47% dos brasileiros ainda leem — e a fila só cresce

Cultura & Leitura · Dados

Bienal cheia não é Brasil lendo mais

A 28ª Bienal do Livro de São Paulo espera 700 mil visitantes, cresceu quase um terço e vende como nunca. No mesmo país, o número de leitores despencou — e, pela primeira vez na série histórica, quem não lê já é maioria. A multidão do Anhembi conta uma coisa; a pesquisa conta outra.

Começou o ritual. Filas na entrada do Distrito Anhembi, corredores intransitáveis, sacolas cheias, fotos de estantes lotadas circulando nas redes. A cada dois anos a Bienal do Livro de São Paulo vira prova de que "o brasileiro lê". A imagem é poderosa — e é justamente aí que mora o engano. Uma feira cheia mede quantas pessoas foram à feira. Não mede quantas leem. São dados diferentes, e eles estão indo em direções opostas.

Esta reportagem parte de uma provocação que circulou nas redes durante a Bienal e cruza as duas coisas que quase nunca aparecem lado a lado: os números do evento e os números da leitura no país. Todos os dados citados estão traduzidos em gráficos ao longo do texto.

"Atenção, leitores: uma Bienal lotada não é sinônimo de Brasil lendo muito. Comprar livro, ir a um evento e efetivamente ler são coisas diferentes — e o percentual de leitores vem caindo nos últimos anos." — Provocação que circulou no Instagram durante a 28ª Bienal, ponto de partida desta reportagem.

1 O que a Bienal transborda

Os números da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo (4 a 13 de setembro de 2026, no Distrito Anhembi) são de recorde. A organização projeta mais de 700 mil visitantes em dez dias. A feira ocupa 86 mil metros quadrados com 269 expositores — uma estrutura 28% maior que a da edição anterior. E o primeiro fim de semana veio forte: editoras relataram vendas até 114% superiores às dos primeiros dias de 2024.

700 mil
visitantes esperados em 10 dias
86 mil m²
de área — 28% maior que 2024
269
expositores
+114%
em vendas no 1º fim de semana*

*Pico relatado por editoras (a Rocco, por exemplo) na comparação com os primeiros dias de 2024. É um dado de vendas de expositores, não uma média oficial do evento.

Corredor da Bienal do Livro de São Paulo completamente tomado por uma multidão de visitantes entre os estandes iluminados.

A imagem que vira manchete: os corredores lotados da Bienal do Livro de São Paulo. É a fotografia que, a cada edição, alimenta a ideia de que "o brasileiro lê" — e é justamente ela que a pesquisa contradiz.Foto: Estadão.

Multidão espremida em um corredor de estandes na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 2023.

Não é exclusividade de São Paulo: a Bienal do Rio, num sábado de setembro de 2023, também transbordou de público. Feira cheia é a regra — a leitura em queda, também.Foto: Agência O Globo (Rio, 2/9/2023).

2 Mas a conta não fecha

Quem transforma "foi à feira" em "o país lê" comete um salto lógico. Para saber quantos brasileiros de fato leem, existe a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro — o levantamento de referência no assunto, feito desde 2007 com a mesma metodologia (orientada pelo CERLALC). A 6ª edição, de 2024, ouviu 5.504 pessoas com 5 anos ou mais, em 208 municípios, entre abril e julho.

O critério é generoso: conta como "leitor" quem leu ao menos um livro, inteiro ou em partes, nos três meses anteriores à entrevista — de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos. Mesmo assim, a curva vem caindo:

Percentual de leitores no Brasil — série histórica 55% 2007 50% 2011 56% 2015 52% 2019 47% 2024

Depois de oscilar em torno de 52%–56% por mais de uma década, o índice caiu ao menor patamar da série em 2024.Fonte: Retratos da Leitura no Brasil, Instituto Pró-Livro (edições de 2007 a 2024).

3 O ponto em que a maioria virou minoria

2024 marcou um limiar inédito. Pela primeira vez na história da pesquisa, os não leitores passaram os leitores: 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores, contra 47% que leram. A linha se cruzou.

