Capa: mapa do Brasil com o estado do Amapá destacado em amarelo no extremo norte, ao lado do título 'O estado mais isolado do Brasil — e o que mais comanda o Senado'.

Distorção Federativa · Política

O estado que aprendeu a comandar o Senado

O segundo menor eleitorado da federação (atrás de Roraima), uma capital sem estrada para o resto do Brasil, sem grande imprensa e sem clube de Série A. E, ainda assim, seis presidências do Senado em três décadas — com apenas dois senadores. Não é sorte nem carisma: é uma conta, e uma engrenagem.

Por que o Amapá? Um estado que só nasceu em 1988, cravado no extremo norte, com pouco mais de meio milhão de eleitores — menos do que muitos bairros de São Paulo. Sem jornal de circulação nacional, sem TV que dite pauta, sem time na primeira divisão, e com uma capital, Macapá, que é a única do país sem ligação rodoviária com as demais. E, no entanto, quando se olha para a cadeira mais alta do Senado nas últimas três décadas, o Amapá aparece de novo, e de novo, e de novo. Não é impressão: é registro. E a explicação não está na força do estado — está na regra do jogo.

Mapa do Brasil com o estado do Amapá destacado em amarelo no extremo norte, rotulado como o estado mais isolado do país.

O Amapá no extremo norte do país — o segundo menor eleitorado da federação (atrás de Roraima) e, ainda assim, o estado que mais vezes comandou o Senado.Base: mapa livre (Wikimedia Commons, CC BY-SA); arte própria.

1 O fato improvável

Desde a redemocratização, a presidência do Senado foi ocupada por um senador do Amapá em seis biênios. E não por seis pessoas: por duas — José Sarney e Davi Alcolumbre —, que juntas comandaram a Casa seis vezes pela mesma cadeira.

BiênioPresidente do SenadoEleito por
1995–1997José SarneyAmapá
2003–2005José SarneyAmapá
2009–2011José SarneyAmapá
2011–2013José SarneyAmapá
2019–2021Davi AlcolumbreAmapá
2025–atualDavi AlcolumbreAmapá
6
presidências do Senado pela cadeira do Amapá
2
senadores (Sarney ×4 · Alcolumbre ×2)
1
estado — o segundo menor eleitorado da federação (atrás de Roraima)

2 O poder não vem de onde costuma vir

Costumamos associar poder político a peso econômico, projeção na mídia e população. O Amapá contraria quase tudo isso:

Se o poder fosse proporcional a esses fatores, o Amapá seria nota de rodapé em Brasília. É o oposto. Logo, a origem está noutro lugar — não no estado, mas na engenharia da representação.

3 A regra que muda tudo: três senadores para cada estado

O Senado não representa pessoas: representa estados. É a lógica de uma câmara federativa, herdada do modelo norte-americano e escrita na Constituição de 1988 — cada unidade, do gigante São Paulo ao diminuto Amapá, elege três senadores. O desenho é proposital, para que os pequenos não sejam esmagados pelos grandes. Mas tem um efeito colateral aritmético: se a cadeira custa o mesmo em toda parte, ela é muito mais barata, em votos, onde há menos eleitores.

Faça a conta com a eleição de 2022: São Paulo tinha cerca de 34,7 milhões de eleitores; o Amapá, 550 mil. Divididos pelas três cadeiras que cada um preenche:

Quantos eleitores “cabem” em cada cadeira de senador Amapá ≈ 184 mil eleitores por cadeira São Paulo ≈ 11,6 milhões de eleitores por cadeira 63× maior

A barra azul é a mesma cadeira que a verdinha — só que preenchida por 63 vezes mais gente. No Senado, as duas valem igual.

~184 mil
eleitores por cadeira de senador no Amapá
~11,6 mi
eleitores por cadeira de senador em SP
63×
quanto o voto amapaense pesa a mais na composição do Senado

A distorção, em resumo: para chegar ao Senado, o voto de um amapaense vale cerca de 63 vezes o de um paulista. E uma cadeira barata é mais fácil de conquistar — e, sobretudo, de manter.

