Prevalência de Subalimentação é uma probabilidade, não um censo. A FAO monta uma "curva de sino" do consumo de calorias do país inteiro e mede que fatia dessa curva cai abaixo do mínimo vital. Para desenhar essa curva, precisa de quatro peças.
Quantas calorias, em média, ficam disponíveis para cada brasileiro por dia. Sai do Balanço Alimentar (Food Balance Sheet): produção + importação − exportação − perdas − ração animal − usos industriais. É a média da curva — no Brasil, cerca de 3.350 kcal/dia.
A menor quantidade de energia que a população precisa para uma vida minimamente ativa, calculada por idade, sexo, estatura e atividade física. Não é o "ideal", é o piso. Para um país de renda média fica em torno de 1.800 a 1.900 kcal/dia. É a linha de corte.
O coeficiente de variação do consumo: o quanto as calorias estão mal distribuídas. Vem de pesquisas domiciliares — no Brasil, a POF do IBGE (destrinchada logo abaixo). É a peça decisiva: é ela que espalha a curva. Oferta alta com desigualdade alta ainda deixa gente embaixo da linha.
Desde 2012 o modelo deixou de ser uma lognormal simples e ganhou um terceiro parâmetro, a assimetria, que ajusta o formato da cauda de baixo consumo. Refina onde a curva "afina" perto dos mais pobres.
Vale abrir a caixa dessa fonte, porque é ela que alimenta o parâmetro mais decisivo do cálculo. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) é o retrato mais minucioso de como o brasileiro ganha, gasta e come — a mesma pesquisa que define os pesos da cesta do IPCA e do INPC e as linhas de pobreza. Da POF sai o quanto o acesso às calorias é desigual: o coeficiente de variação que a FAO usa no Mapa da Fome.
Amostra e alcance. A edição mais recente concluída, a POF 2017–2018 (a 6ª da série, iniciada com o ENDEF de 1974–75 e passando por 1987–88, 1995–96, 2002–03 e 2008–09), ouviu 57.920 domicílios em 1.900 municípios e 5.504 setores censitários. É amostragem probabilística em dois estágios (sorteiam-se setores censitários e, dentro deles, domicílios), cobrindo todo o território — urbano e rural, todas as UFs. Uma nova edição, a POF 2024–2025, já está em campo desde novembro de 2024, com cerca de 100 mil domicílios.
A coleta. O campo dura 12 meses (de junho de 2017 a julho de 2018), fatiado em 52 blocos de 7 dias, para pegar as variações de preço e consumo ao longo do ano. Cada domicílio é acompanhado por cerca de 9 dias: o próprio morador anota, numa caderneta de 7 dias, cada aquisição — com quantidade e valor — e responde a sete blocos (POF1 a POF7) sobre moradia, despesas, rendimentos e condições de vida.
De compra a caloria. As aquisições, registradas em quilos, viram calorias pela composição nutricional de cada alimento (sistema Atwater, com tabelas como a TACO da Unicamp). Num submódulo — o POF7, aplicado a 20.112 domicílios (34,7% da amostra) e 46.164 pessoas de 10 anos ou mais, em dois dias não consecutivos — registra-se o que cada indivíduo de fato comeu, dentro e fora de casa. É esse módulo que produz as calorias por pessoa e, com elas, a medida de desigualdade de consumo. Em 2017–2018 a POF ainda embutiu, pela 1ª vez, a escala de insegurança alimentar EBIA (14 perguntas sobre os 90 dias anteriores).
Com esses parâmetros, a FAO desenha a densidade de probabilidade f(x) do consumo de calorias e integra a parte que fica abaixo do mínimo:
O resultado é um percentual da população. Se ele fica abaixo de 2,5%, o país está fora do Mapa da Fome — e a FAO nem publica mais o valor exato, registra apenas "<2,5%".
Dá para chegar perto do "<2,5%" da FAO usando três números públicos do Brasil. Não é o cálculo oficial — é uma reconstrução simplificada para mostrar por que a conta fecha. E ela revela o ponto central: o que segura o Brasil no mapa nunca foi falta de comida.
O Brasil oferta ~3.350 kcal por pessoa/dia. O mínimo vital é ~1.850. Se a comida fosse dividida igualzinho, ninguém ficaria abaixo do mínimo — sobrariam 1.500 kcal de folga por pessoa. A oferta é quase 1,8 vez a necessidade. Nesse mundo, a PoU seria praticamente zero.