Leitores × não leitores: o cruzamento de 2024 2019 52% leem 48% não leem 2024 47% leem 53% NÃO leem pela 1ª vez, quem não lê é maioria ▲

A faixa vermelha ultrapassa a âmbar: em 2024, os não leitores (53%) superaram os leitores (47%) — algo que nunca havia acontecido na série.Fonte: Retratos da Leitura no Brasil, Instituto Pró-Livro (2019 e 2024).

4 6,7 milhões de leitores a menos

Em pessoas, a queda é brutal. O Brasil passou de 100,1 milhões de leitores em 2019 para 93,4 milhões em 2024 — 6,7 milhões a menos em apenas quatro anos, num período em que a população cresceu. Enquanto a Bienal comemora recordes de público, o país perdeu, fora dela, uma multidão de leitores maior do que toda a feira somada.

Número de leitores no Brasil (em milhões) 2019 100,1 mi 2024 93,4 mi − 6,7 milhões de leitores em 4 anos

A perda equivale a apagar do mapa da leitura uma cidade do tamanho do Rio de Janeiro — e ainda sobra gente.Fonte: Retratos da Leitura no Brasil, Instituto Pró-Livro (2019 e 2024).

5 Comprar, ir e ler são três coisas diferentes

Aqui está o coração da provocação. A Bienal mede compra e presença; a pesquisa mede leitura. E, dentro da própria pesquisa, "ler em partes" é bem diferente de "ler de verdade". Quando se conta só quem terminou ao menos um livro inteiro nos três meses, o índice cai de 47% para 27%.

Do “li alguma coisa” ao “terminei um livro” Leram ao menos parte de um livro 47% Leram um livro inteiro 27%

Menos de um em cada três brasileiros terminou um livro inteiro no trimestre. O resto que "leu" leu pedaços.Fonte: Retratos da Leitura no Brasil, Instituto Pró-Livro (2024).

E os que leem estão lendo menos. A média caiu de 2,6 para 2,4 livros por pessoa nos três meses; considerando o ano inteiro, o brasileiro lê 3,96 livros — a menor marca de toda a série histórica. Entre os classificados como leitores, a média despencou de 5,04 para 4,36 livros.

27%
leram um livro inteiro (3 meses)
3,96
livros por ano — pior da série
2,4
livros em 3 meses (era 2,6)

6 O mito do influenciador que "faz ler"

Uma explicação comum para a Bienal lotada é que os jovens vão atrás dos influenciadores literários — e que isso puxaria a leitura. Os dados desinflam a tese. Perguntados sobre o que os leva a escolher um livro, só 2% citaram influenciadores; nas compras, 3%. Redes sociais como fonte de indicação aparecem para 8% dos leitores — chegando a 16% na faixa de 18 a 39 anos, mas ainda longe de ser o motor que se imagina.

Quanto influenciador e rede social pesam de verdade Influenciador ao escolher o livro 2% Influenciador na compra 3% Indicação em redes (todos os leitores) 8% Indicação em redes (18 a 39 anos) 16%

A vitrine digital move uma minoria. A multidão que enche a Bienal não se converte, nesses números, em hábito de leitura.Fonte: Retratos da Leitura no Brasil, Instituto Pró-Livro (2024).

Vale a ressalva de honestidade: parte do público da Bienal é formada por estudantes em excursão escolar e por jovens atrás de encontros com booktubers, brindes e fotos. É legítimo — feira é festa, e festa aproxima do livro. Mas presença não é o mesmo que leitura continuada, e é essa diferença que a pesquisa captura e a fila da entrada esconde.

7 O público tem rosto: jovem e feminino

Há um rosto nessa multidão — e ele é, em grande maioria, feminino. A pesquisa Retratos da Leitura aplicada na própria feira mediu o público da 27ª Bienal de São Paulo (2024): 69,8% mulheres, 28,5% homens e 1,2% de outros. Quase sete em cada dez visitantes eram mulheres. O público também é jovem — a faixa de 18 a 24 anos é a que mais frequenta eventos literários — e escolarizado, com maioria de ensino superior.