4 O preço de uma cadeira, na prática

Em 2014, Alcolumbre se elegeu senador com 131 mil votos (cerca de 36% dos válidos); reeleito em 2022, chegou a 196 mil. São números que decidem quem preside a segunda Casa do Congresso. Agora compare com um cargo bem menor, na maior cidade do país:

Votos que elegem — e votos que não bastam Alcolumbre — senador (2014) 131 mil Vereador mais votado de SP (2024) 161 mil Alcolumbre — senador, reeleito (2022) 196 mil

O vereador mais votado de São Paulo em 2024 (Lucas Pavanato, 161 mil votos) teve mais votos do que os 131 mil que elegeram um futuro presidente do Senado. A mesma urna, dois pesos.

Não é deslize de um nem proeza de outro: é a régua torta. Com 161 mil votos em São Paulo se ocupa uma cadeira na Câmara Municipal; com 131 mil no Amapá, sobe-se à linha sucessória da República. A distorção não está nas pessoas — está no mapa.

5 De Sarney a Alcolumbre: a herança contestada

Os dois donos dessa cadeira não chegaram a ela como padrinho e afilhado, mas como mestre e pupilo que disputaram o próprio assento. Sarney, maranhense e ex-presidente da República, nem disputou o Senado pelo seu estado: candidatou-se pelo Amapá em 1990, recém-promovido de território a estado, onde um colégio eleitoral minúsculo tornava o assento previsível. Dali, presidiu o Senado quatro vezes.

Alcolumbre cresceu na órbita de Sarney — até 2014. Com a cadeira do padrinho a caminho de ficar vaga, o pupilo decidiu disputá-la. Sarney não o ungiu: lançou seu verdadeiro afilhado, o ex-senador Gilvam Borges, e mandou “derrotar o moleque”. O moleque ganhou e, em fevereiro de 2015, assumiu a própria cadeira que fora de Sarney. A relação virou “de amor e ódio” — e o ex-presidente ainda tentaria derrubá-lo anos depois.

O senador José Sarney.

José Sarney: maranhense e ex-presidente da República, elegeu-se senador pelo Amapá em 1990 e, dessa cadeira, presidiu o Senado quatro vezes.Foto: via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

A mesma cadeira do Amapá — de Sarney a Alcolumbre 1991 2003 2026 José Sarney · 1991–2015 4× presidente do Senado Alcolumbre · 2015– 2× presidente do Senado 2014 · ruptura

O pupilo tomou o assento do padrinho: em 2014, Alcolumbre derrotou Gilvam Borges — o afilhado que Sarney lançara para herdar a cadeira — e ocupou a mesma vaga do mestre a partir de 2015.

A lição fecha a seção: no Amapá, o que passa de mão em mão não é a bênção do padrinho — é o assento. A mesma vaga barata e estável mudou de dono por conquista e seguiu fazendo o que sempre fez: levar quem a ocupa ao comando do Senado.

6 A engrenagem escondida: como se constroem 73 votos

Aqui está o que as votações do plenário não mostram. Alcolumbre não conquistou a presidência em fevereiro de 2025: ele passou quase seis anos montando uma rede em que quase todos os grupos tinham alguma razão prática para preferi-lo. O placar de 73 a 8 foi só o resultado final de uma eleição começada muito antes.

  1. 2019–2021

    Alcolumbre preside o Senado pela primeira vez.

  2. 2021

    Impedido de continuar, patrocina Rodrigo Pacheco para sucedê-lo — articulação com cerca de dez bancadas — e assume a CCJ, a comissão que filtra indicações ao STF. O caso André Mendonça é a prova do poder: a indicação fica meses represada à espera de sabatina.

  3. 2021–2024

    Torna-se operador central das emendas. Uma planilha obtida pela CNN lhe atribuiu a indicação de R$ 1,1 bilhão em 2021 (ele contestou, alegando legalidade e transparência). O gabinete passa a acompanhar pedidos, planilhas e liberações — e a influência sobre a distribuição segue firme durante os anos Pacheco.