Mas a comida não é dividida igual. A POF do IBGE mostra que os padrões de consumo variam muito com a renda. Quando se injeta essa dispersão no modelo — uma curva lognormal com média 3.350, corte em 1.850 e um coeficiente de variação na faixa observada — a cauda de baixo consumo já não é nula:
É esse o mecanismo inteiro: com a mesma oferta de 3.350 kcal, um CV maior empurra a PoU para cima de 2,5% (país volta ao mapa); um CV menor a puxa para baixo (país sai). O Brasil não sai e entra no mapa porque produz mais ou menos comida — a produção só cresce. Ele entra e sai porque a desigualdade de acesso sobe e desce. E o que mexe nesse CV, na prática, é transferência de renda: quando o mais pobre tem dinheiro para comprar comida, a cauda encolhe.
A PoU do Brasil despencou nos anos 2000, cruzou a linha de saída em meados da década de 2010, voltou a subir na virada para os anos 2020 e caiu de novo em 2024. Como a FAO publica médias de três anos, cada barra abaixo é um triênio.
A queda dos anos 2000 aparece com clareza na série anual do FAOSTAT, antes de a FAO parar de reportar o valor exato:
| Ano | PoU (subalimentação) | Situação |
|---|---|---|
| 2004 | 6,8% | No mapa |
| 2006 | 6,2% | No mapa |
| 2010 | 3,9% | No mapa |
| 2012 | 3,1% | No mapa |
| 2014 | 2,6% | Beira da saída |
| 2015–2019 | <2,5% | Fora do mapa |
| 2020–2022 | subindo (~4,2%, triênio) | De volta ao mapa |
| 2022–2024 | <2,5% (triênio) | Fora de novo |
Se o triênio embaralha os mandatos, a saída é olhar ano a ano. O gráfico abaixo tem no eixo X quem de fato ocupava a Presidência em cada ano, e a barra mostra o nível da subalimentação — quanto mais alta, pior. Assim dá para ver sob qual governo a fome subiu e sob qual caiu, sem a maquiagem da média móvel.
pandemia (Covid-19)
🔒 lockdown / economia fechada
Lido por governo, o desenho é mais direto do que a média móvel deixa ver: a fome caiu no fim do governo Dilma (saída de 2014), ficou de baixo perfil na transição, subiu de 2020 a 2022 — no baque da pandemia, sob o governo Bolsonaro — e despencou em 2023, puxada pela desinflação dos alimentos e pela transferência de renda.
É a pergunta que o gráfico provoca — e a resposta não cabe num único governo.
Em 2019 a subalimentação ainda estava abaixo de 2,5%: o ponteiro não se moveu na troca de governo. O tombo veio com a pandemia e os lockdowns em 2020 (🦠🔒) — desemprego, informais sem renda — e piorou com o corte do auxílio emergencial em 2021 (de R$ 600 para R$ 150–375) somado à explosão da inflação de alimentos (+14% em 2020, +11,6% em 2022, com a guerra na Ucrânia). Choques globais, fora do controle de qualquer Planalto.
Números tão estruturais não desabam em meses por causa de um decreto. Boa parte da queda de 2023 independe do governo novo: a inflação de alimentos caiu sozinha (de +11,6% para +1,03%), acompanhando a desinflação global pós-pandemia, mais o efeito base e o fim da pandemia. O que é política — a transferência de renda (Bolsa Família, mínimo) — funciona porque ataca o único gargalo que se move rápido: dinheiro no bolso para comprar comida.
Mas há uma lição que atravessa todos os governos e desmonta a briga: se um cheque de R$ 600 tirou milhões da fome em 2020, e a falta dele os empurrou de volta em 2021, então fome, no Brasil, é renda — não é falta de comida. O corolário é impiedoso e apartidário: tudo o que corrói a renda do pobre — inflação de alimentos, imposto sobre a comida, emissão de moeda que come o salário — vira fome, mesmo com o país batendo recorde de safra. É a ponte para o Capítulo 6.
Se o Mapa da Fome medisse produção de alimento, o Brasil estaria entre os melhores do planeta. O país é um dos maiores celeiros do mundo — e é por isso que a fome brasileira nunca foi um problema de oferta.