Quem é o público — e quem é o leitor Público da Bienal de SP (2024) 69,8% 28,5% Composição dos leitores no Brasil (2024) 54% 46% Mulheres Homens Outros / não declarado

A Bienal é ainda mais feminina (≈70%) do que a média nacional de leitura (≈54% dos leitores são mulheres). O evento concentra o perfil mais engajado.Fontes: Retratos da Leitura — Eventos do Livro, na Bienal de SP (Instituto Pró-Livro, 2024); Retratos da Leitura no Brasil (2024).

E isso não é um acaso da feira: reflete o país. Pela Retratos da Leitura no Brasil, as mulheres leem mais — 49% delas são leitoras, contra 44% dos homens; em números absolutos, são 50,4 milhões de leitoras contra 42,9 milhões de leitores. A Bienal apenas amplifica um padrão que já existe fora dela — e ajuda a explicar por que a feira lota de gente ligada a booktubers e redes: é o público que mais se mobiliza em torno do livro como evento.

69,8%
do público da Bienal SP era feminino (2024)
54%
dos leitores do país são mulheres
49% × 44%
taxa de leitura: mulheres × homens

8 Quem lê vive mais coisas (e por isso importa)

Não se trata de torcer o nariz para a festa, e sim de não confundir o termômetro. Porque o que está em jogo é grande: a pesquisa mostra que quem lê tem uma vida mais ativa no tempo livre. Os leitores relatam, em média, 7,6 atividades de entretenimento; os não leitores, 5,3. Ler não afasta do mundo — anda junto com fazer mais coisas nele.

Atividades no tempo livre (média) Leitores 7,6 Não-leitores 5,3

Ler está associado a fazer mais, não menos. É por isso que a queda dos leitores é um problema — e por que o recorde da Bienal, sozinho, não o resolve.Fonte: Retratos da Leitura no Brasil, Instituto Pró-Livro (2024).

9 As duas curvas, lado a lado

Junte tudo e o retrato fica nítido. De um lado, o evento cresce em toda medida: área, expositores, público, vendas. De outro, a leitura encolhe em toda medida: percentual, número absoluto, livros por ano. As setas apontam para lados opostos — e é por isso que uma não prova a outra.

O evento sobe · a leitura desce BIENAL 2026 ▲ Área do evento +28% Vendas (1º f.d.s.) +114% Visitantes 700 mil Expositores 269 ↑ LEITURA NO BRASIL ▼ Leitores (% pop.) 52% → 47% Leitores (nº) −6,7 mi Livros por ano 3,96 (pior) Não-leitores maioria (53%) ↓

Duas realidades do mesmo país, no mesmo ano. A feira é a fotografia de um dia; a leitura, o filme de uma década.Fontes: 28ª Bienal do Livro de SP (CBL / organização) e Retratos da Leitura no Brasil, Instituto Pró-Livro.

10 O que a multidão realmente diz

Nada disso é contra a Bienal. Uma feira que atrai 700 mil pessoas e vende como nunca é ótima notícia para o mercado editorial, para as editoras e para quem vive de livro. O erro não está em comemorar o evento — está em usar o evento como prova de um hábito nacional que os dados desmentem.

A provocação que abre este texto acerta no essencial: comprar, ir e ler são coisas diferentes. Dá para lotar o Anhembi e, ainda assim, ser o primeiro ano em que quem não lê virou maioria. Dá para bater recorde de vendas num fim de semana e ter perdido 6,7 milhões de leitores em quatro anos. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo — e só parecem contraditórias para quem confunde a fila da entrada com o retrato do país.

Feira cheia é festa do livro. Ótimo. Mas festa lotada não é país lendo. Para saber se o Brasil lê, o número a olhar não é o da bilheteria do Anhembi — é o 47% que, ano após ano, encolhe. E esse não sai nas fotos.

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Fonte deste texto:

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