  4. 2023

    Acordo costurado: apoia a reeleição de Pacheco, permanece na CCJ e garante a vaga para disputar a Presidência de novo em 2025.

  5. Fevereiro · 2025

    Volta ao comando com 73 dos 81 votos — o apoio já somava 69 senadores antes da eleição. O “condomínio” é repartido entre os blocos: PL (1ª vice-presidência, Segurança e Infraestrutura), PT (Educação e Meio Ambiente), MDB (Assuntos Econômicos e Sociais) e PSD (CCJ e Relações Exteriores).

A continuidade é impressionante: Alcolumbre → Pacheco → Pacheco → Alcolumbre — seis anos, dois presidentes, uma só rede de governança do Senado.

Os 73 votos não são 73 alcolumbristas. A eleição da presidência é a escolha de quem administra o condomínio — pauta, Mesa, comissões, relatorias, emendas. E, nessa sala, um senador vale um voto, tenha ele 200 mil ou 10 milhões de eleitores atrás. Vence quem domina a política relacional interna: não é preciso ser celebridade nacional nem liderar pesquisa — basta conhecer a fundo as outras 80 pessoas. Foi assim que PL e PT votaram no mesmo nome: não no mesmo projeto de país, e sim no mesmo sistema de distribuição de poder.

E o tamanho do estado ajuda de um jeito a mais. Em quatro décadas de Nova República, São Paulo — o maior colégio eleitoral do país — jamais elegeu um presidente do Senado; o Amapá, o segundo menor, elegeu seis. Um senador de estado grande é um centro de poder que rivaliza com todos, e coroá-lo desequilibra o jogo. O do menor estado não ameaça ninguém — e por isso é o fiador de consenso que todos os blocos aceitam.

Presidências do Senado desde 1985, por tamanho do estado São Paulo — maior eleitorado 0 presidências Amapá — 2º menor eleitorado 6 presidências

O maior colégio eleitoral do país nunca comandou o Senado na Nova República; o segundo menor o fez seis vezes.

Retrato oficial do senador Davi Alcolumbre, presidente do Senado.

Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Do segundo menor colégio eleitoral do país (atrás de Roraima) ao centro da rede que governa a Casa.Foto oficial: Agência Senado, via Wikimedia Commons.

7 O imperador do Amapá

A engrenagem tem um combustível, e ele tem nome: emenda parlamentar. Quando o presidente do Senado ocupa posição central na tramitação do Orçamento, a distorção federativa deixa de ser abstração e vira dinheiro carimbado — o que rendeu a Alcolumbre o apelido de “imperador do Amapá”. A emenda é legal e todo congressista usa; o que impressiona no caso amapaense é o volume por habitante. Em 2024, o Amapá recebeu R$ 718,2 milhões — o maior valor per capita do país.

Emendas parlamentares por habitante (2024) Amapá — maior do país R$ 890,52 / hab. São Paulo — menor do país R$ 72,57 / hab. ≈ 12× Fonte: Transparência Internacional — Brasil, Índice de Transparência e Governança Pública (2025), ano-base 2024.

A mesma lógica da cadeira barata, agora no orçamento: onde há menos gente, cada real rende mais visibilidade — e mais lealdade.

R$ 718,2 mi
em emendas para o Amapá em 2024
R$ 890,52
por habitante — o maior do país
12×
o valor per capita de São Paulo

O padrão vem de antes. No “orçamento secreto” das emendas de relator — modelo declarado inconstitucional pelo STF em 2022 —, o Amapá foi líder per capita: cinco das dez cidades campeãs do país estão no estado, e Tartarugalzinho, com pouco mais de 10 mil habitantes, recebeu cerca de R$ 87,5 milhões. Há ainda o reverso: campeão de emendas, o Amapá é também o estado menos transparente do país — 46,9 de 100 no índice da Transparência Internacional em 2025. Dinheiro que entra em recorde, prestação de contas em último lugar.