A safra de grãos saltou de 324,4 milhões de toneladas em 2023/24 para 350,2 milhões em 2024/25 — recorde histórico, alta de 16% — com estimativa de 353,8 milhões para 2025/26. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja, o maior exportador de milho, carne bovina, carne de frango, café, açúcar e suco de laranja: lidera as exportações globais de sete alimentos. A oferta calórica interna, ~3.350 kcal/dia, está bem acima da média mundial (~3.016 kcal/dia).
Com a oferta em quase o dobro do mínimo vital (o cálculo está no Capítulo 2), num país onde a comida fosse repartida por igual o Mapa da Fome seria caso resolvido há décadas. É justamente por a produção ser tão folgada que toda a ação do indicador se concentra na outra ponta: a distribuição — o tema do próximo capítulo.
O calcanhar de Aquiles não é o campo, é a mesa. A mesma abundância que enche os portos de exportação convive com desigualdade regional e de renda que joga milhões abaixo da linha. Aqui o país é frágil — e é aqui que o indicador se mexe.
Enquanto a PoU calculada por calorias ficava em ~4%, os indicadores de percepção — que perguntam diretamente às famílias se faltou comida — mostravam algo mais duro. Pela escala FIES, a FAO estimou a insegurança alimentar grave do Brasil em cerca de 8% da população em 2022 — algo como 17 milhões de pessoas. É um indicador diferente da PoU (mede percepção, não calorias) e, por isso, não entra no cálculo do Mapa da Fome — mas dá a dimensão de quão duro foi o auge da crise.
Depois, uma queda expressiva. O IBGE (PNAD Contínua/EBIA) registrou que 24,4 milhões de pessoas saíram da situação de fome em 2023, e a insegurança alimentar grave pela escala FIES caiu de 8% (2022) para 1,2% (2023) — recuo de 85% num ano, segundo o SOFI 2024 da FAO.
A insegurança alimentar grave não se distribui por igual pelo território. Ela é duas a quatro vezes maior no Norte e Nordeste do que no Sul:
É esse conjunto — Gini alto, Norte e Nordeste mais vulneráveis, consumo alimentar que muda de perfil conforme a renda (a POF 2017–2018 mostra que alimentos in natura vão de 55,6% das calorias no quinto mais pobre a 44,2% no mais rico) — que forma o CV do capítulo 2. Foi ele que subiu na virada dos anos 2020 e recuou depois, puxado sobretudo por transferência de renda. A queda de 2023 não veio de mais comida — a comida já sobrava. Veio de dinheiro no bolso do mais pobre para comprá-la.
Se a fome é renda, o acesso vira uma corrida entre dois números: o preço do alimento e o salário. Quando o preço ganha, o pobre come menos — mesmo com o salário "corrigido". Foi exatamente o que aconteceu.
Um choque de preço de comida não atinge todo mundo igual. Pela POF do IBGE, a alimentação consome 22% do orçamento das famílias que ganham até dois salários mínimos — contra apenas 7,6% das mais ricas. É uma inflação regressiva: o mesmo aumento no arroz e na carne machuca proporcionalmente três vezes mais quem está embaixo. Para o mais pobre, alimentação e moradia já comem 61% de tudo o que entra.
O salário do trabalhador é reajustado, por lei e por acordo, pelo INPC — o índice de inflação que serve de régua para o mínimo e para os pisos. O problema: nos anos de choque, a comida subiu muito acima dessa régua. Ano a ano, a inflação de alimentos contra o índice que corrige o salário:
Não é todo ano — em 2021, 2023 e 2025 o salário correu na frente. Mas os saltos foram sempre do lado da comida. No acumulado de 2020 a 2025, o alimento subiu cerca de 52% e o INPC que corrige o salário, cerca de 39%: uma diferença de 13 pontos que saiu direto do prato de quem ganha menos. A FGV/IBRE mede o mesmo descolamento por outro recorte: de janeiro de 2020 a meados de 2026, a alimentação no domicílio acumulou +67,5% contra +43,3% da inflação cheia — a comida subiu 1,5 vez mais que a média.
O DIEESE traduz isso em horas de trabalho. Em abril de 2025, a cesta básica na cidade mais cara (São Paulo) custava R$ 909,25 — exigindo 131 horas e 47 minutos de trabalho no mês, mais da metade da jornada mensal, só para alimentar uma pessoa. E o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro, calculado pelo DIEESE, chegou a R$ 7.528,56 em maio de 2025 — quase cinco vezes o mínimo em vigor (R$ 1.518). O tamanho desse buraco é a distância entre a mesa cheia do país e a mesa vazia da família.