A emenda é ferramenta legítima. O que o caso ilustra é o elo final da distorção: a cadeira que custa poucos votos leva à presidência; a presidência dá acesso ao Orçamento; e o Orçamento, despejado sobre uma população mínima, vira o repasse por habitante mais alto do Brasil. A mesma conta, do começo ao fim.

8 E o Amapá, ganhou com isso?

Vem daí a pergunta mais justa de todas. Trinta anos no comando do Senado e o maior repasse por habitante do país — mas o beneficiário foi o estado ou a política? Para responder sem depender das emendas (o insumo), o caminho é olhar o resultado: o que dizem, de fora, os indicadores de desenvolvimento medidos pelo IBGE e pela ONU.

Comece pela renda. Em 2023, cada amapaense vivia, em média, com menos do que o brasileiro médio — e num patamar próximo do fundo do ranking dos estados:

Renda domiciliar per capita por estado (2023) Média Brasil: R$ 1.893 DF R$ 3.357 SP R$ 2.492 RJ R$ 2.367 SC R$ 2.269 Amapá R$ 1.520 AC R$ 1.095 MA R$ 945

Amapá (destacado) fica abaixo da média nacional e bem distante do topo — mais perto do Acre e do Maranhão, na base do ranking, do que dos estados ricos.Fonte: IBGE, rendimento domiciliar per capita, 2023.

A renda é só a porta de entrada. Em praticamente todo indicador social medido de fora — saúde, violência, saneamento, desenvolvimento humano —, o Amapá aparece no fim da fila:

Indicador socialAmapáBrasil / referência
Expectativa de vida (2023)74,3 anos76,4 anos
População em situação de pobreza (2023)~33%27,5%
Homicídios por 100 mil hab. (2024)~45~21 · entre as maiores taxas do país
Esgoto tratado — Macapá (2024)~14%entre as piores capitais
IDH (Atlas do Desenvolvimento Humano)entre os 5 menoresao lado de PA, PI, AL e MA

Um parêntese necessário sobre o PISA, tão citado quando se fala em educação: ele mede países, não estados — não existe “nota do Amapá” no PISA. O equivalente doméstico é o SAEB, aplicado pelo MEC na mesma lógica de proficiência; e nele, em 2023, o Amapá terminou na lanterna nacional, ao lado do Pará, enquanto Paraná e Ceará lideravam. O IDEB do ensino médio da rede estadual, 4,1, esteve entre os mais baixos do país. Saúde, educação e segurança contam a mesma história.

Um cuidado necessário. Nenhum desses números tem causa única. O Amapá é jovem (virou estado em 1988), pequeno, distante e cravado na Amazônia — desafios estruturais que independem de quem preside o Senado, e seria leviano atribuir esses números a um nome. Poder político não vira desenvolvimento automaticamente. Mas o contraste é legítimo, e é ele que a pergunta exige: o insumo foi máximo — poder institucional e recursos federais por habitante sem paralelo no país; o resultado, medido de fora por IBGE e ONU, segue no pelotão de baixo.

A cadeira, essa sim, entregou o que promete — não ao estado, mas a quem a ocupa: seis presidências do Senado e algumas das carreiras mais longevas da República. O Amapá deu ao Brasil os donos da segunda Casa do Congresso por trinta anos. O que recebeu de volta, os indicadores ainda procuram.

9 Por que isso importa

Nada aqui é ilegal, e quase nada é acidental. A igualdade entre os estados no Senado é uma decisão de projeto — feita para que Roraima e o Amapá tenham voz diante de São Paulo e Minas. É um valor, não um defeito. O preço embutido nele aparece quando a representação se descola tanto da população: a mesma cadeira passa a custar uma fração do esforço que custa alhures e, somada ao domínio das emendas e da política interna, essa fração vira poder desproporcional ao tamanho do estado.

O Amapá não trapaceou a regra — leu-a melhor do que ninguém. Seis presidências do Senado em três décadas não retratam um estado poderoso, e sim uma distorção bem aproveitada. A pergunta do título sempre teve resposta curta: não é o Amapá que é grande; é a cadeira que é barata — e quem a ocupa aprendeu a transformá-la em rede.

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