A média esconde os campeões. No acumulado de 2020 a meados de 2026 (FGV/IBRE), itens básicos do prato popular dispararam muito além de qualquer salário:
Se a comida encareceu, para onde foi o dinheiro? Não para o bolso do supermercado. O varejo de alimentos opera com uma das menores margens da economia: a ABRAS estima 1,5% a 3% de margem líquida. O caso que viralizou é ilustrativo: o Assaí (o atacadista, não uma tal "Rede Açaí") faturou R$ 20,6 bilhões no 1º trimestre de 2026 e lucrou R$ 86 milhões — o equivalente a R$ 0,42 de lucro a cada R$ 100 vendidos. Circulou nas redes que a empresa teria pago "dezenas de vezes o lucro em impostos"; o número real soma todos os tributos que atravessam o caixa (ICMS, PIS/Cofins recolhidos na cadeia), não o imposto sobre o lucro — mas a imagem que ele passa é correta: o Estado leva da comida muito mais do que quem a vende.
Para economistas de viés liberal, o preço da comida carrega dois pesos do próprio governo. O primeiro é tributário: com margens de 1% a 3%, o varejo repassa quase integralmente ao consumidor a carga de impostos que incide sobre alimentos — não há gordura para absorver. O segundo é monetário: o agregado M2 saltou de R$ 4,3 trilhões (2021) para R$ 6,6 trilhões (2024), alta de ~53%, com a base monetária crescendo 46% em doze meses no auge da pandemia. Mais moeda perseguindo a mesma comida pressiona preços. Nessa leitura, a inflação de alimentos que corta o acesso não é acidente climático — é, em boa parte, fabricada pela conta de impostos e pela emissão.
Aqui está o padrão que motivou esta reportagem. A entrada e a saída do Brasil no Mapa da Fome passaram a ser narradas em compasso com os ciclos de poder: quando um lado sai do governo, "a fome voltou"; quando volta, "tiramos o Brasil da fome". As duas coisas são ditas — e documentadas abaixo — mas a defasagem de três anos do indicador complica quem quer cravar o crédito.
A FAO anuncia, no SOFI 2014, que o Brasil deixou o Mapa da Fome. A ministra Tereza Campello comemora:
"Sair do Mapa da Fome é um fato histórico para o país. A fome, que persistiu durante séculos no Brasil, deixou de ser um problema estrutural."
Após o impeachment de Dilma (2016), o PT e a esquerda passam a atribuir o retorno da insegurança alimentar ao fim dos governos petistas. Tereza Campello, em 2019:
"Tudo o que nos levou a sair do Mapa da Fome já foi desconstituído; então é óbvio que o Brasil está voltando ao Mapa da Fome."
Ressalva de data: o retorno formal só seria registrado pela FAO no triênio 2019–2021 (SOFI 2022) — já sob Bolsonaro. A fala de 2019 era antecipatória.
Com a insegurança alimentar em alta no fim do ciclo, o retorno ao mapa vira munição de campanha. Lula, em 2022:
"A gente tinha tirado o Brasil do Mapa da Fome, mas a fome voltou. Trinta e três milhões de brasileiros hoje vão dormir toda noite sem ter o que comer."
A checagem "Fatos Primeiro" da CNN classificou a fala como correta quanto à saída (2014) e ao retorno (triênio 2019–2021) — sem discutir a atribuição a cada governo nem a defasagem dos dados. Vale um reparo, porém: o "33 milhões" citado por Lula vinha de um levantamento de sociedade civil (Rede PENSSAN, pela escala de percepção EBIA), acima dos dados oficiais do IBGE e da FAO (~17 milhões pela escala FIES) e que não integra o cálculo do Mapa da Fome — que é sempre a PoU.
O governo assume a meta de "retirar o Brasil do Mapa da Fome até 2026" via Plano Brasil Sem Fome. Em 28/07/2025, a FAO confirma a saída (triênio 2022–2024). Lula fala em "conquista histórica"; o ministro Wellington Dias:
"Sair do Mapa da Fome foi o primeiro objetivo do presidente Lula ao iniciar o mandato. Mostramos que, com o Plano Brasil Sem Fome, foi possível alcançar a meta em apenas dois anos."
O SOFI 2026 mantém o Brasil fora do mapa pelo 2º ano (triênio 2023–2025), com insegurança alimentar grave em 0,6%. A imprensa registra que a saída será destacada como trunfo na campanha de reeleição. A fome, de novo, entra no palanque.
A agência Aos Fatos classificou como falsa a alegação de que governos petistas "acabaram com a fome": sair do mapa é cruzar um limiar estatístico, não zerar a fome. Em 2013, no mínimo histórico, o país ainda tinha 7,2 milhões em insegurança alimentar grave. Vale para todos os governos que usaram o marco.
Por ser média de três anos, o número que cada governo celebra ou condena carrega anos do governo anterior. A saída de 2025 (triênio 2022–2024) inclui 2022, o pior ano da série recente. O retorno de 2022 (triênio 2019–2021) inclui a pandemia. Nenhuma das transições coincide com a troca de mandato — embora a retórica finja que sim.
O padrão é simétrico e deliberado: quando o adversário governa, a entrada no mapa prova o fracasso dele; quando o próprio grupo governa, a saída prova o mérito próprio. Os dois lados usam o mesmo indicador com defasagem de três anos como se fosse um placar em tempo real. É bom combate político. É estatística ruim.
O Mapa da Fome é uma boa ferramenta mal usada. Ele mede algo real, com método sério — e é justamente por medir uma coisa específica que não pode ser esticado para provar tudo.
Que menos de 2,5% dos brasileiros consomem, cronicamente, menos calorias que o mínimo vital. É um avanço real e mensurável, conquistado sobretudo por redução da desigualdade de acesso — não por aumento de oferta, que já era enorme. Merece ser comemorado pelo que é.
Não diz que a fome acabou. Não diz que ninguém mais dorme sem comer. Não diz que o mérito é de um governo só — o dado é uma média de três anos que atravessa mandatos. E não captura os milhões que ainda vivem em insegurança alimentar leve ou moderada, contados por outra régua.
A verdade que atravessa vinte anos de gangorra é quase entediante de tão estável: o Brasil sempre teve comida de sobra e sempre teve gente sem acesso a ela. O que muda de um triênio para o outro não é o campo — é quanto de renda chega à ponta mais pobre. Sobe a desigualdade, o país entra no mapa; cai, o país sai. Todo o resto é palanque.
Da próxima vez que alguém disser "o Brasil saiu do Mapa da Fome" ou "a fome voltou", faça uma única pergunta: de qual triênio você está falando, e o que aconteceu com a desigualdade nele? A resposta honesta quase nunca cabe num palanque — mas é a única que explica o número.
Há um fato que reorganiza toda esta reportagem: quase nenhum número aqui é, na origem, "da ONU". A FAO praticamente não gera dado próprio sobre o Brasil — ela roda o seu modelo em cima de pesquisas do IBGE. Veja de onde vem cada peça:
| O que se mede | Fonte primária do dado | É IBGE? |
|---|---|---|
| Mapa da Fome (PoU) | CV da POF + população do Censo (a FAO só modela por cima) | Sim |
| Inflação de alimentos (IPCA) | IBGE | Sim |
| Índice que reajusta o salário (INPC) | IBGE | Sim |
| Desigualdade (Gini), renda, pobreza | PNAD Contínua | Sim |
| Insegurança alimentar (EBIA/FIES) | PNAD | Sim |
| Safra recorde de grãos | CONAB | Não |
| Emissão monetária (M2) | Banco Central | Não |
A fome, a inflação, o reajuste do seu salário, a linha de pobreza e a desigualdade pendem todos de um nó único. E não é preciso ninguém falsificar nada: basta uma escolha de método — a POF que só vai a campo a cada ~9 anos, o que entra na cesta do IPCA, o tamanho da amostra — para mover o número que a política inteira vai disputar. O IBGE é técnico e respeitado; o alerta aqui é estrutural, não moral.
A prova final. Deixe os dados da ONU parados — as calorias que o Brasil oferta e o mínimo que um corpo precisa. Mexa só na variável do IBGE: a desigualdade no acesso às calorias, medida pela POF/PNAD. Deslize e veja o Brasil entrar ou sair do Mapa da Fome sem uma única caloria a mais ou a menos ser produzida.
Os números vêm de fontes oficiais (FAO, IBGE, CONAB, MDS, Banco Central) e de instituições de pesquisa (IPES-Food, FGV/IBRE, DIEESE). Onde há estimativa, faixa metodológica ou defasagem de ano, isso foi sinalizado no texto. A reconstrução da PoU no capítulo 2 é ilustrativa, não o cálculo oficial da FAO.